Fronteira da Rússia é a mais perigosa do mundo, diz autora – 02/04/2022 – Mundo

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“Putin é como Hitler”, explicou Pima, 25, à medida que avançava pelo corredor do hospital, metro após metro. O rosto estava cheio de cicatrizes, os olhos haviam perdido sua expressão original. “Como é possível um país simplesmente vir e se apoderar de outro, em pleno século 21?”

Frases parecidas foram repetidas inúmeras vezes ao longo das últimas semanas, mas esta em particular foi proferida há seis anos. Com justa razão, o mundo ficou impressionado com a resistência ucraniana diante do poderio russo. Os ucranianos, por sua vez, já estão acostumados: são oito anos vivendo em conflito.

Em 2016, todos os quartos do hospital militar de Kiev estavam ocupados por homens como Pima. Pessoas comuns que tiveram seu cotidiano interrompido pela guerra, pais de famílias, operários da fábrica de papel, carpinteiros, professores, todos que partiram para a frente de batalha lutar por seu país

E agora também lutam por suas famílias, seus lares e sua liberdade.

O déspota deixou cair a máscara

Em 2016, a guerra já durava dois anos. Não era mais uma novidade, e os correspondentes estrangeiros já nem escreviam tanto sobre o assunto, mas os rastros dela eram visíveis em toda parte. Vias bloqueadas, comboios militares. Fotos dos mortos exibidas na praça principal de todas as cidades. Mais de 10 mil vidas já haviam sido perdidas nos combates.

Assim que cruzei a fronteira da autoproclamada república separatista de Donetsk, escutei os tiros ao longe, como fogos de artifício. A guerra no leste ucraniano jamais se tornou um conflito dormente, como tantos haviam predito —inclusive eu. Sempre se manteve ativa, com embates constantes e a perda esporádica de vidas humanas até se transformar, há pouco mais de um mês, num inferno em larga escala.

Agora a Europa está diante de uma nova guerra, dizem. Nada disso: a guerra na Europa já dura oito anos. Embora a Rússia jamais tenha admitido interferir diretamente no leste da Ucrânia até então, a despeito das fartas evidências em contrário, o déspota do Kremlin finalmente deixou cair a máscara. Ele deseja ter, de volta sob seu jugo, os democratas ucranianos, soberanos e amantes da liberdade. Por vezes a fio, declarou que a Ucrânia não é um país, mas uma parte da Rússia.

‘Não existe esse lugar chamado Ucrânia’

Na república separatista de Donetsk, em 2016, deparei com a mesma retórica.

“Me diga o que quer dizer ‘Ucrânia'”, desdenhou Linar, um soldado russo que veio para a zona de combate por iniciativa própria, segundo ele mesmo disse. “Exatamente!”, emendou triunfal, antes que eu conseguisse abrir a boca. “Não existe esse lugar chamado ‘Ucrânia’. Quem aqui se diz ucraniano é, na verdade, russo. O que há são dialetos russos difíceis de entender”, acrescentou. “O ucraniano é só mais um desses dialetos.”

Ideias como essa floresceram na Rússia e no leste ucraniano depois da Revolução Laranja, em 2004, mas têm raízes históricas bem mais profundas. Depois que os últimos cossacos livres foram derrotados por Catarina, a Grande, no século 18, a Ucrânia passou a ser referida oficialmente pelos russos como “Malorossia”, Pequena Rússia.

Da mesma forma, o idioma ucraniano também foi afetado por isso. Em 1864, Alexandre 2º, mesmo tendo adotado uma série de reformas liberalizantes, proibiu o ensino do ucraniano e seu uso em rituais religiosos. Cerca de dez anos mais tarde, a medida foi ampliada e passou a abranger toda e qualquer publicação, à exceção de documentos históricos. A proibição vigorou até a revolução de 1905.

A se crer nessa retórica infantil e autoritária, seria mais adequado então dizer que Rússia é uma Pequena Ucrânia. O primeiro registro do nome “Moscou” surge em 1147, quando a cidade não passava de uma aldeia de casebres de madeira. Nessa época, o reino de Kiev, que abrangia vastas áreas da Rússia europeia de hoje, era uma potência havia quase três séculos.

Uma típica história europeia

Não faz sentido, evidentemente, basear a geopolítica atual em fronteiras milenares —ou, nesse caso, centenárias—, embora essa tenha sido uma prática bastante comum na Europa.

Ao longo de séculos, partes do território ucraniano foram governadas por, entre outros, Polônia, Principado da Lituânia, Polônia-Lituânia, cossacos livres, canato da Crimeia, Império Otomano, Império Austro-Húngaro, Império Russo e União Soviética.

Além disso, o território foi invadido por mongóis, tártaros, suecos e alemães, e mercadores do sul da Europa controlavam pequenos assentamentos comerciais no mar Negro. A cidade portuária de Odessa, por exemplo, foi fundada por um almirante hispano-napolitano na pequena aldeia tártara de Khadjibei, e recebeu o nome do assentamento grego de Odessos, localizado um pouco mais ao sul.

A extensa história ucraniana é, portanto, uma típica história europeia e está intimamente ligada ao grande vizinho a leste. A exemplo de várias ex-repúblicas soviéticas, as fronteiras atuais da Ucrânia foram estabelecidas durante a era soviética, mais precisamente após a Segunda Guerra, quando a cidade de Lviv e outras regiões orientais foram anexadas à URSS.

Em 1954, Khruschov transferiu a península da Crimeia à república soviética da Ucrânia, certamente por razões práticas —a península está ligada ao território ucraniano, não ao russo.

Enquanto a União Soviética perdurou, essas fronteiras tinham pouco significado.

O veraneio que mudou o mundo

Curiosamente, foram os dois países sobre os quais Putin tenta impor seu domínio hoje que selaram o destino da União Soviética.

Em 24 de agosto de 1991, o Parlamento ucraniano votou pela independência. Em 1º de dezembro, uma essa decisão foi ratificada por um referendo popular. Ao contrário do que Gorbatchov havia previsto, a maioria esmagadora da população ucraniana quis a independência, inclusive os habitantes das áreas controladas pelos russos na Crimeia e na bacia do rio Don (Donbass).

Com o referendo, ruíram os planos de Gorbatchov de estabelecer uma federação abrangendo as antigas repúblicas soviéticas, exceto o Báltico, que o próprio Gorbatchov já dava como perdido.

Em 7 de dezembro, Boris Iéltsin, então presidente da república soviética russa, viajou para uma dacha de veraneio nas florestas da Rússia Branca, acompanhado pelo líder belarusso Stanislav Shushkevich e pelo presidente ucraniano Leonid Kravtchuk. No dia seguinte, os três divulgaram um comunicado à imprensa reconhecendo que, “enquanto entidade do direito internacional e realidade geográfico-política, a União Soviética deixou de existir”.

Os 15 Estados soviéticos de então seriam reunidos na Confederação de Estados Independentes, uma aliança instável e desprovida de liderança central, cuja capital era Minsk, não Moscou. O papel da Rússia como centro de poder entrava para a história.

Em menos de um dia, os três líderes selaram o destino do maior país do mundo.

Sobrepondo princípios a vidas humanas

Em seu discurso anual ao Parlamento, em 2005, Putin chamou a derrocada da União Soviética de “maior catástrofe do século 20” —uma afirmação com a qual nem todos os ucranianos concordam. O povo ucraniano pagou um preço altíssimo por ter feito parte do enorme experimento socialista.

A implantação dos planos quinquenais e da coletivização dos meios impôs um sofrimento extremo às cidades e vilarejos do interior da Ucrânia. Na virada de 1932, o primeiro plano quinquenal foi posto em prática.

Uma vez que o objetivo era modernizar a agricultura e incrementar a produção, foram estabelecidas cotas para os cinco anos seguintes. Por diversas razões, a safra de 1932 foi pior que a dos anos anteriores. Os fazendeiros foram obrigados a ceder todo o alimento que produziam, mas mesmo assim não conseguiam cumprir as cotas. O roubo, ainda que de um punhado de grãos, era punido com a morte. Embora as lideranças políticas em Moscou dispusessem de relatórios que davam conta da epidemia de fome, decidiram elevar as cotas para o ano de 1933.

Não existe uma cifra exata de quantos pereceram de fome ao longo desses anos, mas pesquisadores estimam algo entre 3 milhões e 4 milhões de pessoas. Na Ucrânia, a epidemia de fome é chamada de Holodomor, corruptela de “moriti holodom”, que significa “impor fastio até a morte”. As autoridades ucranianas consideram o Holodomor um genocídio do povo ucraniano.

Em 26 de abril de 1986, dia do golpe de misericórdia na União Soviética, ninguém foi capaz de antever, nem mesmo em Moscou ou Washington, o que viria a suceder numa cidadezinha ucraniana sobre a qual poucas pessoas haviam ouvido falar: Tchernóbil.

O Kremlin tentou, como de hábito, abafar a catástrofe, mas a radiação não conhece fronteiras e, dois dias depois, os alarmes começaram a soar na Suécia. Três milhões de pessoas, a se crer nos números oficiais ucranianos, sucumbiram ao acidente. Mais de 5 milhões de ucranianos e belarussos ainda vivem em áreas afetadas pela radiação.

Agora, o mundo prende o fôlego enquanto a artilharia russa mira, intencional e conscientemente, em usinas atômicas ucranianas.

O pesadelo do Kremlin

Não obstante, a declaração mais grave sobre o colapso da União Soviética foi feita por Putin em 2005. E não foi por acaso. Um ano antes, manifestantes ucranianos acamparam na praça Maidan, em Kiev, em protesto contra a fraude eleitoral nas eleições presidenciais.

Os manifestantes tiveram êxito ao final: um terceiro turno foi realizado, e o líder da revolução, Viktor Iuschenko, foi eleito presidente da Ucrânia, enquanto Viktor Ianukovitch foi obrigado a sair de cena. Os protestos ucranianos alarmaram Putin, cujo maior temor é uma revolta semelhante em território russo.

Desde a independência, e a despeito de episódios de convulsão social, a política ucraniana, ao contrário da russa, tem assumido um caráter cada vez mais livre e democrático. A Rússia teve um único presidente desde a virada do milênio —mesmo durante os quatro anos em que Putin assumiu o cargo de primeiro-ministro, ninguém teve dúvidas de quem dava as cartas ali. Nesse ínterim, a Ucrânia teve seis mandatários.

Durante as Olimpíadas de Inverno em Sochi, em 2014, Putin decidiu agir. Não foi por acaso, desta vez tampouco.

Meses antes, protestos voltaram a irromper em Kiev. As pessoas estavam furiosas por que Viktor Ianukovitch, deposto pela Revolução Laranja, porém vitorioso na eleição de 2010, decidiu de última hora ignorar um alentado acordo de associação à União Europeia. Em vez disso, preferiu estreitar os laços econômicos com a Rússia por meio de empréstimos milionários e filiação à União Eurásica —também chamada de União Aduaneira, na qual é a Rússia quem dá as cartas.

Mal fevereiro chegou e a situação se agravou. A polícia começou a atirar contra os manifestantes, e mais de uma centena de pessoas morreram. Em 22 de fevereiro, Ianukovitch fugiu às pressas para a Rússia. Dois dias depois, enquanto líderes mundiais assistiam à cerimônia de encerramento dos jogos em Sochi, manifestações pró-russas começavam a sacudir a Crimeia.

Semanas mais tarde, tinha início a guerra no leste ucraniano. É o mesmo conflito que continua até hoje, mas que agora tem lugar na Ucrânia inteira.

A fronteira mais perigosa do mundo

Ser vizinho da Rússia sempre foi um risco. Dos 14 países que fazem fronteira com o país, apenas um não esteve em guerra ou foi ocupado pela Rússia: a Noruega. Enquanto potências europeias como Grã-Bretanha e França colonizavam territórios em outros continentes, a Rússia sempre se expandiu alargando suas fronteiras territoriais.

Cada czar ou czarina não media esforços para deixar como legado um império ainda maior do que aquele que herdara. Ainda hoje é possível encontrar grupos russos de extrema direita que não perdoam Alexandre 2º por ter, à força e por necessidade, vendido o Alasca aos americanos, em 1867.

Quem um dia esteve sob domínio russo está sempre em risco de ser reconquistado —que o digam os povos vizinhos, assim como seus governantes. Muitas das ex-repúblicas soviéticas são hoje Estados autoritários, sem o menor pendor por valores como democracia e liberdade de expressão, dançando no ritmo da melodia executada pelo Kremlin.

Georgianos e ucranianos foram os que orgulhosamente seguiram na direção oposta, sem contar com a proteção de amigos poderosos e alianças militares, tal como fizeram os países bálticos.

Em 2014, a Rússia provavelmente acreditava que as cidades da bacia do Don cairiam como um castelo de cartas. “A população de Mariupol e Kramatorsk anseia por ser libertada”, afirmou um piloto de tanque que encontrei em Donetsk. “O Ocidente está prestes a ser destruído por muçulmanos e homossexuais, apenas a Rússia é forte”, emendou ele bombasticamente.

Os “libertadores” russos não foram recebidos com júbilo, mas com tiros de fuzil. Se as forças militares ucranianas estavam mal preparadas para a guerra, o moral das tropas não se deixou abater. Os separatistas tiveram que se haver com uma estreita faixa de terra de duas províncias fronteiriças à Rússia, a leste.

Uma característica marcante dessas repúblicas em 2016 era o vazio populacional. Mais de 2 milhões de pessoas já haviam escapado da guerra, a maioria para outras regiões da Ucrânia. Não desejavam ser “libertados”, queriam viver em paz.

Hoje, não há mais lugares seguros na Ucrânia, e centenas, talvez milhões de pessoas, tentam desesperadamente deixar o país. Centenas de milhares, talvez milhões, estão de armas em punho. Desta vez, mais bem preparados.

Será a Ucrânia a queda de Putin?

Os russos novamente subestimaram os ucranianos. É o caso de questionar com quais estrategistas Putin tem se assessorado.

No hospital militar de Kiev, Serguei, 30, ocupava o leito vizinho ao de Pima. A perna direita pendia do teto, engessada até a coxa. “A paz”, disse ele laconicamente, “depende dos políticos, não dos soldados. A nós cabe apenas resistir.”

“A guerra não passa da continuação da política por outros meios”, enunciou o teórico militar alemão Carl von Clausewitz (1780-1831), no clássico “Da guerra”. Ele também escreveu: “Uma vez que a guerra […] é ditada por seu objetivo político, é o valor de tal objetivo quem determina suas vítimas, tanto no que respeita à violência bélica quanto à duração do conflito. Uma vez que os esforços excedam o valor do objetivo político, deve-se abrir mão deste em favor da paz”.

Se há uma lição que podemos aprender dos déspotas belicosos ao longo dos séculos é a de que não conhecem autocontrole, mesmo quando seus objetivos políticos são inatingíveis. Eles precisam ser detidos, por todos os meios possíveis. Sobretudo internamente.

A Rússia, por sinal, é um país com tradição em revoluções.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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