E.O. Wilson, maior naturalista em atividade, morre aos 92 anos – 27/12/2021 – Ciência

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Afirmações categóricas sempre estão sujeitas a controvérsia, mas poucos discordarão de que Edward Osborne Wilson (1929-2021) era o maior biólogo vivo.

Wilson morreu neste domingo (26), aos 92 anos, em Burlington, no estado de Massachusetts (EUA), segundo a E.O. Wilson Biodiversity Foundation. A instituição não informou a causa da morte.

O jornal The Washington Post anuncia sua morte como a do herdeiro de Darwin, nada menos.

Nada menos, e nada mais justo. Sociobiologia, biodiversidade, biofilia —E.O. Wilson esteve na raiz de conceitos e ideias que pautaram a biologia mais vibrante dos séculos 20 e 21, assim como o evolucionismo de Charles Darwin (1809-1882) galvanizou a passagem do 19 para o 20.

Não por acaso o trabalho de ambos ainda reverbera, e muito além do campo da ciência natural. A ultradireita todavia se bate contra a teoria da evolução, nutre simpatia pelo determinismo sociobiológico da natureza humana imutável e deplora o conservacionismo ambiental inerente ao ofício do naturalista.

Era assim que Wilson se identificava, mais até do que como biólogo, tanto que deu esse título, “Naturalista” (1994), a sua autobiografia. Mais especificamente, era um mirmecologista, especialista em formigas que descreveu centenas de espécies, com minúcia de ourives encurvado sobre uma lupa para desenhá-las.

A fama científica precedeu toda a polêmica criada pela publicação de “Sociobiologia – A Nova Síntese” (1975). Lançou em 1963, com Robert MacArthur (1930- 1972), ideias sobre a relação entre tamanho de habitats e número de espécies que comporiam a chamada teoria da biogeografia de ilhas.

O modelo matemático tem a elegância dos grandes conceitos científicos. Uma ilha recebe novas espécies —insetos, sementes, pássaros etc.— por migração e perde outras por extinção, chegando a um equilíbrio dinâmico no qual a quantidade resultante de espécies tem proporção com a área e a distância de outras ilhas.

Daí a encarar a diversidade biológica como valor em si foi um passo, que deu nascimento ao imperativo de conservar grandes áreas naturais para preservar a biodiversidade —termo que consagrou na companhia de outro grande biólogo, Thomas Lovejoy (1941-2021), por infeliz coincidência morto dois dias antes.

Wilson escreveu vários livros em defesa da preservação, como “A Diversidade da Vida” (1992) e “A Criação”(2006). Tornou-se um herói do ambientalismo, tendo atuado como conselheiro de ONGs como Conservação Internacional e WWF, mas sua figura contradiz a convicção de muitos de que todo ambientalista é um esquerdista, pois neste setor a academia nunca o viu com bons olhos.

Na origem da discórdia está a obra “Sociobiologia”, seguida de “Sobre a Natureza Humana”, que ganharia o Prêmio Pulitzer de não ficção em 1979 (Wilson receberia outro, em 1991, por “As Formigas”, com Bert Hölldobler).

Simplificando muito, Wilson pretende explicar todo comportamento de mulheres, homens etc. com base na biologia, ou seja, universais fixados nos genes por seleção natural (a “natureza humana”). Essa naturalização agrada a conservadores, que enxergam aí a matriz de família monogâmica, crença em Deus, guerra e por aí vai.

Verdade que a sociobiologia, repaginada como psicologia evolucionista, também já produziu explicações para homossexualidade, promiscuidade masculina, submissão feminina, racismo, homicídios e até estupros. Soa familiar no Brasil de hoje?

O determinismo genético de Wilson foi criticado por colegas progressistas de Harvard, como os também biólogos Stephen Jay Gould (1941-2002) e Richard Lewontin (1929-2021). O naturalista foi hostilizado por estudantes, a ponto de, numa mesa-redonda sobre sociobiologia, um militante derramar uma jarra d’água sobre sua cabeça.

O cavalheiro Wilson nunca iria a tais extremos de agressividade, mas sabia defender membros do clã determinista. Um deles a receber sua solidariedade foi o controverso antropólogo Napoleon Chagnon (1938-2019), autor de livros infames sobre os yanomami, “O Povo Feroz” (1967) e “Nobres Selvagens” (2013).

Chagnon virou persona non grata entre antropólogos, sobretudo após a publicação de “Trevas no Eldorado” (2000), do jornalista Patrick Tierney, que o acusava de abusos, na companhia de James Neel (1915-2000), contra o povo indígena. Não exatamente um bom livro, denunciava noções repulsivas de Chagnon (basta ler as obras do próprio para formar tal juízo).

Wilson saiu em defesa de Chagnon. Com os próceres ultradarwinistas Richard Dawkins, Steven Pinker, Daniel Dennett e Marc Hauser, pressionou o autor John Horgan, em 2000, a não resenhar, ou a pelo menos desancar, “Trevas no Eldorado”, de modo a não prejudicar sua própria carreira jornalística.

Prefiro pensar que o naturalista estava mais engajado em defender a sociobiologia do que Chagnon, pois seria mais fácil de reconciliar com a imagem de profunda gentileza que Wilson deixou ao conhecê-lo, em 1998 (leia a entrevista publicada na Folha à época).

O gentleman do Alabama personificava como poucos a proximidade etimológica e ética entre conservadorismo e conservacionismo. É triste que deixe o planeta no momento em que este mais precisa da civilidade implícita nessa conciliação.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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