Emissões do Brasil ficam distorcidas sem contar degradação da Amazônia – 27/10/2021 – Ambiente


O desmatamento da Amazônia é —hoje e historicamente— a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa do Brasil, mas outros danos profundos causados à floresta que permanece em pé podem estar jogando na atmosfera quase a mesma quantidade de carbono que a emitida pelo corte raso.

Se esse cálculo fosse incluído nos inventários de emissões, a responsabilidade do Brasil sobre o aquecimento global ficaria bem maior.

O alerta é de um grupo de cientistas brasileiros que estudam a questão. Eles sugerem que a degradação da floresta —causada por incêndios florestais, a retirada ilegal de madeira e o empobrecimento das árvores que ficam na fronteira de áreas já inteiramente derrubadas (conhecido como efeito de borda)— deveria ser considerada nas discussões da COP26, que será realizada em Glasgow (Escócia) a partir deste domingo (31).

Na reunião em que 196 países vão tentar avançar no combate às mudanças climáticas, está em jogo quanto cada um vai se esforçar para reduzir suas emissões. O Brasil é cobrado especialmente pela redução do desmatamento —que sozinho responde atualmente por cerca de 44% das emissões do país, de acordo com o Seeg (Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa) do Observatório do Clima.

Mas, para os cientistas, o país, assim como outras nações com florestas tropicais, deveria apresentar metas também para combater a degradação.

Em carta divulgada em setembro na revista Nature Geoscience, 33 dos principais especialistas do país em mudança do uso do solo sugeriram que esse debate comece a ser feito já —sob o risco de uma fatia importante de emissões simplesmente ser ignorada.

O problema disso é bem real. Não é porque uma dada quantidade de carbono não entrou na conta que na prática ela já não esteja engrossando a camada de CO2 que aquece o planeta.

Na publicação, eles apontam que a área degradada na Amazônia já supera a desmatada (cerca de 20% da floresta já desapareceu).

“A degradação florestal causada pelo homem é o principal fator de empobrecimento socioambiental na Amazônia, e sua extensão está aumentando”, escreve o grupo liderado pelo engenheiro ambiental Celso Silva Junior, doutorando no programa de Sensoriamento Remoto do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Na correspondência, os pesquisadores compilaram os resultados de diversas pesquisas realizadas nos últimos anos que buscaram calcular o impacto da degradação. Em duas delas, foram estimadas, para o período de 2003 a 2015, as emissões provenientes de incêndios florestais e pelo efeito de borda (que resseca e fragiliza as árvores, reduzindo sua capacidade de fazer fotossíntese).

Juntas, alertam os pesquisadores, as duas formas de degradação representaram 88% do que foi emitido por desmatamento no mesmo período.

O orientador de Silva Junior, Luiz Aragão, chefe da Divisão de Observação da Terra do Inpe, que também assina a carta, foi pioneiro nas pesquisas que tentaram calcular o efeito dos incêndios florestais, analisando o que acontecia com parcelas de vegetação ao longo de vários anos depois que tinham sido queimadas.

“A Amazônia, ao contrário do cerrado, não evoluiu com o fogo. A casca fina das árvores não é feita para queimar. E o fogo que ocorre no sub-bosque é lento, o contato com as árvores acaba sendo mortal. Elas podem não sofrer a combustão no primeiro momento, mas a emissão vai ocorrer anos depois”, afirma a pesquisadora Ane Alencar, do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), também signatária da carta.

Um dos trabalhos de uma das alunas de Aragão, Camila Silva, observou que, mesmo 30 anos depois de ser queimada, a floresta continuava emitindo carbono. Alencar, que faz parte, no Seeg, do grupo que calcula as emissões por mudanças do uso do solo no Brasil, vem tentando incluir a degradação na estimativa.

Emissão X absorção de carbono

Outra pesquisa recente que chamou a atenção para o problema foi a da pesquisadora Luciana Gatti, também do Inpe. Ela mostrou que as porções nordeste e sudeste da Amazônia já emitem mais carbono do que absorvem.

O estudo publicado na revista Nature em julho deste ano acendeu vários sinais de alerta e ganhou repercussão em todo o mundo porque um dos principais serviços prestados pela floresta é justamente o de retirar carbono da atmosfera durante a fotossíntese.

Gatti, ao contrário de Aragão, que calcula emissões no solo, mediu a quantidade de carbono na atmosfera sobre a Amazônia, a partir de sobrevoos realizados desde 2010.

“A região leste, somando aqui nordeste [região de Santarém] com sudeste [região de Alta Floresta], tinha sido, em média, 27% desmatada até dezembro de 2018. Nem pegamos os desmatamentos mais recentes. Já a região oeste tinha perdido 11% da cobertura florestal. Mas a emissão de carbono que calculamos para a região leste é dez vezes maior do que no lado oeste”, diz.

“Se a emissão de carbono fosse provocada só pelo desmatamento, ela deveria ser no máximo o triplo. O que indica que mais coisas estão em jogo”, diz Gatti.

Esse é exatamente um dos efeitos de borda. “Quando o cara desmata e depois de um tempo taca fogo, a floresta ao lado, que não foi desmatada, mas está super seca, queima junto e isso não é computado nas emissões. Mas, ao queimar, ela já lança um monte de gás carbônico para a atmosfera e, depois, ao longo dos anos, ela vai morrendo e lançando mais CO2 como decomposição”, afirma a pesquisadora, também signatária da carta.

Os dados de Gatti receberam destaque nesta segunda-feira (25) no boletim de emissões mundiais divulgado pela Organização Mundial de Meteorologia. Segundo o levantamento, a concentração de gases de efeito estufa do planeta em 2020 bateu um novo recorde, chegando a 413,2 partes por milhão, o que representa 149% da concentração que existia antes da Revolução Industrial.

O relatório cita que as alterações no planeta já estão afetando a capacidade de absorção de carbono pelos ecossistemas, citando as observações em partes da Amazônia.

Incertezas

Pelas diretrizes da UNFCCC (a Convenção do Clima da ONU), que determina as metodologias para que os países façam seus inventários de emissões, somente o corte raso de florestas entra na conta porque nesse caso se tem certeza de quanta biomassa foi perdida e que o carbono contido nela foi para o espaço.

Os cientistas defendem, porém, que os cálculos hoje já trazem uma boa ideia do prejuízo ao clima do processo de degradação e que pensar em formas de contornar as incertezas para que essas emissões sejam incluídas na conta é fundamental.

Para Aragão, concentrar a discussão nas emissões do desmatamento, sem levar a degradação em conta, traz um outro problema. É comum o discurso de que só 20% da floresta foram perdidos, indicando que 80% ainda estão preservados. Mas uma boa parte desse remanescente já não está em sua plena forma.

“Dentro desses 80% tem uma área gigantesca degradada, talvez na mesma ordem de magnitude da que foi desmatada, e que parcialmente perdeu suas funções de floresta, afetando o ciclo hidrológico, a conservação das espécies e o ciclo do carbono”, diz Aragão.

Isso tem um impacto direto nos planos do governo federal de ser remunerado por outros países. Um dos mecanismos de compensação possíveis é o chamado Redd, que paga por emissões evitadas de desmatamento e degradação. O segundo “D” tem sido deixado meio de lado.

“Existe interesse dos doadores para que se reduza também a degradação”, destaca Aragão. “Mas precisa de políticas voltadas para contê-la e que isso possa ser verificado.”

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original



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