Cientistas veem botos supostamente brincando com sucuri – 04/05/2022 – Ciência

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Em agosto de 2021 uma equipe de cientistas estava documentando biodiversidade perto do rio Tijamuchi, na Bolívia, quando viu alguns animais normalmente difíceis de observar: botos bolivianos.

O simples fato de ver os botos com a cabeça acima da superfície já foi extraordinário, comentou um membro da equipe, o biólogo Steffen Reichle, do Museu de História Natural Noel Kempff Mercado, de Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Os cientistas perceberam que algo incomum estava ocorrendo e começaram a fazer fotos.

Foi apenas depois de olharem com mais cuidado as fotos feitas pela equipe que os cientistas perceberam que os botos estavam nadando com uma sucuri pendurada em suas bocas.

Os pesquisadores descreveram o que viram no periódico Ecology no mês passado. Os golfinhos que vivem em cativeiro e na natureza são conhecidos por serem brincalhões, mas o comportamento surpreendente dos cetáceos bolivianos pareceu ter alcançado um novo patamar nas brincadeiras entre mamíferos aquáticos, e alguns cientistas ainda não sabem ao certo como interpretar o que a equipe observou.

Reichle disse que os botos bolivianos normalmente nadam debaixo da superfície, tanto que geralmente só são avistados uma nadadeira ou uma cauda. Mas alguns dos seis animais que eles viram mantiveram a cabeça acima da água turva do rio por um tempo fora do comum.

Em um momento, dois botos machos pareceram nadar de modo sincronizado, segurando uma cobra em suas bocas. Sucuris são cobras semiaquáticas e podem prender a respiração por algum tempo. Mas, pelo fato de essa sucuri ter sido manipulada pelos botos por pelo menos sete minutos, boa parte desse tempo submersa, é provável que ela tenha morrido.

“Acho que a cobra não se divertiu muito”, disse Reichle.

Devido ao tempo que durou a interação, os cientistas pensam que se tratou de brincadeira, não de predação. As sucuris-da-bolívia são superpredadoras. Excetuando um único caso de canibalismo, cientistas nunca documentaram ocasiões em que essa serpente tenha sido comida. No caso em questão, os cientistas não viram o que acabou acontecendo com a sucuri.

Considerando como os golfinhos são brincalhões, parece provável que tenha se tratado de uma brincadeira, disse o taxonomista Omar Entiauspe Neto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos autores do artigo.

Alguns dos botos reunidos eram jovens, fato que pode sugerir outra dimensão da interação: os adultos podiam estar ensinando aos jovens sobre sucuris ou lhes mostrando uma técnica de caça.

Mas a ecologista comportamental Sonja Wild, do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, na Alemanha, que não participou do estudo, duvidou que a interação tenha sido intencionalmente instrutiva. Para ela, é mais provável que os botos jovens estivessem observando porque estavam curiosos.

E, como as sucuris são fortes, Wild teorizou que a cobra poderia estar ferida ou morta quando os botos a capturaram. De todas as coisas que um boto poderia colocar na boca, “esta parece um pouco extraordinária”, ela disse.

“É a primeira vez que ouço falar em golfinhos brincando com uma serpente grande”, acrescentou Wild, que já observou golfinhos-nariz-de-garrafa usando conchas como ferramentas.

Outra coisa visível nas fotos chamou a atenção: os pênis eretos dos botos machos.

“Pode ter sido sexualmente estimulante para eles”, aventou Diana Reiss, cientista de mamíferos marinhos e psicóloga cognitiva do Hunter College, em Nova York, que não participou do estudo. “Pode ter sido algo no qual eles podiam se esfregar.”

Os machos excitados poderiam estar fazendo uma brincadeira sexual uns com os outros quando a cobra se enredou.

Cientistas que estudam golfinhos têm consciência das tendências sexuais dos animais, como esfregar seus genitais em brinquedos ou inserir seus pênis em objetos animados ou inanimados. Segundo Reiss, eles frequentemente usam o pênis para interações táteis. Ela já observou golfinhos-nariz-de-garrafa machos tentando penetrar o espiráculo de uma baleia-piloto resgatada num aquário. É possível, acrescentou, que os machos tenham tentado inserir seus pênis na cobra.

“Há tantas perguntas”, disse Entiauspe Neto.

Muito mais é sabido sobre golfinhos marinhos do que sobre os golfinhos de água doce, ou botos, em parte porque é mais difícil observar o que ocorre quando a água de rios está turva. Para Reis, embora sejam limitadas em sua natureza, “essas observações sempre são valiosas. Elas nos proporcionam outro vislumbre da vida desses animais, especialmente de sua vida na natureza”.

Seja o que for que tenha ocorrido nesse encontro entre animais, não é o tipo de coisa que aparece em livros infantis.

Tradução de Clara Allain.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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