Ciência

Evolução paralela de plantas urbanas mostra como cidades estão moldando a biodiversidade – 30/04/2022 – Reinaldo José Lopes

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É fácil esquecer o fato de que estamos conduzindo um gigantesco experimento planetário. Nenhuma espécie antes da nossa jamais conseguiu tomar para si fatias tão desproporcionais dos recursos que fazem da Terra um planeta vivo, da biomassa às terras férteis, do fluxo de carbono e nitrogênio à água doce.

Somos engenheiros de ecossistemas numa escala megalomaníaca, o que significa que um elemento essencial do ambiente das demais espécies, ao qual elas têm rebolado para se adaptar, é a própria presença humana, em especial nos esquisitíssimos aglomerados de concreto, asfalto e gente que chamamos de cidades. E a regra é clara: em circunstâncias como essas, Darwin entra em campo e a seleção natural se põe a trabalhar.

Considere, por exemplo, o singelo trevo-branco (Trifolium repens), uma plantinha herbácea, nativa da Eurásia e membro da família dos feijões, favas e ervilhas. Tal como aconteceu com tantas outras plantas do Velho Mundo, o trevo-branco pegou carona em caravelas e navios a vapor e colonizou o resto do mundo, inclusive o Brasil. Esse experimento inconsciente de menor escala, que faz parte do nosso imenso experimento planetário, permitiu que os cientistas analisassem como a vida em ambientes urbanos é capaz de moldar a evolução de uma espécie vegetal.

Os resultados saíram recentemente na revista especializada Science, uma das mais importantes do mundo. Pesquisadores de 26 países, entre os quais se encontram professores de três universidades brasileiras, mapearam as diferenças entre trevos da cidade e da zona rural e descobriram que, mundo afora, um intrigante processo evolutivo em paralelo está afetando muitas das plantas que acabaram se tornando urbanoides.

Acontece que, assim como muitos outros vegetais, os trevos costumam produzir substâncias tóxicas, método criado para impedir que animais herbívoros continuem a mastigá-los. Nessa espécie, dois trechos separados do DNA servem de receita para a produção de HCN (cianeto de hidrogênio), veneno que também é fabricado pelos seres humanos.

“A capacidade de produzir HCN aumenta ainda a tolerância das plantas ao estresse hídrico [falta d’água]”, diz Fabio Angeoletto, professor da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) e coautor da pesquisa.

Angeoletto participou do estudo ao lado de colegas da Unesp e da Universidade Federal de Santa Maria (RS) —a cidade gaúcha, aliás, foi um dos lugares onde as plantas foram coletadas no Brasil, junto com Curitiba. Em quase metade dos lugares mundo afora, porém, os pesquisadores descobriram que os trevos-brancos das áreas urbanas carregam mutações que desativam os genes ligados à produção de HCN. Nas áreas rurais, por outro lado, é bem mais comum a presença de plantas nas quais esses genes ainda são funcionais.

A explicação é que, com pouca vegetação, as cidades têm bem menos herbívoros. Com isso, o organismo dos trevos não precisa gastar energia produzindo o veneno —exceto nos lugares muito secos, onde a outra função do HCN continua justificando o investimento.

O mais interessante é que tudo isso parece ter acontecido em paralelo, nos mais diferentes lugares. “O centro de Tóquio, nesse aspecto, é mais parecido com o centro de Toronto, no Canadá, do que com a zona rural japonesa ali do lado”, diz o pesquisador brasileiro.

Repare que esse é só um aspecto bioquímico de uma única espécie. Milhares de outros fenômenos semelhantes devem estar acontecendo neste exato momento em cidades do mundo todo, nos jardins de Darwin que nos cercam.


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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