Entenda os desafios do agro para conter o aquecimento global – 20/11/2021 – Mercado


O acordo do metano, assinado pelo Brasil e outros 102 países na COP26, em Glasgow, estipulou o compromisso de cortar em 30% as emissões do gás poluente até 2030 e elevou os desafios para a agropecuária, em busca de uma produção mais sustentável.

Depois do desmatamento, a pecuária é a atividade responsável pela maior quantidade de emissões de dióxido de carbono e também é a principal emissora de metano na atmosfera —ambos são gases que contribuem para o aquecimento global.

O Brasil é o quinto maior emissor de metano, segundo dados de 2018, sendo que a maior parte das emissões do agronegócio vem da chamada fermentação entérica. O gás é produzido no aparelho digestivo do gado e em processos naturais. Outro percentual vem de resíduos de aterros e da produção de óleo e gás.

O acordo inclui metade dos 30 principais emissores de metano. Das grandes economias, no entanto, China, Rússia e Índia não firmaram o compromisso.

“É um desafio, mas o Brasil não pode ficar de fora. É difícil de cumprir, mas a gente espera que um grande esforço seja feito, para benefício das exportações brasileiras”, diz José Augusto de Castro, presidente-executivo da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil).

Ele ressalta que a agropecuária pode, em um primeiro momento, perder parte da competitividade, mas é preciso que governo e setor privado reforcem parcerias. “Por mais que as transformações possam incomodar parte do setor, o país não pode dar as costas para o mundo na questão ambiental.”

“O acordo foi um avanço, e o compromisso feito pelo Brasil acabou indo além do imaginado. É preciso agora mostrar para o mercado que somos capazes de fazer isso, não pode ficar só no discurso”, diz o professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) Eduardo Assad, especialista em agronegócio.

“Ao mesmo tempo, o país poderia ter tido uma posição muito mais firme na conferência, com o compromisso de fazermos uma agricultura equilibrada, mas perdemos esse lugar no mundo nos últimos dois anos. Chegamos até a COP26 de joelhos.”

Entre as iniciativas para reduzir emissões, o governo tem destacado o Plano ABC+, que tem o objetivo de controlar a emissão de gases (entre eles o metano). A meta é evitar o lançamento de 1,1 bilhão de toneladas equivalentes, por parte do setor agropecuário, até 2030.

A primeira fase do Plano ABC previa iniciativas como plantio direto e recuperação de pastagens; a segunda inclui tecnologias, como sistemas irrigados, e o incentivo para a adoção dessas práticas se dá por meio de crédito público, com o Plano Safra.

Hoje, no entanto, os recursos que financiam a produção agro de baixo carbono equivalem a R$ 5 bilhões, ou 2% do total do programa de 2021 e 2022.

Na avaliação de analistas ouvidos pela Folha, o volume de recursos necessários para cumprir as novas metas precisará ser aumentado nos próximos anos. Os aportes privados também devem ajudar ainda mais a suprir o aumento da demanda por investimentos.

Luiza Bruscato, coordenadora do GTPS (Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável) considera que é preciso, antes de mais nada, estimar as emissões de metano pelo setor pecuário de forma eficiente.

“Temos várias realidades dentro do Brasil, cada uma com suas particularidades, mas o primeiro desafio é estimar as emissões. Feito isso, o Plano ABC+ é muito robusto. Se a gente conseguir implementá-lo por completo, recuperando pastagens degradadas sem desmatar mais, já estaremos lá na frente.”

Ela também afirma que é preciso melhorar a comunicação do agronegócio. “O Brasil precisa fazer uma conta melhor do balanço das emissões, também pensando no caso do carbono. Nosso resultado pode ser muito melhor do que o de países que só fazem confinamento e não têm reservas de preservação.”

“Precisamos de recursos para continuar preservando. Não dá para jogar na conta do pecuarista tudo de ruim que acontece, inclusive para cumprir acordos internacionais sem contrapartida”, diz Francisco Manzi, da Acrimat (Associação dos Criadores de Mato Grosso).

“O governo tem de fazer sua parte, seja regularizando terras, promovendo acesso a créditos, cobrando a comunidade internacional e fiscalizando e punindo a minoria que pratica atos ilegais”, completa.

Durante a COP, a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) defendeu que o produtor brasileiro tem compromisso com a sustentabilidade ambiental.

Muni Lourenço, vice-presidente da entidade, afirmou que o país ocupa posição de destaque no mundo devido à produção de carne bovina com uso de tecnologias de baixa emissão de carbono.

“Somos um dos maiores produtores de carne bovina do mundo e temos potencial para ampliar essa produção com sustentabilidade ambiental, incorporando técnicas sustentáveis à cadeia produtiva.”

Ele também afirmou que as tecnologias de baixa emissão de carbono têm permitido a redução da área de pastagens e aumentado o número de animais por hectare.

Do ponto de vista das técnicas, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) destaca que já vem desenvolvendo estratégias para a redução do metano, como o melhoramento genético vegetal, por meio do desenvolvimento de pastos mais facilmente digeríveis pelos animais.

Uma segunda estratégia se dá pelo melhoramento genético dos próprios animais, para que eles possam ser abatidos antecipadamente, o que diminui o tempo de geração de gases por cabeça. Nos últimos dez anos, o tempo de abate foi reduzido de 48 meses para 36 meses. Uma das premissas do Plano ABC+ é a intensificação dessa prática.

Outra medida vem do uso de aditivos na ração animal, por meio da utilização de taninos e óleos essenciais misturados com a ração. Esses estudos ainda estão em fase inicial.

A agricultura brasileira já vem contribuindo com a redução nas emissões há pelo menos três décadas. Ao aderir ao acordo das reduções de metano, o Brasil se dispõe a ajudar, em conjunto com os outros países, a chegar ao corte de 30% nas emissões. Podemos dar uma contribuição de 3% a 4% nessa meta”, estima o presidente da Embrapa, Celso Luiz Moretti.

Ele também destaca que é impossível zerar as emissões de metano pela pecuária, mas, por meio do avanço na integração de lavoura e floresta, é possível compensar os efeitos disso.

“A primeira grande frente é reduzir o metano e a segunda é compensar. Houve uma preocupação inicial dos efeitos do acordo sobre o setor, mas ele pode ser um estímulo para termos uma pecuária mais competitiva e eficiente nos próximos dez anos.”

Na visão de Paulo Camuri, economista sênior do WRI Brasil, embora seja difícil dimensionar o volume de recursos necessários para fazer a transição acordada na COP, é totalmente factível que o Brasil consiga reduzir em 30% as emissões de metano.

“O jeito de fazer uma pecuária com menor emissão, tanto de metano quanto de carbono, já existe. Mas só ter a tecnologia não basta para garantir que o acordo vá ser cumprido. É preciso que os agricultores tenham acesso às práticas.”

Ele também avalia que, pelos dados dos últimos dez anos do Plano ABC, o produtor tem se mostrado disposto a adotar práticas produtivas para aumentar a sustentabilidade e há espaço para ampliar o financiamento ao plano. “O produtor já descobriu que as tecnologias disponíveis para produzir com baixa emissão de carbono até reduzem os custos de produção.”

“O próximo passo é garantir que as tecnologias disponíveis para produzir carne com menor emissão de metano e carbono cheguem a mais produtores, tanto grande quanto pequenos, com custos acessíveis.”

Fontes: Embrapa e Wri Brasil

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