Faço questão de nutrir minha humildade filando almoços na casa de amigos – 26/09/2021 – Bia Braune


Tudo começou quando eles passaram a fazer pães lindíssimos. Em seguida, foram as maratonas de tutoriais com flores comestíveis e facas alemãs que picam fininho. Quando dei por mim, já era a única dos meus amigos que não estava aprendendo a cozinhar. Uma constatação que nem demorou muito. No máximo, três minutos. Apenas o tempo de um miojo da humilhação.

Veja bem: não estou falando aqui de pessoas com qualquer habilidade prévia, mas de criaturas que só serviam amendoim e se alimentavam de pizza fria no café da manhã. Recém-convertidas à gourmetização de suas rotinas, tentaram a todo custo me convencer que “cozinhar é como ler e escrever” —citando Rita Lobo como se fosse Paulo Freire.

Feijão-espada, limão zamboa, taioba, uzu. Eu seria incapaz de identificar tais ingredientes, mesmo se houvesse plaquinhas no sacolão do meu bairro. Sou pessoa simplória, do tipo que mal diferencia rúcula de acelga. Tomate cereja é o máximo que arremesso numa salada com maestria.

Só de pensar na via-crúcis que uma pobre alcachofra-de-jerusalém teria de percorrer para chegar à minha cozinha, reforço a certeza de que sou laica demais para o sacerdócio das panelas. Ao ganhar um lote de alho negro maturado à perfeição por uma amiga que é verdadeira fada dos víveres, passei semanas sem saber o que fazer com ele. Até que decidi: ajoelhei, pedi perdão e uma pizza.

O que não me impede, é claro, de vibrar pelos chefs de ocasião, entusiasmados cosplayers de Paul Bocuse e Ana Maria Braga. Nas redes sociais, vejo seus stories sobre como salvar maionese caseira que desandou com a adrenalina de quem assiste a um programa tipo “Emergência 911”. Reajo com emoji sincero de palmas quando tingem tapioca de azul usando jenipapo. Afinal, não é porque não sei fritar um ovo que não tenho um paladar e um coração sensíveis.

Inclusive, releio muito comovida as palavras da saudosa Nina Horta, que em seus deliciosos textos afirmava que cozinhar é uma linguagem oculta de pequenos sacrifícios, feitos por pessoas com coração generoso e narcisismo saudável.

E, assim, faço questão de nutrir minha humildade, filando almoços e jantares na casa dessa gente tão terna e farta. Sempre na esperança de que esse afeto, coisa para mais de trocentos talheres, me renda uma marmita no dia seguinte.


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