Chloe Kim voltará às Olimpíadas após lidar com consequências da fama – 21/12/2021 – Esporte

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Chloe Kim, uma das rainhas do snowboard dos Estados Unidos, tinha 17 anos nas Olimpíadas de Inverno passadas, em Pyeongchang, onde ela esmagou a concorrência para conquistar o ouro no halfpipe.

Suas descidas quase perfeitas costumavam vir depois de tuites sobre o café da manhã (“estou ficando com ‘fome’”, Kim escreveu momentos antes da descida que lhe valeu a medalha). No final da prova, ela abraçou os pais, que emigraram da Coreia do Sul para os Estados Unidos. Sua vitória pode ter sido o maior momento daquelas Olimpíadas para ambos os países.

Mas não demorou para que Kim começasse a pensar em largar o esporte.

O sucesso parecia uma armadilha cada vez mais implacável. Ela vivia sufocada sob o peso da constante atenção que recebia, um dos privilégios e maldições do sucesso olímpico. Uma de suas lembranças mais fortes no dia da vitória foi a de ter precisado se esconder no banheiro para poder olhar a medalha conquistada. De onde vinha aquela sensação de que o grande momento dela na verdade pertencia a todo mundo mais?

E houve uma mensagem de Instagram que ela recebeu depois dos Jogos, um bilhete de uma das grandes estrelas do snowboard. O destinatário era outra pessoa. Mas a mensagem foi parar no celular de Kim.

“Vadia pretensiosa”, a mensagem a descrevia.

Isso incomodou. E continua a incomodar.

“Eu era muito mais imatura, aos 17 e 18 anos –queria que tudo explodisse, porque podia simplesmente largar a coisa toda”, disse Kim. “Melhor fazer uma pausa e voltar a pensar nessa história só mais tarde”.

Mais tarde chegou. Kim, 21, deixou para trás a idade da inocência e está de volta ao seu lugar, como favorita para mais uma vitória olímpica, mas insegura sobre o que as pessoas acham dela.

“Quando eu tinha 13 anos e estava começando, e me saindo bem nas provas, achava que todo mundo estava do meu lado”, ela disse. “Todo mundo gritando meu nome, me elogiando, me tratando como amiga. Mas depois que venci, a energia mudou completamente, e eu ficava embaraçada ao vencer provas. Sabia que, se voltasse a me sair bem, as pessoas me atacariam de novo.”

E além de tudo aquela mensagem imprevista.

“Minha impressão era a de que todo mundo queria me ferrar, ou algo assim”, disse Kim. “Por isso isso pensei comigo mesma que, se tenho de ser a vilã na história, esse não é um papel que desejo. Não é nem um pouco divertido.”

Ela quebrou o tornozelo direito no começo de 2019, em retrospecto uma sorte, porque a afastou de um esporte que ela já não sabia se amava, ou se a amava. Ela deixou os holofotes para trás. Passou 22 meses sem subir em um snowboard, uma desintoxicação voluntária inédita para uma atleta de elite que mal tinha chegado à sua melhor forma.

Ela se matriculou na Universidade de Princeton e tentou ser uma estudante como qualquer outra. Procurou fazer amigos com interesses e origens diversos. Cercou-se de gente e coisas que propiciam amor recíproco, não importa quanto sucesso ela tivesse ou não feito no snowboard: cachorros, cavalos, um namorado, novos amigos na universidade, parentes.

Kim voltou de seu hiato esportivo em janeiro do ano passado, mais revigorada do que enferrujada.

Na última semana, ela começa sua temporada olímpica com uma etapa da Dew Tour em Copper Mountain, Colorado, contra atletas de diversos países. A expectativa é de que vença todas as provas de que participe, especialmente as Olimpíadas de Inverno de 2022, em fevereiro.

É assim que as coisas funcionam para os grandes atletas olímpicos: conquiste uma medalha de ouro, saia de cena enquanto a vida real prossegue, e reapareça nas telas de TV quatro anos mais tarde, como se alguém tivesse desapertado o botão de “pausa” olímpica.

Mas o que Kim fez não foi uma pausa. Ela amadureceu. Continua engraçada, esperta, brincalhona. Mas agora está mais velha, mais sábia e tem uma pele mais espessa.

Ela repetiu as palavras do insulto que recebeu no Instagram. Não quis dizer quem as escreveu.

“É com certeza uma daquelas coisas que eu preferiria não ter visto, mas sou grata por saber”, disse Kim. “Se não tivesse visto, acharia que continuava bem com todo mundo. Foi útil para mim descobrir. Colocou-me um pouco mais em guarda, o que acho que é positivo. Não dá para confiar em qualquer pessoa.”

Tempo de Chloe

A entrada da casa nova de Kim ostenta uma pilha de calçados, em sua maioria tênis e chinelos com a marca Nike. Era um dia quente de final de ano, e Kim estava empolgada sobre seus planos. Calçou um par de velhas botas de caubói.

Ela e o namorado, Evan Berle, aluno da Universidade da Califórnia em Los Angeles e skatista profissional aposentado, estavam no carro, em Torrance, um dos diversos subúrbios em que Kim passou a infância. Os dois estavam atrasados para um compromisso em um pequeno estábulo em Palos Verdes Estates, entre colinas verdejantes que abrigam casas em estilo rural e estradas sinuosas.

Kim faz equitação há quase tanto tempo quanto pratica o snowboard. E é difícil saber qual das duas coisas a agrada mais.

“Eu adoraria comprar um rancho”, ela disse, do assento de passageiro, enquanto Berle dirigia. “Ter galinhas, porquinhos…”

“Bodes”, interferiu Berle.

“Evan ama bodes”, explicou Kim. “Eu amo porcos. E asnos. Talvez alguns animais exóticos, também, como papagaios”.

Ela contou uma história sobre como perdeu Kiki, seu papagaio de estimação, uma ave de cabeça azul que fugiu alguns anos atrás. Nada parece trágico demais ou maravilhoso demais, na voz de Kim. Ela é muito boa em dizer suas falas com uma inflexão neutra, irônica mas agradável.

No estábulo, eles acompanharam o trabalho de um ferreiro que trocou as ferraduras de diversos cavalos, enquanto esperavam sua guia de trilha. O horário da visita deles não tinha sido bem entendido, e a demora começou a irritar Kim. Ela tinha mais o que fazer, o que incluía uma sessão de treino ao meio-dia com seu preparador físico. Queria ir embora.

Berle serve como influência estabilizadora. Foi ele que a convenceu a esperar. Eles se conheceram em 2019, por meio de amigos comuns no mundo do skate.

“Fico feliz por ter conhecido você agora, porque eu não era bonitinha quando era mais nova”, disse Kim.

A guia chegou. Não fazia ideia de quem fosse Kim. Kim se animou, ajudou a selar um cavalo castanho chamado Levi, e montou sem dificuldade. Ela liderou o grupo pela trilha. Virou-se para Berle e abriu um sorriso.

Essa efervescência descomplicada, combinada a um talento singular, fez de Kim uma grande estrela em 2018. Ela ganhou prêmios ESPY como melhor atleta, melhor atleta olímpica e melhor atleta de esportes de ação, na categoria feminina.

Posou para capas de revistas (entre as quais a “Sports Illustrated”, em companhia de seu cachorro, Reese, um pastor australiano.) Deu entrevistas nos talk-shows americanos, teve sua foto como estampa de uma caixa de cereais. Foi lançada uma Barbie inspirada por Kim, e ela fez uma participação especial em um vídeo do Maroon 5 e recebeu uma menção de Frances McDormand quando a atriz estava agradecendo por um Oscar (“acho que foi isso que Chloe Kim sentiu depois de fazer dois 1.080 graus consecutivos no halfpipe olímpico”, disse McDormand.)

Kim aceitou tudo isso. Mas, em retrospecto, era demais.

“As pessoas esquecem que você é jovem”, ela disse. “Dizem sua idade nas manchetes, mas não te tratam como jovem”.

No final daquele ano, ela anunciou que tinha se matriculado em Princeton.

“Eu precisava de algum tempo para Chloe”, ela disse. “Precisava ser humana, ser uma garota normal, por uma vez, que é algo que não consegui fazer a vida toda”.

Ela fez cursos de física, francês, e história, e abandonou o curso de química porque, segundo ela, era difícil demais. Sua aula favorita era a de antropologia. Participou do clube de hipismo por algum tempo –mas descobriu que não se enquadrava, diz– e morava sozinha.

“Não queria dividir o apartamento”, ela disse. “E se a pessoa fosse louca e postasse fotos de mim dormindo, ou algo assim?”

Mas ela estava determinada a se enquadrar, a ir a festas, assistir aos jogos de futebol americano e participar dos eventos do campus. Kezia Dickson, uma aluna de Nova York, sabia vagamente quem era Kim. Via pessoas que a encaravam, no refeitório. Ouvia pessoas sussurrando “meu Deus, é Chloe Kim”, quando a viam jogando bilhar.

Dickson conseguia imaginar o quanto aquilo devia ser desconfortável. Apresentou-se e em dado momento disse que tinha dificuldades com o francês, um idioma em que Kim é boa.

“Chloe me deu seu telefone e disse que gostava de conversar comigo, e que se eu precisasse de ajuda em francês, era só ligar”, recorda Dickson. “Eu liguei, e ela atendeu. E fomos à biblioteca e ela me ajudou. Aliás, fazíamos isso a cada duas semanas”.

Kim se interessava por pessoas que sabiam pouco sobre snowboard.

“Ela estava realmente tentando se expandir, e as pessoas de quem se mantinha próxima não eram parecidas com ela em termos de experiências”, disse Dickson. “É isso que ela apreciava –poder conhecer pessoas com base nas experiências delas e não naquilo que estão tentando realizar.”

A pandemia do coronavírus levou ao fechamento do campus em março de 2020, perto do final do primeiro ano letivo de Kim.

“Bem, Princeton, obrigada por tudo, de verdade”, escreveu Kim no Twitter. “Sinto que a universidade me ensinou muitas coisas que eu não teria como aprender no snowboard, e fico muito agradecida por ter feito uma pausa e desfrutado dessa experiência”.

A crise de saúde pública teve seu custo. Isolada em seu apartamento, sem a distração dos estudos ou do esporte, Kim começou a se sentir solitária e preocupada demais, ela disse.

“Meu namorado teve de me forçar a parar de assistir ao noticiário, porque eu ficava sentada na frente da TV e chorava, literalmente”, disse Kim. “Eu não sabia quais eram os sintomas da depressão –achava que estava triste e só, o que não é verdade. Mas eu tinha outros sintomas. Vivia cansada, o tempo todo. Dormia demais. Não tinha motivação para fazer coisa alguma. Era difícil para mim sair da cama e cuidar de mim mesma”.

Entre suas preocupações estavam seus pais, Jong Jin e Boran. Kim estava preocupada com a possibilidade de eles contraírem a Covid-19, e com a onda que começava a surgir nos Estados Unidos de ataques contra pessoas de origens asiáticas.

Como ela contou em um depoimento para a ESPN em abril, Kim se preocupava “a cada vez que meus pais saem de casa” com a possibilidade de que fossem atacados.

Kim passou a infância toda desconsiderando a questão de sua raça, e se esforçando por se integrar. Mas deixar de lado o snowboard por algum tempo a ajudou a mudar de perspectiva.

Ela se lembra agora de todos os insultos –intencionais ou não– que ouviu e ignorou, de comentários incontáveis na mídia social, e de um incidente em um restaurante muitos anos atrás quando um grupo de homens riu dela e de sua família, surpresos por a garotinha asiática falar inglês tão bem.

“Comecei a perder a sensibilidade diante desse tipo de coisas, o que é errado, não?”, disse Kim. “Recentemente comecei a perceber que esse tipo de coisa não é algo a que eu deveria ter de me acostumar. São coisas que não deveriam acontecer.”

No segundo trimestre do ano passado, ela se juntou à futebolista Alex Morgan, à jogadora de basquete Sue Bird e à nadadora Simone Manuel na criação de uma empresa de mídia e comércio chamada Togethxr, na qual “representação e igualdade são a norma”.

O snowboard não tem um histórico forte de diversidade, o que Kim apontou em seu depoimento para a ESPN.

“Isso se torna mais um fator de isolamento”, ela disse a um repórter da organização no ano passado. “Meus amigos e colegas de equipe sempre me apoiaram, mas nunca me senti confortável falando a respeito porque eles não tinham como compreender minha experiência totalmente. Eu nunca me sentia confortável para conversar com alguém, e estar sob os holofotes desde pequena me colocou em outra situação difícil. Sinto-me muito presa às vezes.”

O “sinto-me”, grafado no presente, não apareceu no artigo por acaso. No ano passado, Kim começou a passar por sessões semanais de terapia.

“Estou lhe mostrando uma ou duas camadas da cebola”, ela disse. “Minha terapeuta leva a cebola toda.”

No final do ano passado, ela e Berle se mudaram para uma casa nova e moderna na parte oeste de Los Angeles, não muito longe da praia. Os pais de Kim se mudaram para seu antigo apartamento, a alguns quarteirões de distância. Era um alívio estar perto deles de novo. Ela os visita quase todo dia.

“Se estou com fome ou com saudade da comida da minha mãe, ligo para ela”, disse Kim.

O legado de uma atleta

Em uma academia de ginástica em West Hollywood, Chloe Kim trabalha sob a orientação de Roy Chan. Eles se conheceram em novembro de 2020, com o calendário já correndo na direção dos Jogos de Inverno de Pequim.

O foco continua a ser força e equilíbrio, nas juntas e no “core”. Quando está no ar, Kim faz rotações como as de uma ginasta. E depois cai 10 metros ou mais (a borda do halfpipe fica mais de sete metros acima do fundo), e pousa com os pés imobilizados. Não é incomum que costelas saiam do lugar.

“Ela é muito, muito flexível, tem uma mobilidade enorme”, disse Chan, “Sua capacidade de contorcer e girar o corpo é o que permite que faça todas aquelas manobras. Temos de garantir que tenha estabilidade suficiente no ‘core’ para sustentar os impactos”.

Chan agora é parte do círculo de pessoas mais próximas a Kim, mais um amigo recente vindo de fora do snowboard. Ele também gostaria que ela mostrasse mais de sua personalidade ao mundo –”para resumir, ela é muito gentil e muito engraçada”, disse– e sabe que Kim quer ser conhecida como mais do que uma snowboarder.

“Conversamos muito sobre isso”, ele disse. “Sabemos que, no momento, a plataforma é esta. Ela precisa continuar a vencer. Mas é essa só uma parte de seu legado, e estamos falando de uma atleta que deixará um legado.”

Dede que voltou a competir, em janeiro, ela em geral vem procurando escapar a qualquer atenção, sabendo que isso virá quer ela goste, quer não. Não posta no Twitter há mais de um ano e sua presença no Instagram é esporádica.

É revelador que sua aparição pública mais notável nos dois últimos anos tenha sido sob disfarce, no programa “The Masked Singer”. Ela fez uma apresentação surpreendentemente boa, vestida de água-marinha, e cantou “Crazy”, sucesso da cantora country Patsy Cline.

Também participou de “Vila Sésamo”, contracenando em um quadro sobre snowboarding com Garibaldo.

A Chloe Kim que vai voltar a ocupar a atenção do público nos Jogos de Inverno deste ano é essa –brincalhona, ousada, encantadora–, mas agora é ela que estará no controle, na medida em que puder.

“Não estou nem perto de uma medalha de ouro”, disse Brolin Mawejje, que compete no snowboard por Uganda e fez amizade com Kim. “Mas, tendo determinado que o snowboard é meu caminho, de vez em quando sinto a pressão de pessoas que querem alguma coisa, e eu não sei se posso dar a elas tudo o que querem. Ninguém sabe o que você está vivendo, mas todos se apressam a julgar com base em alguma coisa, como a conquista ou não de uma medalha”.

A trajetória atlética de Kim ecoa a de Shawn White, 35, que também se tornou astro na adolescência. A maioria das pessoas o conhece como campeão olímpico de snowboard, um vencedor de três medalhas de ouro que continua batalhando por vaga em sua quinta Olimpíadas de inverno, mas ele dedicou boa parte de seu tempo entre as competições a fazer outras coisas –tornou-se skatista, músico, empresário, e tentou ser um amigo e parente leal.

“Quando eu era mais moço, queria ser mais do que era na época”, disse. “É difícil viver naquela situação, porque isso significa que, por melhores que as coisas estejam, você continua a sentir que ainda quer mais, que quer algo diferente”.

Agora ele vê o snowboard como um bônus, diz, algo divertido que ele pode fazer.

Talvez Kim continue a competir até depois dos 30 anos. Ou talvez deixe de lado o snowboard depois das Olimpíadas do ano que vem. Ela não diz. É improvável que volte à universidade. A maior parte dos amigos que fez por lá já teria partido, ela aponta.

Por enquanto, tudo gira em torno das Olimpíadas, de novo. Kim passou boa parte de outubro na Suíça, em companhia de dezenas de outros dos melhores atletas do snowboard do planeta, treinando em uma geleira sobre Saas-Fee. Dia após dia, trabalhando com o treinador Rick Bower, ela praticava no halfpipe.

Também brincava com os amigos, jogava com colegas da equipe americana e parecia feliz por estar de volta ao esporte.

Mas não havia jurados e não havia audiência. Era snowboard sem expectativas. Ela podia perfeitamente estar cantando disfarçada de água-marinha, ou assistindo a aulas em Nova Jersey, ou cavalgando com o namorado.

Mas agora Chloe Kim, medalhista de ouro, está a ponto de reaparecer, e o botão de pausa vai ser desapertado, para a diversão de todos nós.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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