Dificuldade no descarte torna sacolas de algodão novo problema ambiental – 31/08/2021 – Ambiente

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Recentemente, Venetia Berry, uma artista de Londres, contou as sacolas de algodão gratuitas que tinha acumulado em seu armário. Eram pelo menos 25.

Havia sacolas da marca eco-fashion Reformation, outras de lojas vintage, da Soho House, de hotéis-butique no campo e de lojas de arte independente. Ela tinha duas sacolas das ópticas Cubitts, a amiga da geração do milênio, e até uma de uma fazenda de alho. “Você as ganha sem pedir”, disse Berry, 28.

As sacolas de algodão se tornaram uma forma de marcas, lojas e supermercados enviarem a mensagem de que são amigas do planeta –ou, pelo menos, mostrarem que as empresas estão conscientes do uso excessivo de plástico nas embalagens. (Houve um breve intervalo no uso de sacolas de algodão durante a pandemia, quando surgiram temores de que sacolas reutilizáveis pudessem abrigar o vírus, mas hoje elas voltaram com toda a força.)

A adoção generalizada de sacolas de algodão pode na verdade ter criado um novo problema.

Uma sacola de tecido orgânico precisa ser usada 20 mil vezes para compensar seu impacto geral de produção, segundo um estudo de 2018 do Ministério do Meio Ambiente e Alimentos da Dinamarca. Isso equivale ao uso diário durante 54 anos –de apenas uma sacola. Segundo essa métrica, se as 25 sacolas de Berry forem orgânicas, ela teria de viver mais de mil anos para compensar seu arsenal atual.

Descartar uma sacola de uma maneira de baixo impacto ambiental não é tão simples quanto se imagina e apenas 15% dos 30 milhões de toneladas de algodão produzidas por ano realmente chegam a depósitos têxteis.

Mesmo quando uma sacola chega a uma usina de reciclagem, a maioria das tintas usadas para pintar os logotipos nelas têm base de PVC, e portanto não são recicláveis; são “extremamente difíceis de decompor quimicamente”, disse Christopher Stanev, fundador da Evrnu, firma de reciclagem têxtil baseada em Seattle (noroeste dos EUA). Os desenhos estampados têm de ser recortados do tecido; Stanev calcula que 10% a 15% do algodão que a Evrnu recebe são desperdiçados dessa maneira.

Transformar tecido velho em novo, que é quase tão intensivo no uso de energia quanto fabricá-lo, para começar. “A maior pegada de carbono dos têxteis ocorre na fábrica”, disse Bédat.

O dilema da sacola de algodão, segundo Laura Balmond, gerente de projeto da campanha Make Fashion Circular, da Fundação Ellen MacArthur, é “realmente um bom exemplo das consequências imprevistas de pessoas que tentam fazer escolhas positivas, mas não entendem a paisagem completa”.

Possivelmente, foi a estilista britânica Anya Hindmarch quem colocou no mapa a sacola de algodão reutilizável. Sua sacola “Eu não sou uma sacola plástica”, de 2007, criada com a agência ambiental Swift, era vendida por cerca de US$ 10 (R$ 50,19) em supermercados. O incentivo ao fim da compra ded sacolas de uso único, viralizou e o número de sacolas compradas no país caiu de cerca de 10 bilhões para 6 bilhões em 2010, segundo o Consórcio Britânico do Varejo.

Naturalmente, logo se tornou uma ferramenta de branding. A famosa sacola creme-e-preta da revista New Yorker se tornou um símbolo de status; desde 2014, o semanário da Condé-Nast deu 2 milhões de sacolas para assinantes, segundo um porta-voz.

A ideia, disse Shaun Russell, fundador da Skandinavisk, marca de cosméticos sueca que é uma “B Corp” registrada –empresas que cumprem certos padrões de sustentabilidade social ou ambiental–, é “usar os clientes como cartazes ambulantes”.

A Aesop, que também é uma B Corp registrada, lançou as sacolas de compras de algodão há uma década; Suzane Santos, diretora de vendas, disse que as clientes as consideram “uma parte emblemática da experiência Aesop”. Tanto é assim que a marca recebe e-mails irritados quando elas não acompanham os pedidos online.

“Abuso seria a palavra certa”, disse ela, descrevendo o caso em uma ligação por Zoom de Sydney, na Austrália. (Santos disse que as clientes que quiserem se livrar do excesso de sacolas podem devolvê-las, mas a Aesop não anuncia essa opção no site ou nas lojas.)

Sacolas de algodão existem há muito tempo no comércio de luxo; calçados e bolsas vêm em envoltórios protetores contra a poeira. Mas a suposta sustentabilidade das sacolas significa que mais marcas que nunca estão embalando produtos em um número crescente de camadas. Artigos que nem precisam de proteção contra poeira, como prendedores elásticos para cabelos, tampões orgânicos e produtos para limpeza facial hoje vêm envoltos em um “sleeping-bag”.

“É simplesmente embalagem sobre embalagem sobre embalagem”, disse Bédat.

Isso não quer dizer que o algodão seja pior que o plástico, ou que os dois devam ser comparados. Enquanto o algodão pode usar pesticida (se não for cultivado de forma orgânica) e secar rios pelo consumo de água, os sacos plásticos leves usam combustíveis fósseis que emitem gases, não são biodegradáveis e entopem os oceanos.

Ao comparar os dois materiais, “acabamos em um ‘achismo’ ambiental que deixa os consumidores com a ideia de que não há solução”, disse Melanie Dupuis, professora de estudos ambientais e ciência na Universidade Pace.

Buffy Reid, da malharia britânica &Daughter, suspendeu a produção de sacolas de tecido em abril deste ano; ela está planejando implementar uma função no site em que as clientes podem optar por receber uma. Embora a Aesop não esteja interrompendo a produção, a marca vai transformar a composição de suas sacolas em uma mistura de 60%-40% de algodão reciclado e orgânico. “Isso vai nos custar US$ 0,15 a mais”, disse Santos, mas “reduz a água em 70% a 80%”.

Algumas marcas estão recorrendo a outras soluções têxteis. A estilista britânica Ally Capellino trocou recentemente o algodão por cânhamo, enquanto Hindmarch adotou uma nova versão de sua sacola original, esta feita de garrafas de água recicladas; as lojas Nordstrom também usam sacolas semelhantes.

Afinal, a solução mais simples talvez seja a mais óbvia. “Nem todo produto precisa de uma sacola”, disse a designer Rachel Comey.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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