Ciência, sociedade e política – 04/08/2022 – Silvio Almeida

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Esta coluna foi escrita para a campanha #ciêncianaseleições, que em julho celebrou o Mês da Ciência e colunistas cederam seus espaços para refletir sobre o papel da ciência na reconstrução do Brasil. Quem escreve é o biólogo Gustavo Silva, professor e pesquisador da Universidade de Duke.

Em um contexto de tanta desinformação é preciso afirmar o caráter social e político da ciência. A ciência está intimamente ligada ao desenvolvimento da sociedade e, portanto, à política. De medicamentos a naves espaciais, descobrimos, entendemos, e modificamos o mundo através do conhecimento que é produzido coletivamente. A ciência não é produto da genialidade de indivíduos abastados, mas do esforço da sociedade politicamente organizada. Sem democracia não se faz ciência.

E isso compõe um diagnóstico importante sobre os tempos atuais: o descrédito da ciência, dos seus profissionais e das instituições que a produzem é resultado da desorganização política causada pela desigualdade e pela ruína da democracia. Quanto mais desigualdade e menos democracia, mais espaços se abrem para negacionistas, charlatões e corruptos que anseiam por dinheiro e poder.

A pandemia revelou ao menos três facetas da relação entre ciência e política: 1) a ciência salvou e continua salvando milhares de vidas; 2) o universo científico está altamente distante da população, que é o seu maior investidor; e 3) a facilidade pela qual forças políticas movidas por interesses escusos conseguem desqualificar o discurso científico com campanhas de desinformação.

A título de exemplo, vacinas são desenvolvidas, testadas e aprimoradas a partir do método científico. Em laboratórios de pesquisa, cientistas caracterizam seus mecanismos moleculares, princípios farmacológicos, efetividade e riscos.

As vacinas de RNA só foram produzidas em tempo recorde por já haver mais de uma década de pesquisa em vírus similares ao SARS-CoV-2. O processo já estava encaminhado graças a investimentos prévios na geração de conhecimento. Nas mais diversas áreas da saúde e tecnologia, milhares de cientistas dedicam suas vidas e carreiras para gerar conhecimento e melhorar a qualidade de vida da população. Para tudo isso é preciso educação e investimento.

Não somente no Brasil, como no mundo, a ciência é feita especialmente em universidades e financiada em sua maior parte com dinheiro público. Países com um plano de desenvolvimento nacional entendem que seu crescimento e autonomia passam pela capacidade científica.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a despeito do corte em 20% da verba de pesquisa e desenvolvimento proposto pelo então presidente Donald Trump, membros do Senado, de forma bipartidária, aprovaram um aumento em 6%.

Enquanto isso no Brasil, os investimentos em pesquisa sofreram cortes sucessivos nos últimos sete anos em mais de 35%, levando ao sucateamento do treinamento e da produção científica nacional. Investir em ciência é investir em educação, em inovação, em desenvolvimento econômico e em última instância, na soberania nacional.

Mas como defender a ciência e, ao mesmo tempo, impedir que ela seja apropriada por interesses contrários aos da população, como tantas vezes já se viu ao longo da história?

A possível resposta está no desenvolvimento de um plano educacional de alfabetização científica e envolver ativamente a população nas etapas da produção de conhecimento. Isso é: democracia para além do dia das eleições. Treinamento científico demanda anos de investimento e aperfeiçoamento.

Aproximação demanda acesso, demanda interesse, demanda pertencimento. É fácil se distanciar de algo que não acolhe, que não valoriza, em que não há reconhecimento. Para trazer soluções a problemas complexos é preciso que a ciência se ampare em diferentes vivências e experiências comunitárias.

A academia precisa se reformular, abrir suas portas, expandir suas perspectivas, aprender a comunicar sua importância, e também devolver à sociedade o investimento recebido. Em ano eleitoral, em que disputas sociais, morais, e culturais estão cada vez mais acirradas, a ciência precisa ser mais uma aliada na luta a favor da igualdade, civilidade e decência humana.

Uma luta que seja inclusiva, que abranja cientistas, lideranças e comunidades a quem devemos servir e que devem ser os maiores beneficiários das descobertas científicas. O estabelecimento de novos laços de confiança será indispensável para o apoio popular na luta contra a desinformação e no avanço da sociedade para um mundo mais justo e igualitário.


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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