Caso das búfalas de Brotas choca, mas a brutalidade não existe só no sítio de Água Sumida – 26/11/2021 – Terra Vegana

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Fernando Garcia já havia dado o dia como encerrado quando recebeu um telefonema urgente. Mais de mil búfalas haviam sido abandonadas sem água e sem comida em um sítio no interior de São Paulo. Cerca de trinta minutos depois, o fotógrafo narrativo estava no carro da advogada criminalista Antilia Reis, a caminho do sítio de Água Sumida, em Brotas. Não fazia ideia de que registraria cenas do maior caso de maus tratos animais da história do Brasil.

Mais de mil búfalas abandonadas. Ao menos 90% delas grávidas. Devo dizer: eu também estou grávida nesse momento. E não consigo sequer imaginar a dor de fome dessas fêmeas confinadas, desprovidas de alimentos e até de pasto, retirado pelo proprietário da fazenda.

Eu, uma fêmea que toma café da manhã —lanche, almoço, lanche, jantar—, vivo com a sensação de que não tenho mais estômago, e, sim, um buraco negro dentro de mim. Não consigo imaginar a dor dessas fêmeas.

Ao chegar em Brotas, o que Fernando encontrou foi, nas palavras dele, “um cenário de guerra”. Mas faz questão de frisar: “guerra entre seres humanos e búfalos”. Fernando não é vegano e, apesar de ser “um profissional equilibrado e sério”, relatou que chorou a ponto de não conseguir editar as fotos tiradas no local.

Com uma rotina intensa de trabalho —ele chega a ficar nove horas de pé por um único clique e está habituado a fazer laudos técnicos de necropsia—, Fernando compartilhou que essa foi, sem dúvida, a maior tragédia que já narrou por meio de fotografias.

“São centenas de animais gritando de dor, de fome, de sede, de dia e de noite. Nas valas indevidamente feitas, os búfalos foram despejados uns em cima dos outros, alguns deles ainda vivos, inclusive.”

Cenário de guerra. Essas palavras foram também usadas pela ativista e publicitária Larissa Maluf para descrever o que ficou conhecido como o “Caso das búfalas de Brotas”. Larissa conta que a situação de fome era tão extrema que, ao entrar no local, os voluntários perceberam sinais de mordida nas cascas das árvores.

Ao longo dos cinco dias em que esteve no sítio, Fernando fez registros que invertem a lógica da fotografia narrativa de drama, revelando momentos de alegria e de afeto dos animais completamente debilitados.

Mas fazem parte do seu trabalho, também, os registros mais técnicos, para laudos periciais que estão sendo feitos pelas ONG ‘s que atuam no local, como a ARA (Amor e Respeito aos Animais). “Às vezes, não consigo tirar fotos das carcaças devido ao cheiro. Uso máscara e, sobre a máscara, uma blusa amarrada no rosto. Mas tem momentos em que não consigo.”

Ao que tudo indica, o abandono da manada foi proposital, uma vez em que o fazendeiro Luiz Augusto Pinheiro de Souza teria decidido interromper a produção do leite de búfala para arrendar o terreno de mais de 700 alqueires para o plantio de soja.

O caso das búfalas de Brotas choca pela sua brutalidade, mas essa brutalidade não se encerra no sítio de Água Sumida. As cenas de crueldade e de exploração animal têm sido amplamente divulgadas nas redes sociais, e a revolta talvez não seja “apenas” em relação ao abandono e maus tratos aos quais mais de mil búfalas grávidas foram submetidas.

É a revolta de quem se sentiu a vida toda enganado comendo derivados de animais e percebeu, através de um caso exemplar, que a atividade pecuária é, por definição, um exercício diário e frio de exploração animal.

Larissa narra que o “cenário de guerra” tem chocado não apenas os mais de 20 ativistas que estão no local, mas a população de Brotas, policiais, delegado e investigador envolvidos no caso. E que tem recebido centenas de mensagens de pessoas que estão acompanhando o caso pelas redes sociais (@bufalas_de_brotas no instagram), que relatam que já não conseguem mais comer laticínios.

A muçarela de búfala não tem glamour nenhum por cima do tomate: ela é fruto do sofrimento, assim como todos os outros queijos e leites que enchem as prateleiras dos supermercados.

Um bezerro é afastado de sua mãe com apenas dois dias, e forçado a “mamar” em mangueiras.

Cerca de trinta dias após o parto, a vaca é colocada em seu período fértil artificialmente, através de uma indução hormonal, para, depois, passar por um processo de inseminação artificial.

Eu, como fêmea grávida, não consigo sequer imaginar a profunda dor que essas fêmeas e seus bebês vivenciam ao longo dos poucos meses ou anos em que vivem para satisfazer, por poucos segundos, o paladar de seres humanos.

Fernando me disse, ao final da nossa conversa, que passou a considerar o veganismo depois de tudo o que presenciou. Que esse caso sirva ao menos para que mais pessoas percebam que é quase impossível criar animais com dignidade em um sistema de produção que os trata como mercadorias, inclusive descartáveis quando se tornam pouco lucrativas.

Mesmo para quem compra laticínios que teoricamente foram produzidos em um sistema que se diz “respeitoso”, não há como saber, o tempo todo, se o leite usado no bolo da cafeteria veio de uma vaca “feliz”, ou se a muçarela da pizza foi desenvolvida a partir do leite naturalmente produzido pela vaca em um momento pontual da sua vida.

Não há bicho no prato, no copo ou no sanduíche sem sofrimento.


Serviço

O trabalho dos voluntários envolve um custo enorme com remédios, o funcionamento de um hospital de campanha e alimentos para a recuperação das búfalas.

A ONG ARA, que tem a guarda judicial provisória dos animais, está arrecadando doações para que o resgate possa ser feito.

Por isso, termino com o número do PIX para quem puder e quiser contribuir: CNPJ 14.732.153/0001-38.



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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