Covid longa é perigosa, mas medo não deve governar a vida – 24/05/2022 – Ross Douthat

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Desde que a onda inicial da variante ômicron recuou e a inflação substituiu a Covid-19 no noticiário, a discussão sobre a reabertura social e econômica foi amplamente decidida em favor dos “reabridores”. Mas o debate sobre a prudência de reabrir e tirar as máscaras não desapareceu. Conforme os casos de Covid-19 voltam a aumentar, ainda há uma parte da população que pensa que normalidade demais é um erro de saúde pública.

Ultimamente, esse grupo mudou um pouco seu foco, dos perigos de morte (diminuídos pela vacinação e a imunidade) para o perigo da Covid longa, a forma crônica potencialmente debilitante da doença. Num ensaio recente no jornal The Washington Post, o especialista em políticas de saúde Ezekiel Emanuel escreveu que “1 chance em 33” de desenvolver sintomas de Covid longa —supondo que, para vacinados como ele, 3% das infecções se tornam crônicas— é suficiente para que ele continue a usar máscaras N95 (ou PFF2) fora de restaurantes, trens e aviões o máximo possível.

Como ele admite, há muita incerteza em torno do quadro. Assim como se dá com muitas questões, há um efeito notável de agrupamento intelectual: pessoas que ainda aprovam restrições da pandemia são mais propensas a enfatizar seus perigos, enquanto os céticos em relação a máscaras parecem tender a suspeitar que é uma espécie de hipocondria de estados governados por democratas.

Desde que as vacinas se tornaram amplamente disponíveis, sou um pacificador pandêmico e alegremente arranquei minha máscara quando os aviões não a exigiram mais, o que deveria me deixar preparado para ser cético sobre a Covid longa. Mas, ao mesmo tempo, tenho amplo conhecimento de doenças crônicas e suas controvérsias, com base em extensa experiência pessoal, o que desde o início me tornou um crente da Covid longa: seu escopo é incerto, mas é claramente real e muitas vezes terrível.

Da perspectiva de Emanuel, eu não deveria ter essas duas posições. Experimentei na própria carne como uma infecção crônica pode se tornar ruim. Então o que estou fazendo comendo fora, entrando em aviões de cara nua, escrevendo esta coluna sem máscara num café?

É uma pergunta interessante, que me inspirou a fazer algumas contas sobre um tipo diferente de risco —o que minha família corre por ainda viver em Connecticut, um foco da doença de Lyme, meu visitante indesejado e crônico pessoal.

As estimativas da frequência com que essa doença se torna crônica variam de 5% a 20% dos casos. Digamos 12% e teremos um risco quatro vezes o da estimativa de Emanuel para a Covid. Mas, felizmente, a doença de Lyme não é transmitida pelo ar, então o risco de se infectar é muito menor. Se a Covid endêmica acabar se assemelhando à gripe, a probabilidade de contraí-la em determinado ano pode ficar entre 1 em 5 e 1 em 20, enquanto a de contrair Lyme é mais de 1 em 700.

Mas… Em Connecticut a incidência é pelo menos três vezes a média nacional, e há seis pessoas na minha casa para eu me preocupar. Portanto, o risco de qualquer um de nós sermos infectados anualmente podem ser próximas de 1 em 40. Combine esse número familiar —talvez uma pequena trapaça estatística, mas eu definitivamente me preocupo mais com meus filhos do que comigo— com a probabilidade um pouco mais alta de que a doença de Lyme se torne crônica e nossos riscos estão no mesmo patamar geral dos da Covid longa que Emanuel considera inaceitavelmente altos.

Dito isso, tomamos precauções: não moramos mais na casa de fazenda no estilo Stephen King, onde os poderes sobrenaturais da Nova Inglaterra foram atuar sobre nós; verificamos se há carrapatos em nossos filhos; estamos muito atentos a possíveis sinais de infecção. Mas também levamos uma vida bastante normal (com caminhadas, natureza, perigo), apesar da minha terrível experiência.

Talvez isso seja loucura e deveríamos ter mudado para o Arizona. Mas a lição que aprendi com a Lyme é que doenças crônicas mediadas por infecções podem ser tão comuns que levar qualquer tipo de vida normal é se expor a riscos.

Por exemplo, novas evidências sugerem que a esclerose múltipla está ligada ao vírus Epstein-Barr, extremamente comum; as estimativas de casos nos EUA variam de 400 mil a pouco menos de 1 milhão. Da mesma forma, a síndrome da fadiga crônica pode ser desencadeada por infecções virais, e as estimativas de suas vítimas chegam a 2,5 milhões.

Comece a contar as muitas outras doenças crônicas que podem ter alguma raiz infecciosa e você poderá defender o nível de cautela de Emanuel apenas com base nas ameaças pré-Covid-19. Mas não é assim que a civilização humana tradicionalmente lida com perigos crônicos.

Tomamos precauções incomuns durante surtos incomumente mortais, mas quando os perigos são persistentes procuramos maneiras de tratar e curar enquanto tentamos levar a vida da forma mais normal possível. Certamente não olhamos as imagens de um tribunal ou um café do século 18, quando os riscos de doenças infecciosas eram maiores do que qualquer coisa que conhecemos, e dizemos: “Por que essas pessoas não estão usando máscaras? Por que elas saíram de casa?”

A doença crônica é um grande flagelo que a Covid longa ajudou a trazer à tona e exige melhor diagnóstico e melhor tratamento. Mas fazer as contas e conhecer o perigo não vai me impedir de mostrar meu rosto em aviões e restaurantes ou meus filhos de caminhar —com cuidado, espero— nos parques de Connecticut.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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