Filme ‘Halloween’ continua popular, mas sucesso do original não se repete – 30/10/2021 – Cinema e Séries

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The New York Times

As bilheterias espantosas do final de semana de estreia de “Halloween Kills – O Terror Continua”, o 12º filme na duradoura franquia “Halloween”, podem ter surpreendido alguns observadores –afinal, as audiências continuam a hesitar quanto a ir ao cinema, e as críticas ao novo capítulo da saga não foram amáveis.

E os críticos não estavam errados. O filme é verdadeiramente ruim, um esforço confuso de misturar terror, comédia colateral e temas socialmente relevantes. Mas da mesma forma que não é possível matar Michael Myers, o psicopata armado de um facão que é a figura central dos filmes, não se pode matar “Halloween”, que já dura muito mais do que todas as demais séries de filmes de terror da mesma era, como “Sexta-Feira 13” (que está em repouso desde 2009) e “A Hora do Pesadelo” (idem desde 2010).

Assim, o que fez com que essa série específica tenha se provado tão duradoura? O que faz com que os fãs –e me considero um deles– retornem, concedendo uma sucessão de segundas oportunidades para a grandeza a essa sequência de filmes, embora estejamos plenamente conscientes de que é inevitável que eles nos decepcionem? Um estudo dos cinco primeiros filmes da série, agora disponíveis nos EUA em uma nova edição Blu-ray para colecionadores, lançada pela Shout Factory, e também nas principais plataformas de streaming, oferece algumas respostas.

É impossível superestimar o impacto de “Halloween – A Noite do Terror”, primeiro filme da franquia, dirigido por John Carpenter em 1978, um filme hoje tratado como sagrado pelos devotos do terror – e por bons motivos. Era um thriller inovador, literalmente desde o primeiro quadro: a abertura era uma longa sequência em que víamos um assassinato pelos olhos do assassino. É fácil perceber o que os imitadores do filme copiaram: o enquadramento em primeira pessoa, com um toque compulsivo, a nudez sem motivo, o moralismo antiquado (a vítima é assassinada depois de um encontro sexual casual).

Poucos desses imitadores se preocuparam em reproduzir o domínio técnico de Carpenter –aquela introdução de quatro minutos sem cortes, claramente inspirada por “A Marca da Maldade”, de Orson Welles, corre pela tela como uma história completa –ou em usá-lo com a mesma engenhosidade que é exibida em “Halloween – A Noite do Terror”, o que retarda ao máximo possível o momento do choque, em que Carpenter enfim revela que o matador é Michael Myers, que, aos seis anos de idade, esfaqueia a própria irmã.

Em um forte contraste com os filmes sobre assassinos armados de facas que a série inspirou e mesmo com as continuações do original, em “Halloween – A Noite do Terror”, mal se vê sangue na tela. Carpenter e Debra Hill, que escreveu o roteiro e produziu o filme com ele, dedicam boa parte dos primeiros 60 minutos da história a criar personagens distintos e memoráveis, especialmente a última das potenciais vítimas de Myers, a babá literata Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), e seu psiquiatra e antagonista, o Dr. Loomis (Donald Pleasance).

Assim, em lugar de chafurdar no sangue e violência, a ênfase do filme original está no suspense, terror e clima. A direção elegante de Carpenter faz uso inventivo do espaço negativo e da escuridão (especialmente ao mover a fantasmagórica máscara branca de Myers pelos espaços noturnos sombrios criados pelo diretor de fotografia Dean Cundey), e dos planos de fundo e frontais, que frequentemente revelam a presença do assassino ao espectador antes que ele seja visto por suas potenciais vítimas. Carpenter também manipula com maestria o ritmo da história, que sobe e desce em ondas ao longo da primeira e da segunda partes do filme, antes de chegar ao terço final, caracterizado por cenas implacavelmente assustadoras.

“Halloween – A Noite do Terror” foi uma sensação em termos de bilheteria, faturando US$ 47 milhões (R$ 265 mi) com um orçamento de US$ 325 mil (R$ 1,8 mi). Esse retorno assombroso sobre o investimento resultou em um grande número de imitações rápidas e baratas –afinal, o arrazoado diria, contar com astros e uma produção esmerada é desnecessário. Basta um elenco de jovens desconhecidos e atraentes, e um maluco armado com uma faca. Nenhum desses sucessores foi mais transparente, ou encontrou mais sucesso, do que a série “Sexta-Feira 13”. Os realizadores desses filmes não foram capazes de reproduzir o domínio estilístico de Carpenter, e por isso investiram em cenas de matança intrincadas, e recorreram a baldes e mais baldes de sangue.

“Sexta-Feira 13” e sua primeira continuação já tinham chegado e partido antes que “Halloween 2 – O Pesadelo Continua” aparecesse nas salas de cinemas, em outubro de 1981. Mas a influência da série rival é percebida claramente na continuação. Ainda que Carpenter e Hill tenham escrito o roteiro e produzido o novo filme (com a responsabilidade pela direção transferida a Rick Rosenthal), a violência é muito mais extrema e o número de cadáveres imensamente maior, da mesma forma que o número de cenas concebidas para fazer com que os telespectadores se assustem –um sinal claro de que os realizadores não acreditavam que a audiência continuasse a ter paciência para o desenvolvimento lento da história que caracterizava o filme original.

Mas “Halloween 2 – O Pesadelo Continua” ainda assim tem momentos de terror visceral dignos do primeiro filme, e composições de cena deslumbrantemente engenhosas. Em seus melhores momentos, filmes como esses conseguem acesso a um medo primal que existe em todos nós: o de sermos perseguidos, o de termos de correr para salvar nossas vidas, ou o de percebermos tarde demais que não há saída.

É por isso que a cena que mostra Laurie presa em um armário e aparentemente sem ter como escapar, no primeiro filme, fica tão marcada na memória dos espectadores; e é igualmente por isso que a sequência da perseguição no porão, no segundo filme, é tão efetiva. Ao longo da série, personagens e diálogos retornam à ideia do “bicho-papão”, uma força malévola incansável que seus oponentes, é claro, não conseguem matar. “Halloween” funciona em nosso inconsciente, em boa medida, porque tem raízes nos medos que sentimos durante a infância. (Já os medos de “Sexta-Feira 13” são preocupações adolescentes: ser apanhado em flagrante, seja fazendo sexo, seja usando drogas, seja fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.)

A disposição dos filmes “Halloween” de assumir riscos, pelo menos nos primeiros episódios, parecia ainda mais forte na continuação seguinte. “Halloween 2 – O Pesadelo Continua” termina, quem sabe, se tivermos sorte, com a morte de Michael Myers, e no ano seguinte Carpenter e Hill produziram “Halloween 3 – A Noite das Bruxas”, um esforço por redefinir a série como uma antologia de terror, contando uma história completamente diferente, e em estilo completamente diferente. A história de um plano maligno para um homicídio em massa de crianças por meio de máscaras de Halloween assassinas fica mais perto da ficção científica da década de 1950 (ou, ao menos, de retomadas desse estilo na década de 1970, a exemplo de “Invasores de Corpos”, refilmagem de “Vampiros de Almas”) do que de qualquer coisa que estivesse acontecendo no ramo dos filmes de terror na década de 1980 –e, talvez como resultado, as audiências rejeitaram essa proposta de repensar “Halloween”.

Essa foi, em retrospecto, a última vez que a série tentou inovar, em lugar de acompanhar as tendências do momento. O que nos conduz provavelmente à outra explicação para a durabilidade de “Halloween”: sua maleabilidade. Quando Moustapha Akkad ressuscitou a série em 1998 com “”Halloween 4: O Retorno de Michael Myers”, o produtor deu aos fãs o que eles desejavam –a mesma história de novo—, ainda que o filme, e sua continuação lançada rapidinho no ano seguinte, “Halloween 5: A Vingança de Michael Myers”, se parecessem mais com “Sexta-Feira 13” do que com qualquer coisa que Carpenter e Hill tenham feito. Os dois filmes causavam momentos de susto real, e traziam alguns desempenhos impressionantes, mas a sensação era de que a série tinha passado a reagir às tendências, em lugar de ditá-las, um padrão que se manteve nas continuações seguintes: o brincalhão “Halloween H20: 20 Anos Depois”, influenciado por “Pânico”; o terror extremo do “Halloween” de Rob Zombie, em 2007, uma mistura de refilmagem e história de origem; e os gestos de relevância social das continuações mais modernas.

Alguns desses esforços para repensar, redefinir e repaginar aquele exercício original de suspense, comparativamente simples, fracassaram, e outros obtiveram sucesso, mas continuamos a pagar os ingressos, mesmo que as críticas sejam péssimas e as recomendações dos amigos sejam negativas, porque crescemos assistindo a esses filmes.

Em parte, isso acontece por pura nostalgia, e nada mais. Os filmes da série “Halloween” nos fazem lembrar de noites em que contrabandeávamos vídeos da série quando íamos dormir nas casas de amigos, para assistir escondidos depois que os pais caíam no sono. A série dificilmente voltará a galgar as mesmas alturas, e todos sabemos disso. Mas continuaremos a comparecer, como os fãs ardorosos de um time de beisebol que não conquista um título há anos mas ainda assim consegue vencer um grande jogo de vez em quando.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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