Guerreiro medieval de mil anos atrás pode ter sido pessoa não binária – 16/11/2021 – Ciência

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Uma pessoa enterrada há quase mil anos em Suontaka, no sul da Finlândia, recebeu como oferendas fúnebres duas espadas, decoradas com bronze e prata, enquanto suas vestes tinham broches típicos de roupas femininas.

Durante muito tempo, o sepultamento foi visto como o de uma mulher guerreira, mas uma análise de DNA sugere que quem ocupa o túmulo era portador de uma anomalia em seu genoma e pode ter tido, em vida, uma identidade de gênero não binária, mesclando os papéis tradicionais de homens e mulheres.

A hipótese é de pesquisadores da Finlândia e da Alemanha, que reavaliaram todos os artefatos encontrados no túmulo de Suontaka e conduziram a análise genômica dos restos mortais.

Os resultados foram publicados em artigo na revista especializada European Journal of Archaeology. A equipe é encabeçada por Ulla Moilanen, que está prestes a defender seu doutorado no Departamento de Arqueologia da Universidade de Turku, na Finlândia.

O enterro misterioso foi identificado pela primeira vez em 1968. Não havia sinal de caixão, e os ossos estavam muito degradados, de modo que foi possível retirar apenas os fêmures (ossos das coxas) do local. Isso faz com que tentativas de estabelecer características como o sexo e a idade com base apenas nas feições ósseas se tornem praticamente impossíveis.

O jeito foi então analisar os artefatos encontrados na sepultura. De um lado, a presença de espadas indicaria alguém do sexo masculino, embora haja exceções a essa regra na Escandinávia medieval. Por outro lado, os broches são típicos de roupas femininas.

Foi isso que levou à interpretação inicial de que a pessoa enterrada seria uma mulher com atributos guerreiros. Outros pesquisadores chegaram a sugerir que originalmente haveria dois corpos na cova, mas hoje se considera que essa hipótese foi refutada.

“Ao que parece, o indivíduo era nativo do local e pertencia a uma população falante do finlandês, a julgar pelo tipo de sepultamento e pelos broches”, explicou Moilanen à Folha.

“As espadas são de um tipo normalmente produzido na Europa Central, o que indica que a pessoa pertencia a uma família relativamente rica e com boas conexões comerciais.”

A morte teria acontecido entre os anos de 1050 e 1150, segundo uma datação feita a partir do próprio esqueleto.

A análise de DNA, usando amostras dos fêmures, não conseguiu obter muitos dados –a maior parte do material genético já tinha sido degradada.

No entanto, a equipe conseguiu desenvolver um método para tentar “pescar” apenas informações sobre os cromossomos sexuais, designados com as siglas X e Y e importantes para a determinação do sexo biológico (na maior parte da população, mulheres carregam dois cromossomos X, enquanto homens têm um cromossomo X e outro Y).

A conclusão da equipe, porém, é que muito provavelmente o indivíduo enterrado em Suontaka tinha dois cromossomos X e um Y, condição conhecida como síndrome de Klinefelter (a probabilidade em favor dessa ideia, segundo eles, é superior a 99,5%).

As pessoas com a síndrome frequentemente possuem órgãos sexuais masculinos pouco desenvolvidos e tendem a apresentar menos pelos no rosto e no corpo, bem como quadris mais largos. A presença de ginecomastia (aumento das mamas) é outra característica mais frequente entre indivíduos afetados do que na população geral.

Por outro lado, há muitos casos nos quais os portadores não chegam a perceber que têm a síndrome.

Os autores do estudo destacam que não é possível simplesmente assumir que a anomalia cromossômica teria ditado um papel ambíguo de gênero para o portador da síndrome, mas a somatória dos artefatos e da análise de DNA podem fortalecer essa possibilidade, de acordo com eles.

Estudos genômicos já tinham revelado a possível presença de pessoas com síndrome de Klinefelter em sítios arqueológicos antes (a condição não é tão rara, atingindo algo entre 1 a cada 500 e 1 a cada 1.000 bebês do sexo masculino), mas é a primeira vez que isso parece se refletir na ambiguidade dos bens funerários.

Segundo a coordenadora do estudo, o sepultamento aconteceu durante uma época de muitas mudanças no território finlandês. Na época, missionários cristãos estavam chegando à região, vindos do oeste, enquanto a área também estava sofrendo pressões políticas do leste, por parte do principado de Novgorod, na atual Rússia.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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