É certo punir atletas russos – 04/03/2022 – Marina Izidro

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Imagine um dos eventos esportivos de maior prestígio do mundo em risco por falta de atletas. Quase aconteceu nos Jogos Paralímpicos de Pequim. Foram tantas delegações ameaçando boicote caso russos e belarussos competissem que o presidente do Comitê Paralímpico Internacional, o brasileiro Andrew Parsons, decidiu excluir atletas dos dois países horas antes da cerimônia de abertura.

Nesta semana, a Fifa fez o mesmo. Havia permitido que russos disputassem as Eliminatórias para a Copa do Mundo do Qatar de forma neutra, sem usar o nome do país, mas houve tanta pressão de federações que a entidade suspendeu a Rússia de competições internacionais, o que deixa o país fora do Mundial. Os casos continuam nos tribunais.

Nos últimos dias, praticamente todos os esportes puniram atletas russos de alguma forma. Alguns permitirão que participem como neutros, sem bandeira ou hino, o que acaba sendo uma punição mais simbólica. É o caso do tênis (e haja coragem para expulsar o novo número um do mundo, Daniil Medvedev). Outros, como Fifa e Uefa no futebol, e o vôlei, optaram pela exclusão. Organizações e federações também retiraram suas competições de território russo, como o GP de Sochi de Fórmula 1. É o certo. Não há alternativa.

Atletas da Ucrânia já morreram em combate, e a seleção de futebol do país pediu o adiamento da partida das Eliminatórias contra a Escócia por causa da guerra. Não parece certo deixar a Rússia competir enquanto ucranianos não conseguem treinar, estão fugindo, perdendo a vida.

Muitos atletas russos, de fato, não têm culpa, são vítimas do sistema e da guerra de Putin. Os que têm coragem de se manifestar, caso do tenista Andrey Rublev, que escreveu “sem guerra, por favor” na lente da câmera no ATP de Dubai, precisam ser aplaudidos. Mas então é correto penalizá-los por algo sobre o qual não têm controle? Que diferença isso faz na guerra? Sim, a punição importa.

Importa porque regimes autoritários usam o esporte como ferramenta de poder para melhorar a própria imagem. Importa porque dar a um país o privilégio de sediar eventos internacionais gera dinheiro e prestígio. Importa porque falar sobre o assunto fora da esfera política permite que pessoas vejam que há algo errado e façam questionamentos. Importa para que atletas –muitos deles brasileiros– que atuam na Ucrânia não se sintam sozinhos e esquecidos. E porque não é justo criticar esportistas quando não se posicionam e, se eles decidem se unir por uma causa, reclamar que não vai adiantar nada.

Entendo quem considera hipocrisia punir russos e não “tal país responsável por tal conflito, ou aquele outro que desrespeita direitos humanos…”. Mas talvez isso mostre que o debate deve continuar. Posicionar-se contra a Rússia não significa apoiar outras injustiças. Se elas não podem mais ser corrigidas, o que dá para ser feito daqui para a frente? A Rússia deve ser punida indefinidamente? Com certeza, não. Então, até quando? Como dá para incluirmos o esporte como parte da mudança que queremos no mundo mas, ao mesmo tempo, não sermos ingênuos?

Fato é que a guerra acabou de vez com o mito de que esporte e política não se misturam, discurso às vezes usado por conveniência quando países e organizações esportivas preferem não agir. Um posicionamento firme pode influenciar decisões de dirigentes poderosos. Atletas e opinião pública têm mais poder do que às vezes imaginam.


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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