Está na hora de o futebol acabar com a regra do impedimento – O Mundo é uma Bola


As regras do futebol que conhecemos hoje datam de 1863. Elas são 17, e incluem “A bola”, “O campo de jogo”, “Os jogadores”, “O árbitro”.

Todas são de fácil entendimento, à exceção de uma, a Regra 11, chamada de “Impedimento”.

A compreensão dessa infração, para o leigo, é difícil. E, mesmo para os entendidos, execução e acerto da mesma causam polêmica jogo após jogo.

Precisamos de algo assim, que gere tanta discussão (entre os participantes do jogo e entre os não participantes, como comentaristas e torcedores) e que tem provocado cada vez mais paralisações nas partidas, para que o VAR (árbitro assistente de vídeo) faça a checagem e dê o veredicto?

Diz a regra que “um jogador estará em posição de impedimento quando qualquer parte de sua cabeça, corpo ou pés estiver na metade do campo adversário (excluindo a linha de meio de campo) e se qualquer parte de sua cabeça, corpo ou pés estiver mais próximo da linha de meta adversária do que a bola e o penúltimo adversário. As mãos e os braços dos jogadores, inclusive dos goleiros, não são considerados”.

Diz também que “um jogador não se encontrará em posição de impedimento quando estiver em linha com o penúltimo adversário ou os dois últimos adversários”.

Duvido que alguém sem familiaridade com o futebol diga de imediato “entendi” ao fazer a leitura desses fragmentos. Quem acompanha o esporte geralmente consegue apontar quando um atleta está ou não impedido (fora de jogo) –nem sempre com convicção.

Se acabasse aí, já há motivo para propor o fim da norma. Porém a Regra 11 se estende por mais vários parágrafos, que buscam explicar as situações em que o impedimento deve ou não ser marcado –em resumo, as exceções à regra.

A mais recente polêmica, que ganhou corpo por ter ocorrido em uma final, ocorreu no domingo (10), no estádio Giuseppe Meazza (San Siro), em Milão.

Espanha e França duelavam para decidir quem ficaria com o troféu da segunda edição da Nations League (Liga das Nações).

Aos 35 minutos do segundo tempo, com o placar mostrando 1 a 1, os franceses atacam. Theo Hernández lança a bola para Mbappé, que, adiantado, a recebe nas costas de Eric García, invade a área e chuta para vencer o goleiro Unai Simón.

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O momento da decisão entre França e Espanha em que Theo Hernández lança Mbappé, que se encontra em posição de impedimento (Reprodução de TV)

Ao ver o replay, imediatamente decretei: impedimento. O VAR foi acionado, e o gol, para minha surpresa, confirmado pelo árbitro de campo, o inglês Anthony Taylor. O 2 a 1 deu à França o título inédito.

Encerrada a partida, veio a explicação para a validação do gol. Eric García, ao tentar cortar o passe de Theo Hernández, desviou levemente a bola, o que, na interpretação da arbitragem, deu início a uma nova jogada, tirando portanto Mbappé da posição irregular.

É uma justificativa válida, porém a regra é no mínimo mal escrita, tanto que “o início de uma nova jogada” nem é citado.

Eis o trecho ao qual a arbitragem recorre, na redação em inglês: “A player in an offside position receiving the ball from an opponent who deliberately plays the ball, including by deliberate handball, is not considered to have gained an advantage, unless it was a deliberate save by any oponent”.

A versão disponibilizada pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) à qual tive acesso é esta: “Um jogador em posição de impedimento que receber a bola jogada deliberadamente por um adversário (exceto quando se tratar de uma defesa deliberada) não deve ser punido (não ganha vantagem)”.

Seguindo estritamente essa recomendação, a que está em português, o impedimento de Mbappé teria de ser marcado, já que ele de forma alguma recebeu a bola deliberadamente (intencionalmente) de Eric García.

O foco a ser destrinchado na redação em inglês é o “deliberately plays the ball”, que pode ser entendido como “propositalmente ir na bola” para participar da jogada. Isso Eric García fez. Ele tentou, sem sucesso, interceptar o passe. E, como resvalou na bola, deu condição de jogo a Mbappé.

O mais intrigante é que, se Eric García não tivesse feito nada (deixado a bola passar) ou não tivesse tocado na bola (mesmo tentando), Mbappé estaria em impedimento.

Caso o espanhol abdicasse de sua função de zagueiro (impedir o ataque adversário), seria beneficiado. Ao agir como zagueiro, acabou prejudicado.

Esse nonsense traz inconformismo, conforme expressou Sergio Busquets, o capitão da Espanha, à RTVE.

“Mbappé estava impedido, mas o juiz disse que Eric foi na bola e que isso deu início a uma nova jogada. Isso não faz sentido. Ele tentou interceptar a bola porque Mbappé estava ali e concluiu que [Mbappé] estava em posição legal, então fez o que qualquer defensor faria.”

Para Busquets e para muita gente não faz sentido, porém o ex-árbitro Iturralde González assegurou ao jornal AS que faz.

“Ele [Eric García] se joga no chão para afastar a bola e, se ele toca nela, o gol deve ser validado. Eric está no chão, faz contato [com a bola], e isso favoreceu Mbappé.”

Toda essa polêmica é necessária, assim como dezenas e dezenas de outras relacionadas ao impedimento?

Porque simplesmente não acabar com uma regra que traz tanta discussão e incerteza? Extinguindo-se a Regra 11, fim de papo. Acabam-se as controvérsias.

Os contrários a essa ideia dirão: se o impedimento acabar, vai ter atacante ficando direto “na banheira”, perto do gol rival, à espera de receber a bola, livre, para tentar fazer o gol, possivelmente apenas com o goleiro a ser vencido.

Isso pode acontecer. Para evitar, basta que um rival acompanhe o atacante, fique ao seu lado o tempo todo, como uma segunda sombra.

Será estranho, em um primeiro momento, observar dois jogadores parados perto de uma área enquanto o lance se desenrola em outro setor do campo? Talvez.

Mas, passado um tempo, todos se acostumarão, e caberá aos treinadores traçar estratégias para lidar com a nova situação.

O que é certo é que, abolindo-se o impedimento, o futebol se verá livre do infortúnio de discussões sem fim e, inúmeras vezes, sem conclusão.

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Em tempo: É radical repentinamente excluir o impedimento do futebol? Sim, sem dúvida. Por isso que as autoridades da bola poderiam fazer o experimento em campeonatos de categorias de base, a fim de verificar os resultados, e só depois levar a questão para deliberação do Ifab (International Football Association Board), o órgão que regulamenta as regras do futebol.



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