Futebol brasileiro realizou ideais modernistas e exibiu suas contradições – 10/02/2022 – Esporte

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​É difícil encontrar uma imagem que dialogue mais com a obra “Operários”, de Tarsila do Amaral, do que uma arquibancada de estádio. Troque as chaminés industriais do fundo por uma marquise de concreto e tente não imaginar a geral do velho Maracanã.

A analogia estará na exposição “22 em Campo”, no Museu do Futebol, a partir de maio, que vai traçar paralelos entre a Semana de 22 —que completa cem anos neste domingo (13) e foi o marco do movimento modernista brasileiro— e o esporte.

Na década de 1920, no entanto, o futebol ainda não era o jogo popular que se tornaria. Suas arquibancadas eram recheadas de trajes de gala, binóculos e chapéus. Os jogadores dos clubes eram, em sua maioria, pessoas de camadas sociais abastadas.

Um dos principais nomes da época, o goleiro Marcos de Mendonça, era ferrenho defensor da manutenção do esporte como amador. Havia nas elites o receio de que a profissionalização trouxesse para o jogo os negros, pobres e trabalhadores das fábricas que começavam a montar seus primeiros times.

Enquanto isso, o movimento modernista, que teve como expoentes nomes como Tarsila, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, propunha a visão de uma ideia nacional e de uma brasilidade a partir do conceito da antropofagia e da mestiçagem.

Ou seja, a transformação das ideias europeias a partir das formas brasileiras, construindo uma nova cultura a partir de negros, índios, mestiços e brancos.

“Nem o Oswald está pensando no futebol, nem o futebol está pensando no Oswald. Mas, de certa maneira, aquilo que uma ala do modernismo propôs que fosse a nossa grande originalidade o futebol brasileiro fez”, diz o historiador Luiz Antônio Simas.

“O futebol prefigurou essa grande afirmação do negro, do mulato e do indígena como grandes figuras capazes de se tornar figuras públicas e inventar uma estética que é amplamente reconhecida. É a consumação do projeto modernista, sem que tenha havido uma relação direta entre as duas coisas”, afirma Guilherme Wisnik, curador da “22 em Campo”.

“Esse processo de popularização do futebol tem que ser inserido dentro da ideia do modernismo, sim, porque nós jogamos o futebol canibalizando o jogo inglês. O exemplo mais contundente de antropofagia do Brasil não está nas letras, nas músicas, nem no pensamento social. Está no futebol”, acrescenta Simas.

A consagração de uma forma brasileira de jogar futebol foi precedida de uma rápida popularização do esporte.

Se a Semana de 22 foi agitada pela celebração do centenário da Independência do Brasil, campeonatos como o Paulista e o Carioca também o foram, com o charme de o vencedor se intitular “campeão do centenário”. Em 1922, o Brasil recebeu o Campeonato Sul-Americano, que viria a se chamar Copa América, e foi campeão.

No contexto de popularização do futebol estavam a influência do rádio, o surgimento das grandes massas urbanas e a era Vargas, que impulsionou o jogo na tentativa de forjar uma identidade nacional.

Ao esporte inglês foram somados o drible, a ginga, traço que remete à herança africana e à capoeira. O jogo quebrou a racionalidade europeia e deu ênfase ao lúdico.

Mas, no processo de realização do ideal modernista, o futebol trouxe à tona também suas contradições. Por exemplo o elogio à mestiçagem ou a ideia de uma integração social entre negros, brancos e índios de forma cordial.

É o Macunaíma, personagem de Mário de Andrade, que virou samba-enredo da Portela nas mãos de Norival Reis e David Corrêa: “índio, branco, catimbeiro, negro, sonso, feiticeiro”.

“Essa visão gilbertofreyriana escamoteia toda a violência que os negros sofreram, inclusive no futebol. A história mostra que houve uma grande dificuldade para os negros serem incorporados no esporte”, diz Wisnik.

“O futebol carrega todas as contradições do modernismo, inclusive a do mito da mestiçagem cordial. Na Copa de 1958, o rei da Suécia cumprimenta um descendente de banto escravizado, o Pelé, e um índio funiô, Garrincha. Nisso há um discurso: a ilusão de que nós resolveríamos, no campo da cultura, as nossas mazelas sociais: o futebol resolvendo nossos dilemas históricos”, pontua Simas.

A contradição fica exposta no modernismo quando ele valoriza as culturas negra e indígena pela sua dimensão espiritual, ritualística e instintiva (o que beira o primitivo), enquanto reserva à tradição europeia o lugar do civilizatório e racional.

Craques negros (como Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Didi e Pelé) eram os exemplos positivos dessas características.

Já o também negro “Barbosa, da Copa de 1950, virou grande bode expiatório nacional”, lembra Wisnik, citando o jogador que até hoje é atacado como responsável pelos dois gols do Uruguai que calaram o Maracanã naquela final de Mundial.

“O futebol mergulha no discurso de que o negro é a corporeidade livre, mas não tem a estrutura psíquica e intelectual capaz de suportar a tensão do jogo. Pesquisei muita coisa que diz que o que aconteceu [a derrota da seleção] foi porque o negro é instintivo e não tem a necessária frieza para segurar a pressão que demanda a posição de goleiro“, completa Simas.

Os dois concordam que o maior símbolo do futebol como realização modernista é o estádio do Maracanã, tema de livro recente do historiador.

O “estádio nação” representa a ideia de um espaço democrático, que inclui todos, mas não de forma igualitária —tal qual o modernismo, que resguarda a cada cultura a sua contribuição dentro de um ideal mestiço.

Da geral aos camarotes, a massa tem espaço na festa popular que amenizaria as tensões sociais em um encontro cordial entre as desigualdades.

Curiosamente, diz Simas, o Maracanã foi “destruído pela pós-modernidade”: o processo de elitização pelo qual passou o estádio nos últimos anos, sua transformação em arena, o fim da geral (o setor popular) e o aumento do preço dos ingressos.

“Esse novo modelo das arenas é, sim, neoliberal e absolutamente elitista, de um futebol que se tornou um ativo no capital financeiro Internacional”, diz Wisnik.

“O Brasil é um caso de reinvenção. Ou você reinventa ou vai pro beleléu. Precisa reinventar. A ideia que vem do modernismo já era, morreu. E não sei se é ruim ter ido pro saco. Você tem que pensar de uma nova perspectiva”, encerra Simas.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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