EUA precisam reverter rapidamente a queda na curva em J – 06/10/2021 – Ian Bremmer


Quinze anos atrás escrevi um livro intitulado “The J Curve: A New Way to Understand Why Nations Rise and Fall” (a curva em J: uma nova maneira de entender por que as nações ascendem e caem).

Meu objetivo era ajudar os leitores a entender por que alguns países de mercados emergentes continuam a emergir, enquanto outros enfrentam grande turbulência política.

Com todo o divisionismo e a disfunção presentes nos Estados Unidos hoje, é hora agora de utilizar essa ferramenta para examinar rigorosamente o que está ocorrendo na superpotência mundial.

A curva em J descreve a relação entre a abertura de um país (tanto a transparência de seus processos políticos quanto o livre movimento de pessoas, bens e informação dentro e através de suas fronteiras) e sua estabilidade (a capacidade de suas instituições de absorver choques).

Os países do lado esquerdo da curva são estáveis porque são fechados. Existe pouca ou nenhuma competição real em seus sistemas. Coreia do Norte, Cuba e as monarquias do Golfo são alguns exemplos.

Esses países não alcançam o mesmo nível de estabilidade política de longo prazo que podem ter países verdadeiramente abertos, como Alemanha, Canadá, Japão e dezenas de outras democracias. Esses países estão do lado direito da curva.

Um país que se desloca da esquerda para a direita –de fechado a muito mais aberto— precisa passar por um período de instabilidade, assinalado pela queda na curva em J. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando Mikhail Gorbatchov tentou abrir a União Soviética ou quando a África do Sul começou a desmontar o apartheid. Alguns países fazem essa transição. Outros se fragmentam.

Mas também é possível deslocar-se da direita para a esquerda da curva. Apesar da recusa de Donald Trump em reconhecer sua derrota na eleição de 2020, da insurreição fracassada no Capitólio em 6 de janeiro e da recusa de muitos americanos em admitir que Joe Biden de fato venceu a eleição, os Estados Unidos continuam a ser uma democracia madura, situada do lado direito da curva.

Em ponto algum daquele período os EUA chegaram a estar à beira da ditadura. As instituições americanas comprovaram mais uma vez a capacidade de absorver choques. A cadeia de comando militar permanece politicamente neutra. Os tribunais têm resolvido as disputas eleitorais em conformidade com a lei.

Mas os Estados Unidos ficaram menos abertos e menos resilientes nos últimos anos, na medida em que a legitimidade de outras instituições começa a ser corroída. A confiança nos resultados eleitorais, o elemento mais fundamental da democracia, sofreu um golpe pesado.

As alegações plausíveis de interferência russa na eleição de 2016, as acusações sem fundamento feitas por Trump de que 3 milhões de pessoas teriam votado ilegalmente em Hillary Clinton, e a acusação igualmente falsa de que uma fraude eleitoral teria arrancado a vitória de suas mãos em 2020 –tudo isso, amplificado por informações enganosas na mídia tradicional e social, contribuiu para prejudicar a confiança na integridade das eleições mais do que qualquer outro acontecimento em mais de 140 anos.

O Congresso é impopular há muito tempo, mas o discurso hiperpartidário e as votações previsivelmente partidárias de legislações importantes enfraquecem ainda mais a confiança de que o Congresso pode e vai agir em prol do povo americano como um todo.

Têm o mesmo efeito os esforços partidários empreendidos por governos estaduais para redesenhar os limites dos distritos eleitorais de modo a promover a representação excessiva dos eleitores de um partido às expensas do outro. A necessidade dos parlamentares de levantar fundos constantemente, aliada à falta de transparência quanto à origem desses fundos, tampouco ajudam.

A migração de ex-parlamentares para empregos de lobistas corporativos alimenta o cinismo público, e com razão. A polarização política extrema semeou dúvidas em torno da credibilidade de qualquer esforço do Congresso para fiscalizar o ramo executivo do governo ou dos próprios parlamentares.

O fracasso crônico do Congresso em promulgar legislação significativa também cedeu poder ao Executivo, na medida em que os presidentes Obama, Trump e Biden emitiram um número historicamente elevado de ordens executivas abrangentes.

Finalmente, temos a crescente falta de respeito público pela imprensa. Em qualquer sociedade aberta, jornalistas honestos e hábeis podem cobrar a responsabilidade de figuras públicas. Infelizmente, porém, a polarização que infecta a política americana se reflete no mercado de ideias.

A disputa por espaço nesse mercado, dividido em segmentos ideológicos estanques, priva boa parte do jornalismo de credibilidade para milhões de americanos, que hoje enxergam jornalistas como as alas de informação dos partidos com os quais a maior parte de seu trabalho se alinha.

Em seguida, as redes sociais amplificam as divisões partidárias, disseminando desinformação que não satisfaz os critérios de credibilidade da mídia mainstream –até que a própria desinformação vira notícia sobre a qual jornalistas da grande imprensa pedem que os políticos comentem.

Por todas essas razões, a curva em J da América parece diferente hoje de 30 anos atrás. Por um lado, não só as instituições comprovaram seu caráter duradouro, resistindo à turbulência de Trump, como a riqueza e as vantagens tecnológicas dos EUA relativas ao resto do mundo, incluindo seus aliados, cresceram.

Esses pontos positivos elevam a estabilidade americana em todos os níveis de abertura. Mas está claro que os EUA estão se tornando uma sociedade mais polarizada, algo que cria um grau maior de paralisia política, empurrando o país para baixo no lado direito da curva.

Os Estados Unidos estão longe de ser o único país atormentado por um eleitorado amargamente dividido, cinismo público em relação aos políticos, disparidade de renda, jornalismo partidário e racismo estrutural.

Mas, entre as democracias ricas, esses problemas são maiores nos EUA. E quando o país mais poderoso e influente do mundo fica mais dividido e disfuncional, isso agrava em muito a falta de liderança global. Os EUA precisam reverter rapidamente a queda na curva em J –senão todos sentiremos as consequências.

Tradução de Clara Allain


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