Euro chega aos 20 anos melhor para uns do que para outros – 04/01/2022 – Helio Beltrão

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Há 20 anos começavam a circular as notas de euro. É a primeira moeda pós-moderna, uma metamoeda não lastreada em uma base de impostos, um governo, ou um exército. Pura abstração.

O euro foi o projeto de poder geopolítico do socialista Jacques Delors, que ansiava por conter a potência econômica da Alemanha reunificada bem como confrontar a supremacia dos EUA e do dólar.

Nos seus primeiros anos, foi notável o avanço propiciado por uma moeda comum. Com a eliminação dos custos de câmbio e a transparência de preços, o comércio entre países prosperou. Os países periféricos se beneficiaram e enriqueceram, como na era do padrão-ouro, durante a qual virtualmente o mundo inteiro usava a mesma moeda.

Porém, assim como o monstro Frankenstein de Mary Shelley, o euro era uma ideia meio amalucada de unir órgãos e tecidos vitais (pesetas, escudos, dracmas, florins, coroas e marcos), alguns saudáveis, outros menos, em uma criatura estéril que ganhou vida.

Convenientemente se desconsiderou que alguns desses órgãos possuíam histórico de falências múltiplas, guerras civis e inflação galopante. A crença ingênua era que, ao possuir um dinheiro comum, as nações completamente distintas convergiriam em mentalidade. Ou seja, torcia-se para que os gregos se tornassem responsáveis e poupadores como os alemães. Não rolou.

Ao fim da primeira década de existência, o histórico de irresponsabilidade veio à tona. Durante a crise da dívida soberana (2009-2011), os governos dos países que compunham a sigla Pigs (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) não conseguiam pagar e refinanciar suas dívidas ou socorrer os bancos de seus países. O BCE (Banco Central Europeu) terminou socorrendo a todos com a criação de uma montanha de novos euros, por meio de um artifício no qual os países ricos, principalmente a Alemanha, afiançam os maus pagadores.

Esse tipo de socorro, no entanto, se assemelha mais a política fiscal e econômica do que a política monetária: não era esse o mandato do euro. Mas, para enfrentar a crise existencial, apoiou-se o lema de Mario Draghi, então presidente do BCE: “Fazer tudo que for preciso”.

A criatura sobreviveu.

Uma agenda escondida de Delors e de seus descendentes ideológicos era que o euro facilitaria a integração política na Europa (um macroestado central em Bruxelas) e a implementação do socialismo pela porta de trás: como no trocadilho da Thatcher, “socialism through the back Delors”.

O socialista fabiano Bernard Shaw dizia que “o governo que promete roubar de Pedro para dar a Paulo pode sempre contar com o apoio de Paulo”. Uma moeda comum com um Estado central viabiliza a contínua expropriação dos Pedros pelos Paulos, a tara redistributiva dos socialistas.

Porém o euro, pelo menos até 2020, se revelou paradoxalmente um obstáculo à ideia de Delors. Keynes dizia que o padrão-ouro “algema os ministros da Economia”; o euro gera o mesmo efeito. Antes, em crises financeiras, os governos adiavam reformas e geravam inflação e desvalorização da moeda. Agora, o truque de desvalorizar para ocultar irresponsabilidades foi abolido. A única saída passou a ser lidar com os investidores e colocar as contas em dia. Não é à toa que populistas de esquerda e direita querem enterrar o euro. Se esquecem de que, se desvalorizar fosse bom, Venezuela, Zimbábue e Argentina seriam ricas, e a Suíça, pobre.

Os alemães tentaram garantir na partida que o euro tivesse boa gestão monetária, com o BCE focando exclusivamente a estabilidade de preços. As coisas mudaram desde então e, dadas a inflação atual e as novas metas do BCE de combater mudanças climáticas e resgatar governos irresponsáveis, os frugais alemães talvez já estejam arrependidos desse experimento monetário.


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