E.O. Wilson contou à Folha em 1998 o que aprendeu com observação de animais – 27/12/2021 – Ciência

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Em entrevista em 1998 à Folha, o biólogo Edward Osborne Wilson, também conhecido como E.O. Wilson, que morreu neste domingo (26), aos 92 anos, falou sobre seus estudos e sobre as influências de pensadores e outros cientistas em seu trabalho. Além disso, explicou o que tirou da observação detida de animais, inclusive dos homens. Leia a íntegra da reportagem a seguir.

Na parede à direita de sua mesa no laboratório em Harvard, Edward Osborne Wilson tem quatro imagens. A mais colorida é a de um besouro entre azul e verde metálicos que vive no dossel da floresta amazônica, Agra eowilsoni, nomeado por um amigo em sua homenagem. Mas é a foto de um militar que mais tem a dizer sobre esse cientista recluído e gentil, nomeado em 1996 pela Time como uma das 25 pessoas mais influentes dos EUA, cujas ideias estão agora na capa de publicações influentes como Atlantic Monthly e Wilson Quarterly.

O militar é o almirante James Stockdale, herói da Guerra do Vietnã. Prisioneiro dos vietcongues por anos, criou uma espécie de código morse para que os marines isolados pudessem comunicar-se. O professor conta a história com emoção e aponta o detalhe revelador: sobre a mesa atrás da qual Stockdale posou para a foto oficial do almirantado repousa um exemplar de “Sobre a Natureza Humana”, o livro que deu a Wilson seu primeiro prêmio Pulitzer, em 1978 (outro viria em 1991, para ele e Bert Hölldobler, pelo monumental “As Formigas”).

Wilson nunca envergou uma farda. O mais próximo que chegou desse sonho foi o uniforme cinza e branco da Academia Militar da Costa do Golfo (em Gulfport, Mississippi), para onde foi enviado menino sob a promessa de fazerem dele um homem, ou seja, um nobre oficial sulista. Tentou alistar-se em 1946 no Alabama, seu estado natal, mas foi recusado por causa da cegueira no olho direito, resultado de um acidente de pesca na infância. Em sua autobiografia, “Naturalista”, ele conta que chorou, nesse dia, e jurou tornar-se um cientista importante.

Cinquenta e dois anos depois, sua lista de condecorações impressiona. Ela só pode ser resumida com números: 24 prêmios de pesquisa, 16 literários, 7 ambientais, 22 títulos acadêmicos honoris causa, pesquisa em 16 países, 370 artigos técnicos, 22 livros. Mais que insígnias, algumas dessas obras são verdadeiras armas de combate, como a bomba multiogiva lançada esta semana sobre a feudal academia norte-americana, o volume “Consiliência – A Unidade do Conhecimento”.

A entrevista abaixo é a súmula de três encontros com E.O. Wilson para discutir o percurso da sociobiologia à biodiversidade e até a proposta de unificação do conhecimento que o especialista em formigas (mirmecologista) chama de “consiliência”. Os encontros ocorreram em janeiro, fevereiro e março no laboratório que ele mantém no Museu de Zoologia Comparada da Universidade Harvard, mesmo depois de aposentado.

Os primeiros contatos foram em novembro, mas a primeira entrevista demorou a sair porque Wilson estava finalizando a revisão de “Consiliência” (nesse processo, um de seus colaboradores foi Newt Gingrich, presidente da Câmara de Representantes do Congresso dos Estados Unidos, um político republicano). A última entrevista aconteceu na sexta-feira, 13, a semana em que o volume chegava às livrarias.

Só no primeiro encontro Wilson usou uma gravata, como faz a maioria dos professores em Harvard. Nos dois últimos, a camisa social deu lugar sob o paletó de lã verde-claro a outra, jeans, com aparência mais do que confortável. Engana-se porém quem pensa que ele está relaxando: ainda trabalha 60 horas por semana (até aposentar-se em 1997 eram de 80 a 90) e, nem bem terminou de escrever “Consiliência”, já se dedica a outra tarefa heroica —descrever 315 espécies de formigas de um único gênero, Pheidole. Só debruçado sobre o microscópio serão bem mais de mil horas, desenhando em papel milimetrado cada cerda dos insetos dessecados.

Wilson fala com entusiasmo desse trabalho de ourives conceitual. Mostra os desenhos da espécie Dinoponera grandis, que recebeu de um colaborador do Museu de Zoologia da USP, uma das maiores formigas do mundo (soldados podem alcançar 3 cm, justificando o “dino” do primeiro nome). Conta que no ninho dessas gigantes vive uma outra espécie minúscula, aparentemente de restos nos depósitos de lixo, e ri quando explica seu nome científico, Pheidole dinophila, as amigas dos monstros.

O Brasil é uma presença viva, literalmente, no laboratório. À esquerda de quem entra, centenas de saúvas circulam por uma dúzia de frascos interconectados com tubos também de vidro, um deles com uma vara de bambu vergada como passarela até outra bandeja contendo folhas e cascas de laranja.

Na parede, um mapa com habitats de pássaros ameaçados no Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. Sobre outra mesa, um atlas com imagens de satélite da mata Atlântica. Em meio à conversa, Wilson relembra divertido o relato que o zoólogo (e sambista paulistano) Paulo Vanzolini, ex-colega em Harvard, lhe fez de caminhadas solitárias pelo cerrado, acompanhado só de uma cavalgadura: “Burro, burro, burro”, repete entre risadas, quase sem sotaque.

A seguir, os trechos principais da conversa sobre o que Wilson acredita ter aprendido com a observação detida de animais, inclusive homens.

Fiquei espantado quando li “Sociobiologia” ao ver um cientista natural americano citar Camus na abertura do livro, particularmente uma frase como aquela (“a única questão filosófica séria é o suicídio”). O sr. lê filosofia para complementar seu trabalho ou questões sobre a natureza humana ou já como estudante interessou-se por filosofia? A primeira resposta. Nunca estudei filosofia, nunca fiz um curso. Minha leitura —usei essa formação para escrever “Consiliência”— não é apenas técnica, científica, mas leio também em sentido acadêmico amplo revistas de opinião e resenhas como “The American Scholar”, “Orion”, “New Republic”, “Commentary”, “New York Review of Books”, levanto informação dessa maneira. E às vezes me dedico a ler livros particulares de diferentes autores.

Obviamente é muito seleto, porque sou muito ligado em termos de escrita e pesquisa. Geralmente presto mais atenção a ideias que acredito se encaixarem com as que já tenho.

Gente que trata de assunto nos quais o sr. está interessado. Quando eles fornecem informação, substância ou pontos de vista novos para mim.

E Camus foi algo especial para o sr., naquela época (1975)? Simplesmente achei que Camus teve uma iluminação incomum sobre a condição humana. Mas ele não entendia nada de biologia, como tantas figuras literárias originais, gênios. Ele intuiu algumas verdades profundas.

O sr. tem trabalhado com organizações não-governamentais (ONGs). É seu objetivo influenciar políticas na área ambiental? Qual é o papel de temas ambientais em seu trabalho? Estive associado a organizações como a seção norte-americana do WWF, Nature Conservancy e, recentemente, estou mais próximo da Conservation International, que tem feito boa quantidade de trabalhos no Brasil e na América Central.

O que eu faço lá é participar do conselho de diretores, como consultor científico. Muitas dessas organizações têm excelentes programas e um conselho de diretores com gente influente, e muitas vezes rica, do mundo dos negócios, profissional e do governo. Mas há uma certa escassez de cientistas familiarizados com o estudo do ecossistema e das espécies ameaçadas.

Além de ONGs, o sr. tem ou gostaria de ter uma presença no debate público sobre a mudança climática, sobre biodiversidade? Por exemplo, sua relação com Newt Gingrich. Qual é o seu relacionamento com ele? E isso tem a ver com assuntos ambientais? É, em geral tem a ver com esses temas. Genericamente, porque não sou um amigo pessoal, no sentido de que jogue golfe com ele ou alguma outra pessoa famosa com quem tenha tido contato. Mas no caso de um líder político, eu trabalharia —espero vir a trabalhar muito no futuro— como consultor científico. No caso de Gingrich, nós fomos além e discutimos questões levantadas em “Consiliência”, além do ambiente.

Como o sr. o conheceu? Nunca vou a Washington, a não ser quando é absolutamente necessário. Não sou uma pessoa muito social, não fico viajando por aí como muitos de meus colegas que estão no governo ou nas ciências sociais —uma vergonha, algo muito ruim, porque o cientista realmente precisa se envolver mais. Eu o conheci porque ele é profundamente interessado em animais, pessoalmente.

Ele vai a um bocado de zoológicos e ama história natural, algo não muito conhecido sobre ele. Ele se preocupa com o ambiente, embora você não vá ouvir isso com frequência, por causa de sua posição de liderança no Partido Republicano, que não tem no momento uma posição muito forte a favor do ambiente.

Muitos diriam que tem uma posição forte contra o ambiente. É, republicanos conservadores incluem um bocado de gente que está simplesmente errada, destrutivamente errada. Em todo caso, foi essa conexão que levou o diretor do zoológico de Atlanta a reunir vários cientistas interessados na natureza, conservação e ambiente para conversar com Newt. Nós o encontramos várias vezes e eu continuei esse relacionamento depois disso, porque estava escrevendo “Consiliência” e partilhávamos ideias que faziam parte do livro. É aí que estamos, no momento.

Que lugar ocupa o ambiente em seu sistema de pensamento? Ele parece muito mais importante em “Consiliência” do que em sua autobiografia, “Naturalista” (1994). Foi uma descoberta tardia em sua vida intelectual? Não, sempre estive consciente da destruição dos ecossistemas e preocupado com isso. Mas eu não me tornei um ativista, alguém realmente preocupado em surtir algum efeito como cientista sobre a questão da biodiversidade, até 20 anos atrás.

A razão para isso aflorar em “Consiliência” é de dois tipos. Primeiro, porque é realmente um problema urgente. Superpopulação, destruição do ambiente e das reservas naturais de que depende a humanidade —esses serão os grandes temas, na minha opinião, nos próximos 20 anos.

Há urgência, e muito poucas pessoas em posições de liderança veem a coisa dessa maneira. A outra razão para isso aparecer em destaque em “Consiliência” é que se trata de um desenvolvimento natural-lógico, eu deveria dizer, do que se pode chamar de visão naturalista do mundo.

Não é difícil aceitar a visão contemporânea de que mente e cérebro são inseparáveis, mas e quanto à cultura? Em primeiro lugar, ela é coletiva, não individual, e também, em certo sentido, tem uma existência fora dos atores individuais. Literatura, arte, arquitetura são obras, documentos, não exatamente pensamentos. O fato de que sua transmissão tenha lugar em cérebros individuais não exclui, na minha opinião, a possibilidade de um status separado, independente da determinação biológica. Acredito que a verdadeira cultura é cultura viva, que se torna cultura somente quando é objeto de mentes ativas, coletivas. Artefatos que existem separadamente do uso prático ou artístico de mentes vivas estão fora da esfera da cultura.

Mesmo quando exploramos a cultura de civilizações extintas, os artefatos não existem até que sejam reintroduzidos em uso pelo estudo de mentes vivas. Esta seria minha definição de cultura em sentido puro: atividade coletiva de mentes, transmitida na maior parte dos casos por meio de artefatos de uma geração a outra na sociedade.

O sr. não acha que traços essenciais desse produto podem emergir de uma estrutura que não esteja relacionada com a biologia de mentes particulares? Não acredito (ri).

É só uma questão de crença? A questão é como interpretar o fenômeno da emergência. É possível que fenômenos inteiramente novos, independentes, emirjam de sistemas suficientemente complexos, com base na interação de muitos, muitos elementos, neste caso a mente humana. Não acredito que isso ocorra. Certamente eles adquirem propriedades gerais que são únicas, e isso ocorre com culturas, mas eles não são separáveis como processos físicos da multidão de atos de comportamento individual. Este é o coração do argumento “consiliente”.

Seria correto descrever seu projeto como não apenas reducionista, mas também determinista? Sim, se você acrescentar um elemento importante de percepção, a síntese. Reducionismo não tem sentido sem síntese e todos os bons cientistas têm a síntese em vista como objetivo último da análise reducionista. Quando se parte uma célula em moléculas, isso implica pensar na célula como sistema mais complexo, a ser reconstituído assim que os elementos forem compreendidos.

Mas esta não é a imagem predominante da atividade científica. Trata-se de um mal-entendido sobre o que acontece em ciência, em parte por culpa dos cientistas, porque acham muito mais fácil a redução como um passo, como procedimento de análise, do que a síntese. Síntese é extremamente difícil, em comparação com o reducionismo. A ciência comumente apresentada ao público é só a fase reducionista, não a sintética. É muito mais fácil, ou era, encontrar um elemento ou composto químico novo do que dizer como concebemos a célula em funcionamento ou o cérebro.

O sr. se refere basicamente a dois exemplos de traços culturais com raízes biológicas, a interdição do incesto e o vocabulário de cores. Seriam eles os únicos com que o sr. se sente confiante o bastante para apresentar como provas e, neste caso, não é pouco demais para suportar todo o projeto de fundamentação (das ciências humanas) Não, realmente não seria suficiente. O que estou fazendo é apresentar uma visão de mundo —este é o procedimento correto em ciência quando se examina um sistema complexo, toda uma nova classe de fenômenos; é encontrar um ponto de entrada.

Ou seja, paradigmas, exemplos que possam servir para ilustrar o princípio que você acredita existir em toda parte e então concentrar-se nos paradigmas melhores de entender e analisar no começo.

Por exemplo, quando hormônios foram descobertos, o princípio rapidamente se estabeleceu, embora só uns poucos fossem conhecidos, como eles funcionam, sua química. Parece agora encorajador que a mente seja realmente composta de regras epigenéticas.

Em “Consiliência”, o sr. diz que Freud estava factualmente errado quando atribuiu o mecanismo do sonho à realização de desejos, mas mais à frente concluiu que ele e Jung poderiam terminar confirmados pela neurobiologia, ao menos aproximadamente. O sr. não acha que eles não tinham outra escolha, com os métodos empíricos limitados da época? Isso é verdade. Eles se saíram muito bem com o que tinham. Não diria de forma alguma que Freud e Jung tiraram as conclusões erradas das informações que tinham, eles só não tinham informação suficiente e chutaram errado.

No entanto, como eu também disse, há elementos em seu pensamento que são válidos, particularmente quando Freud aponta para a desinibição, sabe como é, nos sonhos, quando você faz alguma coisa incrível na sua mente, sexual ou seja o que for. Chamar a atenção para isso, mesmo que o modelo não seja muito bom, foi provavelmente correto e uma contribuição original.

Tentando ver as coisas do ponto de vista dos cientistas sociais: como eles poderiam aceitar a “exploração cooperativa” entre humanidades e ciências naturais, se no final só um dos campos a biologia é capaz de fornecer uma fundação? Isso é verdade para todas as ciências, sempre que você considera duas ciências em níveis adjacentes de organização, a que lida com o mais fundamental e simples é sempre fundacional. Mas isso não quer dizer que o campo acima esteja subordinado.

Por exemplo, a biologia celular tem sua fundamentação na biologia molecular, mas a biologia celular é uma disciplina por mérito próprio. No caso das ciências sociais, a mesma coisa é enfaticamente verdadeira, antropólogos e sociólogos serão sempre os descobridores de novos fenômenos, eles é que descobrirão efeitos estranhos pela comparação de sociedades de povos pré-letrados, ou novos fenômenos em favelas e nos centros urbanos degradados.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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