Com resgate de Confúcio, Xi busca legitimar poder mais concentrado em sua figura – 01/07/2021 – Mundo


No auge da Revolução Cultural, em 1966, o túmulo do filósofo chinês Confúcio foi vandalizado, os restos mortais de seus descendentes, exumados e pendurados em forcas, e a estátua em homenagem ao sábio acabou incinerada por jovens da Guarda Vermelha.

Na época, adolescentes imbuídos de fúria revolucionária se empenhavam para destruir os chamados “quatro velhos”: as velhas ideias, a velha cultura, os velhos costumes e os velhos hábitos. Confúcio, na visão do líder comunista Mao Tse-tung, era um dos maiores símbolos do entulho feudal que impedia a China de ser verdadeiramente revolucionária.

Cinquenta e cinco anos depois, o filósofo não foi apenas resgatado: suas ideias foram alçadas a doutrina de Estado e têm sido usadas para legitimar o governo atual, cujo poder é mais concentrado na figura do principal dirigente, Xi Jinping, do que em gestões anteriores.

Na visão de Xi, a China conseguirá recuperar –e ampliar– sua grandeza ao aliar o socialismo de características chinesas à sabedoria milenar dos filósofos do país.

Xi foi o primeiro líder a participar formalmente de uma comemoração do aniversário de Confúcio, em 2014, quando foi celebrado o 2.565º ano de nascimento do sábio. Naquele ano, o hoje centenário Partido Comunista Chinês determinou que seus filiados assistissem a aulas sobre o filósofo e outros pensadores clássicos.

Assim, livros didáticos também passaram a incorporar textos tradicionais, e Confúcio ganhou grande destaque nos currículos escolares. O dirigente chinês, que frequentemente cita pensamentos confucionistas, afirma que a cultura tradicional é a alma da nação.

“Xi usa o confucionismo para reforçar a autoridade do Partido Comunista Chinês, ao promover valores como lealdade ao Estado, devoção à família e virtudes públicas e privadas”, diz Yingjie Guo, professor de estudos chineses da Universidade de Sidney e estudioso do nacionalismo cultural chinês.

Para Karin Vazquez, pesquisadora na Universidade de Fudan, na China, e professora na O.P. Jindal Global University, na Índia, Xi faz uma releitura do confucionismo à luz dos nossos dias.

Confúcio afirmava que o principal objetivo de um governante era assegurar que o povo confiasse nele.

Mencius, o segundo sábio do confucionismo, deu um passo adiante ao afirmar que os governantes tinham um mandato divino para governar. Também advertiu que, se um governante não agisse em nome do povo, ele deixaria de ser legítimo e poderia ser deposto pela população.

“Ancorar sua ideologia no pensamento que nasceu na China há mais de dois milênios é uma maneira de Xi legitimar seu poder, sobretudo após a [aprovação da] emenda constitucional que eliminou os limites de mandato para presidente e diante da influência, na sociedade chinesa, dos valores culturais e democráticos ocidentais que enfatizam a liberdade individual”, afirma Vazquez.

Confúcio nasceu em 551 a.C., em Qufu. Por 2.000 anos, desde o reinado do imperador Wu da dinastia Han, o confucionismo foi um dogma do Estado. Seus preceitos eram a base da educação chinesa e do exame de admissão dos funcionários públicos dos imperadores.

O sábio pregava a devoção aos mais velhos e o respeito à hierarquia e à autoridade. Ensinava que esses valores eram essenciais para que os indivíduos atingissem excelência e retidão moral. E aqueles que seguissem seus preceitos seriam a base de uma sociedade harmônica e estável.

No começo do século 20, o confucionismo começou a ser questionado. A visão era a de que a teoria, remanescente da era feudal, não se adequava ao espírito revolucionário e era culpada pelo atraso da China. Para líderes do PC, os preceitos de Confúcio tornavam a sociedade muito rígida, sufocavam a inovação e geravam corrupção —e, por isso, o país foi ultrapassado por nações ocidentais.

Em 1949, quando os comunistas assumem o poder, o culto aos ancestrais e outros rituais confucionistas foram banidos, classificados como “práticas feudais”. Com a Revolução Cultural (1966-1976), a demonização do confucionismo chegou ao ápice. Mao, que havia sido um grande apreciador das obras clássicas, passou a atacar Confúcio, a quem acusava de ser um defensor dos interesses de aristocratas e de proprietários de escravos. Estátuas do filósofo e artefatos ligados a ele foram queimados em todo o país, e seus ensinamentos, banidos.

A reabilitação começou nos anos 1980. Na época, os defensores de Confúcio eram, em grande parte, intelectuais conservadores que queriam virar a página dos excessos da revolução comunista. “A defesa do confucionismo naquela época era uma reação ao marxismo, especialmente ao materialismo histórico, que defende que as sociedades, impulsionadas pela luta de classes, deixam o feudalismo, a escravidão e o capitalismo e inevitavelmente evoluem para o socialismo e o comunismo”, afirma Yingjie.

Já os líderes do PC Chinês só abraçaram o retorno de Confúcio na década de 1990, ainda que o desagravo total tenha ocorrido em 2013, quando Xi visitou Qufu, a cidade natal do sábio.

A volta do confucionismo, segundo o professor da Universidade de Sidney, reconciliou dois movimentos que estavam em choque desde o início do século 20 até 1989: o nacionalismo cultural e o nacionalismo político. O nacionalismo político visava o restabelecimento da autoridade do Estado e a criação de uma China forte militar e politicamente. E, para os nacionalistas políticos, as tradições milenares chinesas, defendidas pelo nacionalismo cultural, eram um obstáculo à modernização do país.

“Agora há uma convergência, porque o PC deixou de ser antitradicionalista, e os nacionalistas culturais pararam de atacar o marxismo. O confucionismo, ou determinados valores dele, agora é encarado como parte do sistema de valores chinês e base para sua identidade cultural e unidade do povo.”

Não por acaso, ao criar os atuais 541 centros de cultura chinesa distribuídos em 162 países —uma maneira de projetar soft power—, o governo chinês batizou os institutos de Confúcio.

Para estudiosos, Xi usa o confucionismo para “achinesar” o marxismo, imprimindo mais características locais ao socialismo do país. Além disso, tornar o regime mais identificado com a cultura chinesa ajuda a conter a disseminação de valores ocidentais, como liberdade e democracia.

Outro motivo da reabilitação do confucionismo é uma preocupação de líderes comunistas com o que consideram ser uma decadência moral decorrente de anos de materialismo desenfreado.

“A Revolução Cultural deixou uma lacuna moral na sociedade chinesa, e o confucionismo prega, por exemplo, devoção dos filhos aos pais e respeito à hierarquia, valores que ajudam na coesão social”, diz Calebe Guerra, doutorando em literatura clássica chinesa na Universidade de Wuhan. “O confucionismo supre uma necessidade espiritual da comunidade, funciona como uma cola moral.”

É claro que certos ensinamentos confucionistas são datados —um dos preceitos do sábio era “o marido lidera, a esposa o segue”. Mas o PC Chinês, na realidade, adota os pensamentos que mais lhe interessam.

“Xi tem sido razoavelmente bem sucedido em se vender como o homem que pode fazer a China grandiosa de novo, da mesma forma que o país foi durante tantos séculos. Ele se coloca como aquele que vai corrigir as injustiças cometidas por nações ocidentais e restaurar o poderio chinês”, diz Michael Schuman, autor dos livros “Confúcio e o Mundo que Criou” e “Superpotência Interrompida: A Histórica Chinesa do Mundo”.

Mas Schuman vê muito do resgate do confucionismo apenas como retórica e restrita a frases “que soam bem em discursos”. “Não vejo o governo chinês se tornando ‘mais confucionista’ em sua ideologia e em suas práticas; os quadros do partido estão estudando profundamente o pensamento de Xi Jinping, e não a filosofia de Confúcio; o uso que Xi faz do confucionismo é superficial.”

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original



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