Drama revive pesadelo da violência na Colômbia – Sylvia Colombo


Um dos melhores livros da produção latino-americana contemporânea, “A Ausência Que Seremos” (ed. Companhia das Letras, 2005) chega às telas sem ficar devendo muito à obra original –as memórias de Hector Abad Faciolince sobre sua infância e juventude na violenta Medellín dos anos 1970/1980. A adaptação, dirigida pelo veterano do cinema espanhol Fernando Trueba (“Belle Époque”), venceu o Goya de 2021 e está disponível na Netflix.

A obra narra a história de uma família católica e de classe média colombiana a partir do olhar de um garoto fascinado pelo pai, que destoa por sua visão progressista do mundo e por ser ateu. Héctor Abad Gómez (Javier Cámara) foi um ativo médico sanitarista e professor universitário dedicado a melhorar as condições de vida da população dos bairros pobres de Medellín, em meio à escalada do crime organizado. Nos anos 1970 e 1980, a Colômbia vivia uma de suas fases mais violentas, devido à disputa territorial entre os cartéis de Cali e Medellín. Em meio a isso, surgiam agrupações paramilitares, financiadas por grupos de interesses econômicos e políticos.

Neste cenário, foram assassinadas centenas de defensores dos direitos humanos, professores universitários e  sindicalistas. Embora tenha passado sua vida lecionando, sem preferências partidárias, Abad Gómez acabou se envolvendo em política para tentar implementar programas de saúde pública. Em 1987, enquanto fazia campanha eleitoral, foi assassinado violentamente, como se fazia na época: por um sicário, no meio da rua.

O drama nos apresenta, ainda, a outros conflitos desse período da história colombiana, como as disputas entre liberais e conservadores, a convivência com a comunidade judaica e a acelerada modernização de Medellín na época, colocando em xeque valores tradicionais de uma sociedade extremamente religiosa.

Narrada em dois planos, um colorido, o da infância, marcado por boas memórias e também por uma tragédia, e outro em preto-e-branco, quando Abad Faciolince já é adulto e luta para entender tanto as batalhas travadas por seu pai como o drama histórico da Colômbia, a obra é também um retrato do excelente momento da produção cinematográfica colombiana, com ótimas atuações dos atores locais, especialmente de Patricia Tamayo (que faz a mulher de Abad Gómez) e Juan Pablo Urrego, no papel do autor. Cámara, que é espanhol, se esforça para imitar o sotaque colombiano da região da Antioquia.

Abad Faciolince teve uma relação complicada com seu passado, algo que sempre conta em suas entrevistas. Depois da morte do pai, passou muito tempo na Itália, sem imaginar ser possível voltar à Colômbia, pelo trauma familiar e pela decepção geral com seu país. Com o passar do tempo e com os livros que lançou depois, foi se reconciliando com tudo isso.

Hoje, vive em Medellín e diz pensar em envelhecer e morrer aí.

 

 

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