Filha de Pelé, Kely Nascimento vê onda conservadora como reação ao progresso – 15/11/2021 – Esporte


Kely Nascimento, 54, tem orgulho de ser filha de quem é.

Descreve-se como ativista sobre questões de raça e gênero, apresenta os pronomes com os quais se identifica (uma preocupação da comunidade LGBTQIA+ com as pessoas não binárias), comemora o lançamento do filme Marighella, compartilha publicações da Mídia Ninja, defende a vacinação e debate até sobre a questão palestina.

“Essa onda conservadora é uma reação a um progresso inevitável, uma reação forte a uma presidente mulher e um presidente negro”, diz à Folha.

Moradora de Nova York desde os oito anos de idade e graduada em artes, é mãe de quatro filhos, comanda a Nascimento Foundation e está realizando o documentário “Warriors of a Beautiful Game” (Guerreiras do Jogo Bonito), sobre futebol feminino, que deve ser lançado em 2022.

“[Com o filme] Vi a conexão de ser filha do Pelé e falar sobre futebol. Vi no futebol feminino um espelho para toda desigualdade de gênero no mundo, refletida no futebol de cada país. Foi um casamento de todas as minhas paixões.”

Como foi sua infância? Foi a mais normal que poderia ter sido sendo meu pai quem ele é. Mudar para os Estados Unidos era que nem ir para Marte. Eu sonhava um dia ter um telefone de vídeo para poder ver minha avó todos os dias. Estudei na escola da ONU, que me deu um senso de pensar de um jeito global. Entender que outras pessoas no mundo tinham outras ideias, outras paixões, outras religiões que eram tão importantes quanto as minhas.

E quando você começou a se interessar por temas políticos? Eu sempre fui interessada e a gente sempre falava sobre raça na minha casa. As pessoas falam que meu pai não se posiciona, mas ele é de uma cultura completamente diferente. Meu pai conta muita história de racismo. A minha mãe [Rosemeri Cholbi] sempre mostrou as diferenças de como as raças eram tratadas na televisão, nos filmes. E notei bem cedo que em todo lugar que a gente era convidado não tinha ninguém que se parecia comigo [negra de pele clara], só quem estava servindo, e absolutamente ninguém como meu pai [negro de pele escura], nem servindo.

Você concorda com as críticas de que seu pai não se posiciona? Seria um mundo maravilhoso se o Pelé fosse o Pelé e também fosse super ativista. As pessoas gostam de comparar ele com o Muhammad Ali. Seria interessante comparar com o Cassius Clay [nome de Ali antes de se converter ao islamismo]. Aí você vai ver a cultura de onde meu pai foi formado como pessoa e a cultura onde o Cassius Clay foi formado. A educação, as influências, os exemplos de ativismo. O Cassius Clay, claro, tinha uma alma ativista. Mas é diferente estar em um país democrático que tem um governo que está agindo de um jeito não democrático do que em um país com um governo militar.

Então, para te responder, concordo com a frustração atrás das críticas e concordo também que ele [Pelé] fez muito só por existir. Seria o máximo se quando mais jovem ele tivesse uma influência que o tornasse um super ativista, seria ideal, mas se você ver pela lente do Brasil de 1960… Não é muito difícil entender. Até recentemente, o esporte era o único jeito que uma pessoa como o meu pai podia ver o mundo. Tenho muita gratidão por ele ser negro. Um negro que saiu do Brasil representando o país, isso é muito forte.

Você lembra de ter sofrido racismo com seu pai? Com ele, não. Mas sem ele, era comum. O prédio do meu pai em Nova York era em um lugar bem branco, e quando eu chegava, sempre me perguntavam para quem eu trabalhava, de qual família eu era babá. Sempre tive esse cotidiano de microagressões, até hoje. Minha vizinha aqui [nos EUA] não acreditava que eu tinha comprado essa casa.

Por que usar o futebol nas suas iniciativas? O esporte é um espelho da sociedade, então o esporte mais praticado no mundo vai ser um dos melhores espelhos. Isso é a primeira coisa, o esporte é uma das melhores ferramentas sociais, junto com a arte e a música. E também porque sou filha do Pelé, trago um holofote natural para as coisas que me incomodam e das quais quero falar. Via que ele era uma pessoa que trazia muito amor e carinho das pessoas com quem ele estava e eu tinha na cabeça: “Como é que a gente pode pegar um pouquinho disso e usar para continuar fazendo coisas boas?”.

E você está fazendo um filme sobre futebol feminino… Quando conheci a Laís Araújo [jogadora e protagonista], comecei a pesquisar sobre futebol feminino e, nossa, fiquei chocada. Sei que o Brasil é um país extremamente machista, mas o que me chocou foi que eu não sabia nada de futebol feminino. Como é que eu não sabia que até 1981 era ilegal no Brasil? [A prática foi ilegal entre 1941 e 1979, e só foi regulamentada em 1983] Aí vi a conexão de ser filha do Pelé e falar sobre futebol. Vi no futebol feminino um espelho para toda desigualdade de gênero no mundo, refletida no futebol de cada país. Foi um casamento de todas as minhas paixões. A ideia é fazer um filme que reflita a paixão, o carinho e o amor que essas mulheres têm pelo futebol de um jeito cinemático que geralmente só é usado para o futebol masculino.

Por que o movimento antirracista no esporte, em 2020, foi mais tímido no Brasil do que nos EUA? Aqui eles são mais confortáveis em falar desse tema, além do atleta aqui estar em um nível econômico superior. Mas estamos avançando no Brasil, com certeza vai chegar a nossa vez. Só que vai ser diferente, porque é um país diferente, outra cultura. Fico muito feliz quando ouço a Djamila Ribeiro palestrar, quando vejo filmes como Marighella.

Você já sofreu retaliações pelo que posta na internet? Sim, mas também não sou boba, quero estar viva para poder continuar gritando. Não compro briga com gente louca, tem muita gente que só tem raiva. Para mim, essa onda conservadora é uma reação a um progresso inevitável, uma reação forte a uma presidente mulher e um presidente negro. Você tem que entender que as leis que nos governam são feitas por um sistema racista, apenas ser uma pessoa não racista não muda o fato de você [branco] aproveitar a leis que foram feitas para você vencer. E esse é um assunto muito difícil para muitas pessoas, porque imediatamente a pessoa se sente culpada e ninguém gosta de se sentir culpado. Por isso essa onda é uma reação.

Na última internação do seu pai, você postou muito sobre ele e suas redes cresceram. Mudou algo para você? Quando comecei a postar no hospital, meus seguidores dobraram. Foi interessante, porque primeiro tive que bloquear os trolls do meu pai, que vieram também. Depois, não sabia se esses novos seguidores queriam saber o que eu quero falar. Pensei: “Bom, vamos ver o que vai acontecer quando eu voltar para casa e começar a postar, por exemplo, contra o Bolsonaro”. Até agora está tudo bem! É uma coisa que eu tentava muito evitar quando jovem, essa cobrança de ter que ser o que as pessoas esperam de você. Mas hoje é diferente, não me afeta tanto, porque sei quem sou.

Você já foi julgada por conseguir algo ‘só por ser filha do Pelé’? Não sei se as pessoas pensam assim. Essa era minha insegurança, eu achava que era sempre melhor as pessoas descobrirem isso depois de já saberem que eu merecia estar naquele lugar. Sempre tive muito orgulho de ser filha do Pelé, mas queria me provar primeiro. Hoje sinto que já me provei, me sinto muito mais segura com minha identidade.



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original



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