Fama destruiu reputação do Nobel de medicina Luc Montagnier – 11/02/2022 – Equilíbrio e Saúde

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Nos anos 1980/90, o francês Luc Montagnier (1932-2022) representava o protótipo de pesquisador europeu dedicado, movido pelos ideais da ciência humanista. Consagrado com o Nobel de medicina em 2008, morreu no ostracismo reservado aos negacionistas.

Sua nêmese era o americano Roberto Gallo, com quem disputou a primazia pela descoberta do vírus HIV, causador da Aids. Relegado por algum tempo ao papel de vilão, Gallo chega à velhice como cientista respeitado —e tido por injustiçado pelo comitê do Nobel.

A partir de amostra de um nova-iorquino, Montagnier isolou no Instituto Pasteur e publicou na revista Science, em 1983, um retrovírus que batizou de LAV (vírus associado a linfadenopatia). O nome aludia aos nódulos linfáticos inchados de portadores de uma doença misteriosa.

A moléstia era conhecida então como “câncer gay”, por sua associação com um tumor de pele, o sarcoma de Kaposi. Também foi chamada de doença dos Hs, referência a dependentes de heroína, homossexuais, haitianos e hemofílicos.

Alegações de Montagnier de que era o causador da enfermidade depois renomeada como Aids (síndrome da imunodeficiência humana adquirida, no acrônimo em inglês) foram de início recebidas com ceticismo. Chegou a ser ridicularizado num encontro de virologistas em Cold Spring Harbor (EUA).

Seu grupo, que teve participação destacada da co-laureada com o Nobel Françoise Barré-Sinoussi, pediu patente sobre características do LAV que resultassem em inovações como exames diagnósticos. Foi negada.

Em paralelo, Gallo havia descoberto no Instituto Nacional do Câncer dos EUA mais um vírus causador de leucemia, o HTLV-3. O governo americano anunciou-o como agente da Aids. Gallo obteve patente sobre o teste diagnóstico, solicitada após a recusada a Montagnier.

O caso evoluiu para uma disputa comercial transatlântica. Quando se tornou claro que LAV e HTLV-3 eram o mesmo vírus, a primazia do desprezado europeu se impôs sobre a do arrogante americano —essa era a percepção corrente, ao menos.

Em 1987, um acordo binacional pôs fim ao contencioso. Montagnier e Gallo foram reconhecidos como co-descobridores do patógeno da Aids, que entraria para a história com a alcunha de HIV (vírus da imunodeficiência humana), e repartiriam os royalties dos exames e tratamentos decorrentes.

O Nobel de 2008, porém, viria chancelar a noção de que os heróis eram Montagnier e Barré-Sinoussi. Gallo passou a figurar em destaque na longa lista de prejudicados pelo prêmio científico mais famoso do mundo. No entanto, a láurea marcou também a partida para uma inversão radical de trajetórias.

Gallo, que já era virologista de renome, seguiu sua carreira bem-sucedida apesar do revés. Fundou em 1996 o Instituto de Virologia Humana (IHV) na Universidade de Maryland e ainda o dirige. Publicou cerca de 1.200 artigos científicos.

A reputação científica de Montagnier desceu ladeira abaixo depois do Nobel. Embalado pela fama, já no ano seguinte, 2009, passou a propagar ideias controversas sobre a emissão de sinais eletromagnéticos pelo DNA de patógenos que permitiriam sua identificação.

Era uma variante das teorias de outro francês polêmico, Jacques Benveniste, sobre a “memória da água”, suposta retenção de informação sobre moléculas já não mais presentes no líquido após as sucessivas diluições preconizadas pela homeopatia.

Montagnier defendeu Benveniste publicamente. Pouco a pouco foi perdendo prestígio entre instituições financiadoras de pesquisa, que começaram a recusar seus pedidos de fomento.

Em 2012 o ganhador do Nobel tentou mudar-se para Camarões, na África, com a intenção de dirigir o Centro Internacional de Referência Chantal Biya (CIRCB), em Yaoundé. Uma carta aberta de outros 35 laureados condenou a pretensão, que ameaçaria o futuro da prestigiada instituição africana de pesquisa de Aids.

Gallo, embora desprovido de um Nobel, apoiou a campanha contra a nomeação de Montagnier. Na mesma época, cientistas deblateravam as ideias sobre fantasiosos riscos de vacinas disseminadas pelo francês, que compareceu a uma conferência sobre autismo em Chicago para defender um elo entre a síndrome e imunizações.

Com a pandemia de Covid-19, Montagnier desceu mais alguns degraus. Apontou a existência de conteúdo genético no Sars-CoV-2 similar ao do HIV e espalhou que o novo coronavírus escapara de laboratório chinês em Wuhan que estaria buscando uma vacina contra Aids.

Ocorre que o material genético sob suspeita também está presente em milhares de outros vírus. Não tem pé nem cabeça estabelecer um nexo causal entre os dois patógenos, como fez Jair Bolsonaro em outubro numa transmissão ao vivo.

Entrevistado por Rodrigo Craveiro para o Correio Braziliense, Gallo demonstrou incredulidade com a fala presidencial: “É difícil acreditar que alguém afirmaria que a vacina contra a Covid-19 causa Aids. Nós sabemos o que causa a Aids”.

O presidente poderia alegar, ao se defender no inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal sobre sua conduta, que se lastreou na autoridade de um Nobel. Como Montagnier não tinha prova aceitas das conspirações que alardeava, mais correto seria dizer que o Nobel resvalou para o nível de um presidente que usa uma pandemia muito pior que a da Aids para alimentar o negacionismo antivacina em busca de votos.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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