‘Casa Gucci’: Lady Gaga diz que maior momento da vida foi ser uma Gucci – 26/11/2021 – Cinema e Séries

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Londres


The New York Times

Um dia depois da ruidosa estreia de “Casa Gucci” em Londres, conversei com Lady Gaga em um quarto de hotel perto da Trafalgar Square, e ela começou por uma pequena ressalva.

“Para ser honesta, acho que há algum sensacionalismo em darem tanto destaque ao tempo que dediquei a desenvolver meu sotaque e ao fato de que passei o tempo todo de filmagem sem sair do personagem”, disse Gaga na entrevista, com as madeixas platinadas encobrindo os olhos. “Mas se você me permitir explicar e esclarecer”…

A superestrela estava se referindo a manchetes recentes sobre sua técnica de interpretação no set de “Casa Gucci”, drama dirigido por Ridley Scott, 83, que chegou às salas de cinema americanas na semana passada. Para interpretar Patrizia Reggiani, que conspirou para assassinar seu marido, um dos herdeiros da família Gucci, em 1995, Gaga passou nove meses falando com um sotaque italiano pronunciado e mergulhou tão fundo na personagem que pensava como Patrizia e se sentia como ela mesmo quando as câmeras não estavam rolando.

Mas, como me disse Gaga, ela teve seus motivos para agir como agiu. E o mesmo vale para Patrizia. Baseado no livro “The House of Gucci: A Sensational Story of Murder, Madness, Glamour and Greed”, de Sara Gay Forden, o filme acompanha a ambiciosa Patrizia em seu esforço para seduzir Maurizio Gucci (Adam Driver) e ingressar via casamento na dinastia italiana da moda.

Os negócios da família pouco interessam ao retraído Maurizio, e o poder real é detido por seu pai, Rodolfo (Jeremy Irons), e por seu tio, Aldo (Al Pacino). Se uma outsider como Patrizia deseja se tornar uma verdadeira força na Gucci, será necessário criar divisão na família. Por fim, até mesmo Maurizio se distancia de Patrizia, e a raiva dela por ele ganha tons homicidas.

“Eu estava em um momento complicado de minha vida quando esse roteiro chegou às minhas mãos”, disse Gaga sobre seu primeiro papel cinematográfico importante desde “Nasce uma Estrela” (2018). Durante as gravações de “Chromatica”, seu álbum de 2020, a mulher cujo nome de batismo é Stefani Joanne Angelina Germanotta chegou a questionar se queria mesmo continuar a ser Lady Gaga. Quando “Casa Gucci” lhe ofereceu a oportunidade de ser outra pessoa, ela aceitou entusiasticamente.

Agora, depois de passar pela experiência, ela abre um sorriso ao falar sobre a confiança de Scott em sua capacidade de se transformar. “Nunca tive uma experiência melhor com um diretor”, ela disse. “Ridley ama os atores. Outros diretores, não: amam a eles mesmos”.

Quando Scott se uniu a nós na conversa por vídeo, Gaga falou sobre como a conexão entre eles permitiu que ela desenvolvesse seu mais profundo estudo de personagem até agora. Abaixo, trechos editados da conversa.

Gaga, o filme começa com um diálogo sobre as pessoas olharem para as vitrines da Gucci mortas de vontade de comprar nem que seja o segundo mais barato dos produtos da grife. Como é que foi, no seu caso, quando chegou o momento em que você não só passou a poder comprar todas aquelas coisas, mas passou a recebê-las como presentes?

Gaga:
Basta você me fazer essa pergunta e sou arremessada de volta ao momento em que digo essa linha no filme. Lembro-me de ter pensado que eu era o segundo item mais barato, que Patrizia era o segundo item mais barato da loja, e que ela jamais estaria entre os melhores.

Também pensei na época em que enfim pude começar a comprar coisas bonitas ou a recebê-las como presente. Havia sempre algo dentro de mim, lá no fundo, dizendo que eu não tinha direito àquilo. Mas acho que parte de ser artista é essa ideia incessante de que não somos bons o suficiente. Coisas materiais são maravilhosas, mas vemos neste filme como o poder e o privilégio podem ser inerentemente malévolos.

Patrizia é ambiciosa na maneira pela qual persegue Maurizio, mas no começo do filme o espectador torce para que o casal dê certo.

Gaga:
Uma das primeiras coisas que eu disse a Ridley era que não sabia se ela um dia amou Maurizio de verdade. E ele me respondeu que sim, amou.

Scott: A coisa mais importante para mim era que, por piores que as coisas tenham se tornado entre eles mais tarde, existisse alguma coisa de que gostar naquelas pessoas. Ela o persegue propositadamente, mas creio que fique encantada com o comportamento cavalheiresco dele, e isso evolui para afeto e amor. O amor é um elo poderoso, mas é preciso tomar cuidado, porque pode se transformar em ódio em um piscar de olhos.

Gaga: Assim que Ridley me disse que era amor, abandonei a ideia de que ela era uma caça-dotes e investiguei todos os artigos que consegui encontrar a respeito dela, todas as entrevistas sobre ela. Mas não li o livro.

Por que não?

Gaga:
Comecei a ler e vi que o livro estava repleto de opiniões e por isso o deixei de lado. Não queria que qualquer pessoa ditasse o caminho do meu pensamento. Mesmo a ideia de conhecer Patrizia Gucci, depois de assistir a entrevistas dela, me pareceu certamente uma má ideia, porque ela certamente teria uma agenda e tentaria me contar a história da maneira que prefere que seja contada.

Fale-me sobre manter o sotaque de Patrizia por tantos meses. Foi cansativo?

Gaga:
Acho que o efeito sobre mim teria sido mais grave se eu não tivesse treinado tanto. Eu falava daquele jeito com minha mãe, com amigos, para que eu, Stefani, me acostumasse a falar daquela maneira e isso soasse completamente natural. É quase como uma forma de memória muscular e, dessa maneira, quando você está em uma cena, o sotaque não fica no caminho das coisas mais viscerais que estão acontecendo no estúdio.

Se eu tivesse um show de jazz na semana que vem e não me preparasse e ensaiasse, minha voz não estaria pronta. Minha abordagem quanto a esse trabalho não difere de minha abordagem com relação à música. Não quero ser sensacionalista sobre o “method acting” ou dizer que o único jeito de agir é passar o tempo todo sem sair do personagem. Mas teria sido mais difícil para mim entrar e sair da personagem sempre que chegasse ao set de que ficar nela.

Scott: Houve um momento em que pensei comigo mesmo se ela sempre tinha sido daquele jeito e se tinha sido eu que esqueci. Na nossa primeira reunião, ela foi, ouso dizer, muito americana.

Gaga: Sou americana! Americana de origem italiana.

Scott: Mas depois pensei que não questionaria aquilo porque, para mim, estava funcionando.

Gaga, como é que você criou a linguagem corporal de Patrizia? A maneira de andar e a de dançar dela parecem mostrar um centro de gravidade muito mais baixo do que o seu.

Gaga:
Em algumas técnicas de atuação, chamam esse processo de ‘usar o animal’. Usei três animais diferentes para Patrizia. Comecei com um gato caseiro, que tem algo de encantador, mas gosta de manter a distância. Usei essa concepção para criar o lado físico dela. Depois, ao ver Aldo abraçar Maurizio, ela pensa consigo mesma que talvez seja capaz de convencer Maurizio a se aproximar da família, a ser parte do negócio da família. Naquela cena, minha escolha foi me transformar de gato em raposa.

Depois, quando [um advogado dos Gucci] vai à escola da minha filha me entregar o pedido de divórcio, que Maurizio não teve coragem de me revelar em pessoa, me transformo de raposa em pantera. De que maneira uma pantera seduz sua presa? Como funciona a pantera naquele momento de lentidão antes do salto? O que acontece quando a pantera está tão faminta e enraivecida pela fome que ela decide agir para sobreviver? Minha sensação sempre foi a de que Patrizia foi uma sobrevivente, por toda a vida.

De que forma?

Gaga:
Ela nunca foi tão prestigiosa, tão bem vestida, tão reluzente quanto os Gucci. Nela, sempre houve algo de ligeiramente embaraçoso, de ligeiramente perturbador. Estamos falando de uma mulher que quer mais para si mesma, mas em minha opinião todo o poder que ela adquire é uma ilusão da mesma forma que o patriarcado é essencialmente uma ilusão. É algo que acontece quando uma mulher pode até sentir que tem poder, mas basta um homem dizer não e todo o mundo dela desaba. Ela é simplesmente descartada, vezes sem conta, e creio que tenha sido isso que a compeliu a planejar o assassinato do marido.

Como você racionalizou esse ato?

Gaga:
Acredito com todo meu ser que essa mulher esteja caminhando por algum lugar de Milão lamentando profundamente o que fez. Acho que ficou tão traumatizada que cometeu um erro enorme. Não tentei transformá-la em uma pessoa adorável, mas acho que Ridley permitiu que ela fosse adorável ao me empoderar como mulher.

Eu preciso dizer, Ridley, que não existem muitos diretores homens que empoderariam uma mulher para ser feia diante das câmeras. À medida que a personagem envelhecia e aparecia em um estado cada vez embaraçoso e desesperado, ele abraçou a feiura, o que merece elogios, porque é feio se ver descartada por sua aparência, é feio ser descartada em troca de uma mulher mais jovem. Por isso, acho que Ridley tomou uma história que era para ter sido um ‘assassinato sexy’ e permitiu que fosse feio.

Ridley, nem muitos diretores conseguiram fazer filmes grandes durante a pandemia. Você fez dois, incluindo “O Último Duelo”, cuja produção teve de ser interrompida por causa da Covid no segundo trimestre do ano passado. Como foi enfrentar aquela tempestade?

Scott:
Minha equipe é a melhor do ramo. Lembro-me de que estava filmando o primeiro em um lugar muito bonito [uma região rural da França], e não gosto do campo, todo aquele verde e umidade; lá para as 15h começo a sonhar com um martíni de vodca, o que é fatal. De repente, surgiu o monstro da Covid, nos atacando, e eu decidi que era melhor suspender tudo. O que ajudou bastante, porque permitiu que eu editasse o que já tinha filmado e que também colocasse dois meses de preparação e de ‘storyboarding’ na pré-produção de ‘Casa Gucci’.

Gaga: Não sei se você sentiu o mesmo, Rid, mas, porque a Covid estava acontecendo e os atores estavam ou trancados em seus quartos ou no set, a vida parecia flutuar e nos deixar para trás. Acho que isso é parte do motivo para eu ter escolhido ficar sempre na personagem: o que mais poderia fazer quando voltasse ao meu quarto de hotel? Não tinha interação com outras pessoas exceto os colegas atores e o diretor.

Ridley, como é que você se sentiu com o desempenho de “O Último Duelo” nas bilheterias? As críticas foram muito favoráveis, o elenco tinha grandes astros como Matt Damon e Adam Driver, mas o desempenho em termos de audiência foi morno.

Scott:
Foi um enorme desapontamento. É fatal quando você começa a achar que o sucesso está garantido, porque aí é que não está –foi o que aconteceu com “Blade Runner – O Caçador de Androides”. Achei que tinha um sucesso, e nada! Fui crucificado por uma crítica importante da era, chamada Pauline Kael. É por isso que não leio críticas, jamais. É preciso decidir por conta própria. Se você se preocupa com o que a audiência pode estar pensando ou com o que ela quer, é fatal. Um bom filme sempre encontra seu lugar, e agora “Blade Runner” está na Biblioteca do Congresso.

Mas ainda assim, deve ser inspirador que as pessoas se empolguem com o seu trabalho. Enquanto vocês ainda estavam produzindo “Casa Gucci”, as fotos de cena já estavam causando sensação online.

Scott:
Sim, com certeza. Nada como o sucesso para fazer você se sentir bem pela manhã, não? Ao mesmo tempo, se você consegue um grande sucesso ou leva um baque, não deixe que isso o incomode. Se você gosta do que fez, siga em frente.

Gaga: Concordo totalmente. Se você faz arte para agradar as pessoas ou em busca de elogios, isso não é sustentável. Nesse caso, sua paixão será que as pessoas amem você e não que elas amem seu trabalho. Sei que perdi o rumo como artista por algum tempo quando comecei a pensar no que fazer para que as pessoas gostassem de mim. Depois me rebelei, porque não havia motivo para seguir uma estrela-guia que muda sempre de lugar.

Em minha carreira toda, tive altos e tive baixos. Quando você estava falando de “Blade Runner”, pensei em meu disco “Artpop”, que já estava recebendo críticas negativas antes mesmo de sair. A liberdade de expressão permite que as pessoas escrevam o que querem, mesmo que sejam mentiras. Mas, anos depois, “Artpop” é um dos meus discos mais elogiados pela crítica.

Não faço ideia de como esse filme vai se sair quando estrear, mas não importa, porque fizemos algo de grande. Se você tiver tanta sorte quanto eu e puder trabalhar em um dos filmes dele, sabe que, não importa o que mais aconteça, é uma experiência que permanecerá por uma vida inteira.

Você encara Ridley com muito afeto.

Gaga:
Amo Ridley demais. Minha sensação era de que ele estava tomando conta de mim. Viu que eu estava assumindo cada vez mais a personagem, com a passagem do tempo, e costumava perguntar: “Cara, você está bem?” Eu respondia sempre a verdade e ele sempre dizia: “Espero que, o que quer que esteja acontecendo com você, fique por aqui no set”.

Assim, qual foi a sensação de deixar Patrizia e tudo mais para trás?

Gaga:
Para ser honesta, eu estava ansiosa para deixá-la para trás. Ela é uma pessoa tremendamente complicada e, se você vive em modo de sobrevivência o tempo todo –o que certamente era o caso dela—, o sentimento de trauma é constante. Quando embarquei no avião, voltando da Itália, joguei fora os cigarros. Joguei fora as bebidas alcoólicas. Pousei em Los Angeles e limpei minha vida porque não podia mais viver daquele jeito. Aquilo estava me matando, porque estava matando Patrizia.

E qual é a sensação de voltar a ser você?

Gaga
: É um período realmente emotivo. Eu brinco com Ridley a respeito o tempo todo, mas a verdade é que senti uma espécie de pânico de apego ao sair do set. Sentia demais a falta dele. Senti o que Patrizia sentia, que uma vida sem Gucci não merecia ser vivida. O maior momento da vida dela foi ser parte da família Gucci, e posso lhe dizer, depois de terminar esse filme, que o maior momento da minha vida foi ser uma Gucci. É assim que a vida e a arte se alinham. A vida de Ridley é uma obra-prima e você tem sorte se consegue ser parte dela.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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