Emma Thompson fala sobre o desafio de aparecer nua na tela aos 63 anos – 22/06/2022 – Cinema e Séries

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The New York Times

Os cabelos brancos revoltos são a primeira coisa que você percebe em Emma Thompson; a tonalidade deles é muito mais chique do que a pessoa média de 63 anos ousaria escolher, mas ao mesmo tempo não ignora a idade da atriz. Os cabelos vêm acompanhados por sorriso largo e generoso e por uma expressão inteligente e convidativa que sugere tanto um senso de humor seco e ferino quanto disposição de trocar ideias abertamente.

Mas mesmo assim, Thompson começa nossa conversa via vídeo dando uma de MacGyver e usando papel e fita adesiva para bloquear parte do monitor de seu computador, porque não gosta de se ver na tela. “A única coisa que não suporto no Zoom é ter de olhar para meu rosto”, ela disse. “Por isso, vou me cobrir.”

Estamos sentadas diante de nossos computadores a fim de discutir aquele que talvez seja o papel mais revelador de sua carreira. Em seu novo filme, “Boa Sorte, Leo Grande”, dirigido por Sophie Hyde, Thompson se dilacera emocionalmente e se desnuda fisicamente, e não de um jeito sutilmente iluminado e sensual.

Thompson interpreta Nancy, uma professora que um dia foi religiosa e enviuvou recentemente, e nunca teve um orgasmo. Ela sempre foi completamente dedicada ao marido e aos filhos, e carrega imensos arrependimentos pela vida que não viveu e pelas crianças chatas e carentes que criou. Nancy contrata um profissional do sexo, um homem muito mais jovem, interpretado pelo novato Daryl McCormack (“Peaky Blinders”), para lhe propiciar o prazer que nunca teve. A audiência acompanha a trajetória dessa mulher com quem é fácil demais simpatizar –ela poderia ter sido sua professora, sua mãe, você—, e que, nas palavras de Thompson, “cruzou todas as barreiras que um dia reconheceu na vida”, naquele ato monumental de rebelião.

“Sim, ela tomou uma decisão completamente extraordinária, de fazer algo incomum, audacioso e revolucionário”, disse Thompson, de seu escritório em Londres. “Em seguida, ela toma duas ou três decisões de não fazê-lo. Mas tem sorte porque escolheu alguém que, por sorte, é muito sábio e instintivo, e tem um nível de insight incomum sobre a condição humana; ele a compreende, sabe pelo que ela está passando, e é capaz de dar a entender gentilmente que talvez exista um motivo para tudo aquilo”.

Thompson aceitou o desafio de fazer o filme com o que ela define como “saudável terror”. Ela conhecia a personagem em nível celular –mesma idade, mesma origem, mesmo impulso de fazer a coisa certa. “O que me separa dela é só um pedacinho de papel e a intervenção do acaso”, brincou a atriz.

Mas o papel exigiu que ela revelasse um nível de vulnerabilidade física e emocional a que Thompson não estava costumada. (Na preparação para esse trabalho aberto e positivo sobre sexo, que se passa quase todo dentro de um quarto de hotel, Thompson, McCormack e Hyde disseram que passaram boa parte de suas dias de ensaio nus.) A despeito de uma carreira de quatro décadas de duração, elogiada tanto por sua qualidade quanto pela irreverência, e que lhe valeu dois Oscars, um por atuação (“Retorno a Howard’s End”) e um por roteiro (“Razão e Sensibilidade”), Thompson só tinha aparecido nua na tela poucas vezes.

Ela disse que nunca foi magra o bastante para conquistar o tipo de papel que exige mostrar o corpo, e que, embora ela tenha tentado por algum tempo se beneficiar da indústria da dieta, e passado fome como todas as jovens atrizes que batalham por papéis na tela, não demorou a perceber que aquilo era “absurdo”.

“Não é justo quando uma atriz diz que ela é daquele jeito naturalmente. É desonesto e faz com que as outras mulheres se sintam uma” [ela usa um palavrão], disse Thompson. “Assim, se você quer que o mundo mude e que a iconografia do corpo feminino mude, você precisa fazer sua parte para essa mudança. Você precisa ser diferente”.

Para “Boa Sorte, Leo Grande”, a decisão de se despir foi dela e, embora tenha sido tomada com hesitação, Thompson disse acreditar que “o filme não seria o mesmo sem isso”. Mesmo assim, o momento em que precisou se posicionar completamente nua diante do espelho como o roteiro pedia, com um ar de serenidade e aceitação no rosto, foi a coisa mais difícil que ela já fez.

“Para ser completamente honesta, eu nunca vou estar satisfeita com o meu corpo. Isso nunca acontecerá”, ela disse. “Sofri lavagem cerebral desde muito pequena. Não há como alterar esses percursos neurais.”

Mas ela não tem dificuldades para falar sobre sexo. Tanto os absurdos da coisa quanto as complicações do prazer feminino. “Não consigo ter um orgasmo sem esforço. Preciso de tempo. Preciso de afeto. Não dá para correr para o clitóris, brincar com ele e esperar que dê certo. Isso não funciona, rapazes. Eles acham que basta apertar aquele botãozinho e lá vem os fogos de artifício, e tudo será maravilhoso.”

Existe um momento no filme em que Nancy e Leo dançam no quarto de hotel ouvindo “Always Alright”, do Alabama Shakes. Os dois estão se encontrando pela segunda vez, e o encontro vem acompanhado por uma lista de atos sexuais nos quais Nancy está determinada a mergulhar. O objetivo de eles dançarem é ajudá-la a deixar de lado o estresse, e desligar sua personalidade meticulosa de professora, que ameaça tirar o encontro dos trilhos. Leo a enlaça e dança com ela de olhos fechados, e vemos uma breve expressão de gratidão e ternura, temperada por uma dose de preocupação, surgir brevemente no rosto de Nancy.

Para a roteirista do filme, Katy Brand, que trabalhou com Thompson como atriz em “Nanny McPhee e as Lições Mágicas” e que a imaginou no papel de Nancy desde que escreveu o primeiro rascunho do roteiro, aquele olhar é o ponto mais importante do filme.

“É absolutamente tudo”, disse Brand. “Ela sente sua juventude perdida e o tipo de desenvolvimento sexual orgânico e natural que poderia ter tido, se não tivesse conhecido seu marido. Há um arrepio não só sobre o que poderia ter acontecido mas quanto ao que ainda pode acontecer dali por diante”.

Brand não é a primeira jovem roteirista a escrever especificamente para Thompson. Mindy Kaling fez o mesmo em “Talk Show – Reinventando a Comédia”, e afirma que sempre amou a atriz, desde os 11 anos de idade. A roteirista Jemima Khan disse a Thompson que sempre quis que ela fosse sua mãe, e por isso escreveu um papel para ela em “What’s Love Got to Do With It?”, um filme que está em produção.

“Acho que o que Emma dá a todos, seja em pessoa, quando você a conhece, mas também nas telas, é a sensação de que sempre está do seu lado”, disse Brand. “E acho que as pessoas realmente respondem a isso. Ela realmente se aproxima de você, em um nível muito humano”.

A produtora Lindsay Doran conhece Thompson há décadas. Doran a contratou para escrever o roteiro de “Razão e Sensibilidade” depois de assistir a “Thompson”, uma série de curta duração que a atriz escrevia e protagonizou na BBC. As duas colaboraram nos filmes sobre a personagem Nanny McPhee, e estão trabalhando em uma versão musical deles. Thompson está escrevendo o libreto e trabalhando nas canções com Gary Clark (de “Sing Street”).

Para a produtora, o filme é o perfeito exemplo de uma roteirista que compreende totalmente sua atriz.

“Minha sensação era a de que Katy conhecia o instrumento, e sabia do que o instrumento era capaz, instantaneamente”, disse Doran. “Não é como se ela tivesse calculado que seria dramática em tal trecho, engraçada no outro e emotiva no terceiro. As expressões passam pelo rosto de Emma com tamanha rapidez que temos sempre um sentimento lá, uma emoção”.

Em sua crítica sobre “Boa Sorte, Leo Grande” para o The New York Times, Lisa Kennedy definiu Thompson como “terrivelmente ágil com as revelações e as tiradas de humor do roteiro”, e a revista Harper’s Bazaar a definiu como “um tesouro perpétuo que merece urgentemente sua quinta indicação ao Oscar”.

A trajetória óbvia para um filme como esse seria uma passagem pelo circuito de premiações, que provavelmente valeria a Thompson sua quinta indicação ao prêmio. Mas o filme, que estreou sexta-feira no serviço de streaming americano Hulu, não será lançado nas salas de cinema dos Estados Unidos.

Thompson não se incomoda. “É um filme pequeno, não há armas nele, e por isso não acho que muita gente sairia de casa para assisti-lo nos Estados Unidos”, ela disse, com uma piscada.

Isso pode ser verdade. Mas o mais importante é que, por conta de uma mudança nas regras da Associação de Artes e Ciências Cinematográficas que restaura a exigência de que um filme fique em cartaz pelo menos sete dias nos cinemas para que possa concorrer ao Oscar, como acontecia antes da pandemia, “Boa Sorte, Leo Grande” não é elegível para o prêmio, uma realidade que desagrada a diretora Sophia Hyde.

“É realmente decepcionante”, disse Hyde. “Compreendo o desejo de proteger o cinema, de alguma maneira, mas também creio que o mundo mudou demais. No ano passado, um trabalho feito para streaming ficou com o Oscar de melhor filme”. Ela argumentou que seu filme e outros feitos para serviços de streaming não são produções para a televisão. São cinemáticos, ela disse, e acrescentou que “é isso que a academia deveria proteger, e não o tipo de tela em que são exibidos”.

Já Thompson parece encarar a questão toda de um modo despreocupado. “Acho que, se considerarmos que o modo de vida pode ser um pouco mais puritano onde você está, talvez seja mais fácil para as pessoas compartilhar de algo assim em casa, e depois poder desligar a TV e preparar um bom chá horrível”, disse Thompson, rindo. “Porque nenhum de vocês americanos consegue fazer um chá bom”.

Tradução de Paulo Migliacci



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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