Governo adota ‘fake green’ e não aproveita empresariado na COP, diz negociadora do Acordo de Paris – 14/11/2021 – Cotidiano

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O fracasso do governo Bolsonaro em conter o desmatamento ofuscou a atuação eficiente do Itamaraty na COP26, diz Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente de 2010 a 2016 e uma das principais negociadoras do Acordo de Paris, pelo qual, em 2015, países se comprometeram a agir para segurar o aquecimento global.

Segundo ela, a diplomacia brasileira conseguiu reverter o desgaste na imagem do país, mas a atuação do governo manteve viva a desconfiança internacional sobre o compromisso do Brasil com a crise climática.

“A omissão do Ministério do Meio Ambiente sobre o desmatamento recorde mostrou uma contradição imediata com a eficiência da diplomacia brasileira e sugere uma ação de ‘fake green'”, afirma a atual copresidente do painel de pesquisas internacionais do programa ambiental da ONU.

Na direção contrária de líderes como o enviado americano para o clima, John Kerry, e o próprio Itamaraty, o Executivo não percebeu o poder do empresariado responsável e da sociedade civil, diz Izabella.

“A questão ambiental não existe sem a visão de mercado, que é parte da solução. Mas esse governo veio só com os setores atrasados e faz o Brasil desembarcar do mundo contemporâneo.”

No estande da sociedade civil brasileira, excluída da delegação do país, a bióloga e doutora em planejamento energético falou com a Folha entre reuniões com diplomatas e eurodeputados, na última quinta (11) e no domingo (14), após o encerramento da COP, a Conferência do Clima da ONU realizada em Glasgow (Escócia) dos dias 31 de outubro a 13 de novembro.

Izabella, que trabalhou nos governos Dilma e Lula, mas não é filiada a partidos e se define como quadro técnico, diz que o Brasil superou a condição de pária, mas vendeu uma imagem desmascarada pela realidade. “Os investidores deixaram claro que não adianta blá-blá-bla; o governo vai ter que entregar resultados no desmatamento.”

Como a sra. resume em uma frase o resultado da COP26? O Acordo de Paris está vivo.

Ainda é possível restringir o aquecimento a 1,5º C [até 2100, em relação ao período pré-industrial]? Ainda, mas só porque o texto exige dos países planos efetivos de redução de emissões até o ano que vem. É possível, mas não está garantido.

Quem foram os principais atores nesta COP? Os EUA e a China, com o acordo anunciado na quarta (10), um sinal muito forte da relevância do tema do clima, a União Europeia e a Índia, que foi dura nas negociações para proteger seu espaço geopolítico. É um país que tem clareza de seus interesses nacionais.

A importância da pressão do setor privado e da sociedade civil foi citada por vários líderes. Foi uma diferença desta COP? Ficou muito claro que o mundo se movimentou, e os governos responderam com declarações, como as de florestas e de metano, que combinam interesses políticos, econômicos e sociais.

Em outras COPs, havia uma dissociação entre as negociações nas salas e os pleitos fora delas. Em Glasgow, as preocupações do setor privado e da sociedade civil, que participaram com força, estão refletidas nas negociações diplomáticas.

O Brasil ficou no meio do caminho, ao se aproximar do empresariado, mas não da sociedade civil? O problema é que este governo fez uma aliança com o setor privado conservador, a CNI [Confederação Nacional da Indústria] e a CNA [Confederação Nacional da Agricultura], não com os Empresários pelo Clima, com o CEBDS [Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável].

O setor privado competente –não esse extemporâneo– veio aqui com interesse no mercado de carbono porque sabe que esse é o mecanismo pelo qual, no Acordo de Paris, ele é parte do jogo.

A questão ambiental não existe sem a visão de mercado, todos são corresponsáveis. Mas o viés privado do governo aqui não é o do empresário responsável com o país, com alinhamento com o desenvolvimento e a responsabilidade climática. É só uma visão de curto prazo. As pessoas que têm interlocução política vêm operar só no microcosmo.

Nem a relação com o mercado esse governo é capaz de aproveitar. Vêm com o passado e faz o Brasil desembarcar do mundo contemporâneo.


Perdeu relevância na discussão ambiental? O Brasil oficial que veio a esta COP é um Brasil menor, e ao afastar a sociedade civil obrigou-a a conversar com o mundo, não pelo ativismo, mas preparada para falar na linguagem política.

No estande da sociedade civil é que estava o país real, não só na questão climática. Direitos humanos, racismo, a questão indígena foram debatidos sob as fotografias premiadas da Amazônia feitas por Sebastião Salgado, não as de um banco de imagem, compradas por entidades do setor privado.

Entidades como Observatório do Clima, Concertação pela Amazônia e Instituto Clima e Sociedade sabem que floresta em pé é o Brasil de pé, e não de joelhos, concordando com tudo e não entregando nada.

Muita gente não percebe que uma COP não se restringe a questões ambientais; é um espaço de estratégia de geopolítica de desenvolvimento, de saber se desenvolver com a variável climática na bússola, quer pela incerteza do clima, quer pela necessidade de achar novos modelos econômicos de baixo carbono.

Os governadores ocuparam esse espaço, fizeram seus acordos. O subnacional veio para ficar, enquanto a União se apequena.

Há um empresariado moderno, contemporâneo, buscando espaços, e muito decepcionado por não termos uma lei de mercado de carbono. E um empresário “Jurassic Park”, financiando este governo “fossil fuels” [combustíveis fósseis].

O governo apresentou como vitória brasileira a aprovação das regras do mercado de carbono. Concorda? Aprovar as regras era importante e o Brasil obteve algumas mudanças que interessavam à indústria, mas, no que se refere à redução de emissões, a grande vitória do Brasil seria acabar com o desmatamento.

Ainda é preciso entender nos detalhes o que significam as mudanças e por que o governo jogou fora a lei do mercado de carbono regulado que estava no Congresso.

O problema é que o atual governo brasileiro é negacionista e, nos primeiros anos, colocou o Ministério do Meio Ambiente na linha de destruição das políticas ambientais e das relações exteriores. O sinal que vinha para o mundo era o de que o Brasil engatou a marcha a ré.

Ativistas ambientais acusam o Brasil de “greenwashing” [promessas que não se traduzem em menos emissões], mas líderes elogiaram a posição do país. Qual o saldo para a imagem do país? O Brasil é importante para o mundo porque é a Amazônia que viabiliza segurar o aquecimento em no máximo 1,5 ºC.

O Itamaraty, ainda de maneira tímida, mostrou capacidade de negociação e diálogo e conseguiu controlar os danos do governo à imagem do país.

Esta COP mostrou que o Itamaraty está de volta. Mas o impacto de declarações do presidente e do ministro [Joaquim Leite] e a ausência de políticas ambientais não permite que a diplomacia opere com a sua excelência. E a divulgação de desmatamento recorde em outubro desmonta claramente o discurso do ministro.

A omissão sobre o desmatamento recorde, divulgado em plena COP, mostra uma contradição imediata com a eficiência da diplomacia brasileira e sugere uma ação de “fake green”.

É um país que assina declarações, mas não entrega resultados. Reconhecer erros faz parte da boa política. Ao fingir ignorar o que é ruim, o ministro só sabota a credibilidade do país, fortalece a visão de que é “fake green”.

A antecipação do fim do desmatamento para 2028 não é um sinal positivo? O problema é que apresentaram uma regressão linear, como se fosse juros de casa própria, 15% a cada ano. Isso não existe. Não tem credibilidade científica, não tem credibilidade financeira, econômica, não tem credibilidade política.

O governo precisa acordar, porque o Brasil está saindo com uma conta enorme desta COP. Os EUA, a China, a Europa e as corporações e fundos, ou seja, os principais compradores e investidores, deixaram muito claro que não vão aceitar desmatamento. E isso não se resolve só com bravata.

Mas neste governo nem o básico, de cuidar do quintal, foi feito. O desmatamento explodiu. A gestão ambiental foi destruída e o ministério virou um “Ministério da Agricultura do B”.

O ministro ressaltou que os planos brasileiros foram elogiados, por exemplo, por Kerry. Há pessoas que se iludem quando o mundo internacional os recepciona. Sim, a diplomacia é educada, e quer que o Brasil volte a se alinhar com os interesses globais. A diplomacia é feita de gestos e acolhimentos, e tem memória. Não vai esquecer o que o Brasil assinou.

É como um piloto que vai voltar às corridas, mas, por enquanto, não está nem no grid; vai largar dos boxes. Sinalizaram aprovação, mas acreditam? Duvido. Vão esperar um outro governo para ver se isso fica em pé.

RAIO-X

Izabella Teixeira, 60, é copresidente do International Resource Panel do Unep, programa ambiental da ONU, e pesquisadora sênior do Instituto Arapyau. Mestre em planejamento energético e doutora em planejamento ambiental pela Coppe/UFRJ. Servidora ambiental desde 1984, foi ministra do Meio Ambiente (2010-2016), período em que foi aprovado o novo Código Florestal e realizado o Acordo de Paris.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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