Cineasta interpreta papel inspirado em Céline Dion da infância à vida adulta – 14/04/2022 – Cinema e Séries

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The New York Times

O novo filme de Valérie Lemercier gira em torno de uma adoravelmente excêntrica cantora canadense, famosa no mundo inteiro. Os grandes sucessos dela incluem “My Heart Will Go On” e “The Power of Love”. Ela é casada com seu empresário, um homem muito mais velho; o relacionamento dos dois é feliz. Não, não estamos falando de Céline Dion, mas sim de Aline Dieu.

“Aline”, dirigido e estrelado por Lemercier, é um filme estranho e sentimental, amoroso e maravilhosamente insano –bem parecido com a megaestrela que ele retrata sob outro nome. O filme incorpora escrupulosamente os grandes temas presentes na maioria das cinebiografias tradicionais –família, amor, dificuldades, arte—, mas os altera ligeiramente. E um passo decisivo foi mudar de Céline para Aline.

“Comecei usando os nomes reais”, disse Lemercier em uma conversa por vídeo, de Paris, em dezembro. “Mas Brigitte Buc, que escreveu o roteiro comigo, recomendou que eu mudasse os nomes porque isso tornaria as coisas mais simples. E ela tinha razão. Ficou tudo mais fácil, podíamos inventar coisas”.

Antes mesmo de sua estreia nos Estados Unidos, em 8 de abril, “Aline” já recebeu elogios. A multitalentosa Lemercier, uma das artistas mais idiossincráticas da França há três décadas, conquistou o prêmio César como melhor atriz em fevereiro. O filme, o sexto que ela dirigiu, recebeu 10 indicações para o prêmio. “Artistas recomendaram o filme publicamente, o que não acontece com frequência na França”, disse Lemercier. “Recebi muitas mensagens de apoio de outros diretores, como se eles estivessem me informando de que conquistei o direito de entrar para o seu clube”.

Embora o filme comece pelo aviso de que é uma obra de ficção, a música de Dion é usada. (Lemercier dubla canções do repertório de Dion, cantadas por Victoria Sio), e é em geral fiel à história dela, da infância em uma família de classe trabalhadora em Quebec ao sucesso internacional; e, acima de tudo, ao seu relacionamento apaixonado com René Angélil, o empresário musical que a descobriu quando ela tinha 12 anos e ele tinha 38, e que se tornou seu marido 14 anos mais tarde.

Ainda assim, “Aline” reflete escolhas narrativas e estéticas distintas, que valeram o seguinte comentário do crítico de cinema Kyle Buchanan, do The New York Times, depois da exibição do filme no festival de Cinema de Cannes: “O trabalho se apega tanto às suas excentricidades que às vezes isso o catapulta à condição de filme de arte”.

Entre os muitos floreios está a decisão de Lemercier, 58, de interpretar Aline em todos os estágios de sua vida –o que inclui cenas quando ela tinha cinco anos de idade, com a ajuda de computação gráfica e truques de perspectiva. Isso não deve ter surpreendido as audiências da França, onde “Aline” estreou em novembro, porque Lemercier, conhecida por seu estilo cômico agressivo, costuma retratar crianças em seus espetáculos de teatro e sketches de TV. Em um de seus sketches mais conhecidos, ela interpreta uma participante nervosa de um show de talentos infantil. “As meninas pequenas me fascinam, mais do que os meninos –o que elas dizem, o que elas imaginam, o que se passa em suas cabeças”, ela afirmou.

Mas sua escolha de interpretar em pessoa a Dion jovem foi uma decisão tanto moral quanto artística. Lemercier, como adulta, se sentia mais equipada para lidar com cenas potencialmente delicadas, como as da visita da jovem Aline a um dentista.

“Muitas vezes me perguntam por que escolhi fazer pessoalmente as cenas em que ela era criança, e eu respondo que não sou como um advogado que defende um cliente e envia seu assistente para fazer o trabalho no começo, quando as coisas são difíceis”, ela disse. “Não quero mandar uma menina ao dentista para que ela abra bem a boca e exiba seus dentes tortos. Ouvi comentários desagradáveis sobre minha aparência quando era pequena, e por isso quis me colocar na posição de alvo deles, no filme. Não queria interpretar só a mulher sexy e glamorosa que vemos no final”.

Há indícios de autobiografia ao longo do filme, especialmente com relação ao impulso da jovem Aline de subir ao palco. Lemercier cresceu como parte de uma família de agricultores, com três irmãs, e não demorou a descobrir que fazer palhaçadas ajudava a aliviar a depressão da mãe. “Quando eu fazia as pessoas rir, na infância, mesmo antes dos cinco anos, eu imediatamente sentia que existia, que tinha propósito, que não seria inútil”, disse Lemercier. “Para mim, é o prazer de levar alguém a rir, e para ela é o prazer de cantar”.

Nascida na Normandia, Lemercier se mudou para Paris aos 18 anos e sua carreira decolou no final da década de 1980, graças a participações na série “Palace” de humor televisivo. O sucesso comercial chegou em 1993, com a enorme popularidade de “Os Visitantes – Eles Não Nasceram Ontem”, que lhe valeu um César como melhor atriz coadjuvante, e ela estreou como diretora de longas em 1997 com “Quadrille”, uma adaptação irônica e repleta de estilo de uma peça de Sacha Guitry.

Foi em uma de suas incursões solo, na década de 1990, que Lemercier se tornou devota da Igreja de Céline. “Eu estava fazendo num show no Théâtre de Paris e um dos lanterninhas, fã de Céline, me cantou algumas de suas canções”, recordou Lemercier. Ela decidiu fazer um filme sobre a estrela depois de vê-la no funeral de Angélil, que morreu em 2016. “Ele já não estava lá, e fiquei tentando imaginar como é que ela lidaria com aquilo. Fiquei comovida”.

Para os espectadores franceses, o tom afetuoso do filme causou alguma confusão, diante da impressão que eles têm quanto a Lemercier e seu estilo. O humor dela pode ser bastante sombrio, especialmente no teatro, e ela explora alegremente a discrepância gritante entre sua aparência elegante e polida –ela parecia impecável, em nossa conversa por vídeo– e seus gracejos crus, às vezes escatológicos. As faras satíricas de Lemercier não poupam colegas, a exemplo da atriz Juliette Binoche, que certa vez foi alvo de um mordaz comercial falso produzido por Lemercier.

“Todo mundo presumiu que eu fosse fazer uma paródia, mas esse nunca foi o meu plano”, disse a diretora sobre “Aline”. “Não sou muito de ternura; é algo que em geral me incomoda de verdade, e tendo a preferir o sarcasmo. Mas desta vez – não”, ela prosseguiu. “Eu queria ser sincera, fazer uma carta de amor escancarada”. (Alguns dos irmãos de Dion criticaram o filme por, entre outras coisas, considerarem o retrato da família como caricatural. Logo no começo do desenvolvimento do projeto, Lemercier disse ter enviado o roteiro ao empresário francês de Dion, que aprovou o tom do texto; um representante afirmou via email que “Céline não viu o filme, e nem tem qualquer comentário sobre ele”.)

“Não há esnobismo ou condescendência no filme”, disse o músico Bertrand Burgalat, que produziu “Chante”, um disco de Lemercier, em 1996, e compôs as trilhas de dois de seus filmes. “Ela tampouco trata Celine Dion como um objeto pop, por exemplo como Jeff Koons fez com Cicciolina“, ele acrescentou, se referindo ao relacionamento entre o artista provocador e sua ex-mulher e musa.

Se havia emoções que necessitavam ser desemaranhadas, elas se referiam mais ao relacionamento conflituoso entre Lemercier e Quebec, onde seu primeiro show ao vivo, em 1990, foi um fiasco. “A Air Canada tinha comprado todos os ingressos e distribuído aos seus empregados, que achavam que iam ver Claudine Mercier, uma imitadora famosa em Quebec”, disse Lemercier. “E eles todos se levantaram e saíram da sala. Terminei o show diante de uma sala vazia. Chorei a noite toda. Fiquei magoada. Por isso o filme era uma forma de retornar a Quebec com minha cabeça bem erguida. Ou ao menos para ser compreendida lá”.

Capturar a cultura de Quebec era crucial para Lemercier, que pesquisou muito sobre a cultura e os costumes da província, e fez questão de escalar muitos atores locais. “Eu exigi –e não foi fácil– atores de Quebec, desconhecidos na França”, ela disse. “Tive de brigar com um dos investidores no filme, que não os queria”. Entre esses atores estava Sylvain Marcel, que interpreta o personagem baseado em Angélil (Guy-Caude Kamar, no filme), e precisava ser capaz de convencer a audiência sobre a autenticidade de um romance entre a cantora e um homem quase 30 anos mais velho.

“Era muito delicado, porque a história deles gira em torno do amor”, disse a jornalista Denise Bombardier, de Quebec, que acompanhou Dion em toda uma turnê em 2009.

Para Marcel, que vem do mesmo bairro que Dion em Quebec, tudo fluía de uma motivação relativamente simples. “Para mim, a ideia era a de que o personagem a amava, e era uma loucura o quanto a amava”, ele disse, em uma conversa por vídeo. “E isso se baseia naquilo que René experimentou com ela”.

O filme toma certas liberdades com detalhes da vida de Dion, mas apenas como forma de encontrar uma porta de entrada para uma psique que, depois de quase 35 anos sob os holofotes, continua a ser um tanto opaca. “É questão de criar um sabor de Céline, um sabor de Aline”, disse Lemercier.

O momento mais fantasioso é uma longa cena na qual Aline caminha pelas ruas de Las Vegas, sozinha e tristonha. E no entanto, para Bombardier, o momento revela uma verdade maior. “Talvez aquela seja a cena mais realista do filme”, ela disse. “Lá está ela, enclausurada na fama –uma solidão que nem dá para compreender. Há uma dimensão trágica em uma pessoa desse tipo, e por isso é que admiro o quanto essa cena inventada é perceptiva”.

Marcel vai além: “Não é uma cinebiografia. É uma metáfora sobre uma vida extraordinária mas que às vezes tem momentos de pesadelo”. Para Lemercier, esse lado escuro é parte da equação, mas só parte. “Não falo sobre isso, mas, quando ela joga golfe pela primeira vez, a bola cai no buraco. Ela é só uma principiante, mas a coisa funciona”, ela disse. “É agradável interpretar alguém cujos sonhos se realizam”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci



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