Comi camarão (e gostei) – 15/10/2021 – Terra Vegana

amazon celulares maior Vision Art NEWS


Se me dissessem que aquele camarão não era um bicho, não teria acreditado. Mas fui eu mesma quem tirou os falsos camarões do saco. Foram também os meus olhos que testemunharam o cozimento em água fervente e a finalização na frigideira bem quente. Uma carne crocante por fora e macia por dentro. O gosto do mar. Eu me lembrei do Guarujá, de mim e do meu marido engordurando os dedos de camarões, pedaços de berinjela e cebolas empanadas no quiosque do Bom Bini.​

Comi aquelas criaturas vegetais de manhã e à noite. De manhã, após algumas horas de jejum forçado no aeroporto de Lisboa. Não havia nenhuma opção vegana. Em nenhum café. Nem mesmo um pão com azeite ou uma barrinha de cereais sem mel na composição.

Acompanhei minha sogra com um café amargo enquanto observava ela devorar um croissant de presunto e queijo. Na mesa ao lado, comiam empadas de frango. Uma criança apreciava um pastel de nata, primeiro o recheio com os dedos e depois a casquinha crocante, rodeando pelas beiradas.

O desejo de me sentir pertencente ao ato de comer em público era contraditório aos motivos pelos quais virei vegana. O modo como nos alimentamos, com produtos de origem animal do café da manhã à hora do jantar é insustentável para o planeta, cruel com os animais e prejudicial à nossa saúde.

Mas nem por isso eu estava disposta a comer um saco de batata chips por 3 euros. Muito menos um potinho de frutas por 4.

Eram oito da manhã quando minha sogra embarcou de volta para o Brasil. Decidi que havia chegado o dia de conhecer um café que serve exatamente aquilo que um café português tradicional oferece, mas em versões veganas.

Quase três anos depois de me mudar para Lisboa, acalmei a Luisa militante que rechaça as imitações vegetais de carnes e derivados e fui ao Moko Café conciliar minha opção de não comer animais com a vontade que tive (confesso) de comê-los.

A experiência de poder pedir absolutamente tudo de um lugar cujas vitrines idênticas aos dos estabelecimentos convencionais não me permitiria escolher nada foi libertadora. Pedi uma tosta (sanduíche) de bacon com queijo e um risoles de camarão. Uma meia de leite de soja (equivale a nossa média) para acompanhar. Quando o pedido chegou à mesa, não quis comer de imediato. Fingia que não os tinha, só para depois ter o susto de lhes ter, tal qual a criança de Clarice Lispector em A Felicidade Clandestina.

Comi frio, mas saboreei cada pedaço como se fosse um reencontro alargado pelo esforço de fazer com que nunca terminasse. Quando a emoção passou, os questionamentos começaram: o que era aquilo que eu havia comido? Como é que eu, uma chef e professora que valoriza os vegetais, conseguia se sentir feliz com aquela caricatura barata?

Na hora de pagar a conta, passei por um congelador gigante, repleto de todos os tipos de imitações de bichos. Até “pato” tinha. Não aguentei. Peguei um pacote de camarão, um de lula e, pasmem, um salmão laranja com linhas brancas de gordura.

Humilhei não apenas os vegetais, mas todos os valores que sempre defendi: comida de verdade, que nos aproxima da terra, com a apresentação dos sabores, cores e texturas dos vegetais tais como eles são.

À noite preparei um pad thai, aquele prato tailandês delicioso com massa de arroz, broto de feijão, gengibre, amendoim e cebolinha. Tradicionalmente, leva ovos e camarão. Para os ovos, amassei tofu com as mãos e misturei com um picles de nabo amarelo, ficou bonito.

E o camarão, que passou longe do meu prato nesses últimos anos, voltou, em uma versão à base de água (75.75%), amido de batata (8%), konjac em pó (7%, konjac é uma planta asiática), extrato de algas, açúcar, fibra de trigo, sal, proteína de soja não geneticamente modificada e páprica.

Fiquei olhando aquele bicho que não era um bicho. Senti uma sensação de conforto, ao mesmo tempo uma tristeza em reconhecer que minha memória afetiva não deixou de associar um bicho morto ao prazer, ainda que tudo não passasse de uma mera imitação.

Nenhum animal sofreu para aquele camarão chegar no meu prato. Mas me senti traindo o reino vegetal.

Será que o frango que não é frango, a carne moída sem boi, o peixe que nunca conheceu o mar e o camarão de água e konjac podem coexistir na culinária vegetal com os brócolis, a couve-flor, o repolho, a berinjela e a abóbora sem diminuir a beleza e riqueza desses alimentos in natura?

Será que essas imitações reafirmam a necessidade ilusória de um bicho morto no prato? Ou será que facilitam no processo de transição para o veganismo e até trazem alegria ao prato de quem já é vegano? Vou levar um bom tempo para digerir esse camarão.

Quem quiser se aventurar pode encontrar um camarão vegano à venda na loja online Germinou (marca própria, R$18,90 a embalagem de 250 g) ou na No Bones (da marca Goshen, R$24,90 a porção de 350g, pode ser comprado on line ou na loja física em Perdizes, Rua Caraíbas, 1243).


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar cinco acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

amazon computadores Vision Art NEWS

Deixe um comentário

Este site usa cookies para que você tenha a melhor experiência do usuário. Se continuar a navegar, dará o seu consentimento para a aceitação dos referidos cookies e da nossa política de cookies , clique no link para obter mais informações. CONFIRA AQUI

ACEITAR
Aviso de cookies
Translate »