Desafio da seleção de Tite no Qatar vai além do hexa – 03/01/2022 – Renata Mendonça

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​Eu tinha 13 anos na conquista do penta. A Copa que a gente madrugou para ver, tinha até café da manhã na escola em dia de jogo do Brasil. Foi o primeiro Mundial que me marcou de verdade, lembro cada passo que a seleção brasileira deu até a final. Eu cheguei a ver o tetra, mas, com cinco anos de idade, tenho apenas vagas memórias dele.

Eram tempos em que futebol, para mim, era diversão e só. Eu assistia aos jogos esperando gols para poder comemorar. Da Copa de 2002, não esqueço aquele golaço de falta do Ronaldinho Gaúcho, o bico do Ronaldo contra a Turquia e aqueles dois do Fenômeno em cima do Oliver Kahn na final. Eu não tinha conhecimento nenhum no auge da minha adolescência para fazer análise, mas, na minha memória, aquela seleção jogava por música e marcou meu imaginário futebolístico ainda infantil.

Hoje, o futebol virou, além de diversão, profissão. E eu passei a enxergar o jogo além das quatro linhas. A complexidade desse fenômeno mundial que move multidões supera muito o que acontece dentro de campo. Por isso que, 20 anos depois, eu me reencontro com a Copa do Mundo com grandes expectativas sobre o que vamos ver da seleção brasileira no gramado –e com expectativas ainda maiores sobre o que vamos ver fora dele.

É sempre empolgante começar um ano de Copa, ainda que, para esta, a gente precise esperar uns meses a mais do que estamos acostumados. A Copa de 2022 vai ser quase em 2023. E mais importante do que quando é atentarmos para onde ela vai acontecer.

A discussão sobre a polêmica escolha do Qatar como sede do Mundial já vem desde 2010. A confirmação da Fifa à época gerou muita repercussão negativa por se tratar de um país que nega direitos a mulheres e pessoas LGBT, por exemplo. Lá, uma mulher precisa de autorização de um familiar do sexo masculino para poder estudar, viajar, entre outras coisas. E ser homossexual é simplesmente contra a lei –pode até levar à pena de morte. Sem falar nas inúmeras denúncias de trabalho escravo nas obras dos estádios para a Copa do Mundo.

Realizar o principal evento esportivo do mundo lá é dar holofotes a todos esses absurdos. Mas, se as principais estrelas do futebol estarão ali, se os olhos de todo o planeta estarão vidrados no Qatar, é importante que os protagonistas do espetáculo deem o recado. Com e sem a bola.

Dentro de campo, a seleção de Tite já mostrou evolução, tem uma campanha impecável nas Eliminatórias, a melhor defesa da competição e, se ainda não encanta em todos os jogos, tem maturidade para vencer partidas quando não está nos seus melhores dias. Sua última impressão em 2021 foi um dos melhores jogos da era Tite pós-2018 e contra o melhor adversário da América do Sul. Não é um time sem defeitos, mas haverá tempo para corrigi-los até novembro.

Confesso que me preocupo mais com o que a seleção fará fora de campo. Espero muito do Brasil de Tite, Neymar, Thiago Silva, Marquinhos, Casemiro, ali dentro das quatro linhas, quem sabe até mesmo o hexa. Mas espero ainda mais deles após o apito final. Pode parecer utópico, mas vimos em 2021 um ensaio de manifestação dos atletas na Copa América que me permite sonhar.

Eles estarão disputando uma Copa (conquistando-a, quem sabe) num país que proíbe gays de existir, que prende mulheres por desobedecer homens. Uma vez, ouvi de Tite que ele aprendeu algo que sua filha, socióloga, sempre repete: “O silêncio confirma o pensamento”. Espero que se lembre disso no Catar –assim como espero (e torço muito) que conquiste o que tanto almejamos por lá.


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