Cardápio em QR Code pode gerar perdas ao irritar cliente, diz especialista – 02/05/2022 – Comida

1548234083 file be0b03d8 Vision Art NEWS


No pico da pandemia do novo coronavírus, bares e restaurantes que conseguiram sobreviver à crise precisaram adaptar dezenas de pontos de seu funcionamento —e foi assim que nasceram os cardápios em QR Code na maioria dos estabelecimentos em São Paulo.

Acontece que, de lá para cá, nestes quase dois anos de vida, a novidade que tinha como objetivo proteger a saúde do consumidor tem mexido com os nervos dele a ponto de transformar a experiência de sair para comer em algo às vezes mais irritante que prazeroso.

No perfil do Instagram “Coisas que Sou Contra”, que usa o humor para debater polêmicas que vão dos canudos de papel ao hábito de mandar áudios no WhatsApp, um dos posts recentes mais comentados foi justamente o que se dizia contra os cardápios em QR Code.

“Enquanto você está vendo o cardápio, vêm notificações de mensagens e outros aplicativos que acabam te distraindo e te afastando da conversa da mesa”, aponta a servidora pública Bárbara Hashimoto Martins, 29 anos. Para ela, este é um dos principais pontos negativos do sistema.

“Com o cardápio físico você consegue olhar junto com o colega da mesa o que vai pedir e decidir em grupo o pedido, o que dificulta com o digital. E tem a dificuldade do manuseio e a necessidade de estar sempre com internet disponível”, enumera.

Martins também diz se sentir vulnerável quando as mesas ficam na calçada, com medo da violência e roubos de celular.

“É um momento que você está concentrado ali no que vai pedir, principalmente se estiver com fome, e acaba que você perde um pouco da noção do que está acontecendo em volta. Então, olho rapidinho e já tento decidir o que eu quero.”

Ela, que é frequentadora de filiais da rede de restaurantes Outback e de bares como O Rei das Batidas, no Butantã, lembra que ambos usam cardápios em QR Code. “É algo com prós e contras. O pró é a vantagem de não precisar deixar o cardápio sujo em cima da mesa antes da comida.”

Para Ana Sweart, gerente de marketing do grupo São Bento, que administra o Tuy Bar Cocina, nos Jardins, o principal benefício dos cardápios em QR Code é “eliminar materiais impressos com grande frequência”.

“Ilustramos todos os nossos itens com fotos, e a ferramenta online nos traz a agilidade de mudarmos preços e fotos de forma instantânea, sem depender de terceiros como agência publicitária e gráfica, que muitas vezes atrasam a mudança”, avalia.

Sweart lembra que, quando o sistema foi implementado, houve “estranhamento e reclamação” por parte da clientela —hoje, garante, são poucos os casos. “Muitos notaram que a ferramenta seria um progresso, o novo normal e aderiram com facilidade elogiando a iniciativa.”

Matheus Ramos, sócio proprietário da QT Pizza Bar, aponta também a retirada de itens importados que se tornaram de difícil transporte por conta da Covid como uma das vantagens dos novos cardápios.

“Quem reclama mais são pessoas com mais idade, que acabam tendo dificuldade tecnológica. Porém, nosso público é mais jovem, então a adaptação foi tranquila. Ele nos economiza na impressão e também no tempo, já que o garçom não precisa levar a mesa, está sempre lá disponível num display”, comenta.

Ramos acredita que é uma tecnologia que veio para ficar. “Facilita, economiza e ajuda na operação. Além disso, podemos colocar links de avaliação direta. Acho que os cardápios físicos terão que voltar porque existe uma clientela que ainda prefere eles, mas são minoria. A quantidade de cardápios impressos será bem menor.”

Recentemente, a advogada Marina El Tayar, 41 anos, precisou recorrer ao cardápio impresso do restaurante Ritz, na unidade do Shopping JK Iguatemi, porque o QR Code estava inacessível.

“O lado ruim é que o cardápio digital supõe que o cliente possui um smartphone, com acesso à internet, e é preciso estar com o celular carregado para utilizá-lo. Além disso, pessoas mais velhas nem sempre conseguem acessar o QR Code e, nesse sentido, o cardápio impresso se faz indispensável”, resume.

“O lado bom talvez seja a redução de custos para o restaurante, mas acho que, para o cliente, dependendo do estabelecimento, uma parte da experiência é prejudicada pois o cardápio muitas vezes conta a história do restaurante.”

Coordenador do Centro de Excelência em Varejo da FGV-EAESP (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas) Mauricio Morgado compara a adoção dos cardápios em QR Code a uma polêmica famosa do mundo da aviação. “É bem parecido com aquela história da bagagem não incluída, que só é bom para a companhia aérea”, diz.

Morgado acredita que a irritação do consumidor vai falar mais alto —e inclusive prejudicar os estabelecimentos. “Aquele processo de abrir, baixar, cria uma situação de estresse, acho desnecessária”, pontua.

“E tenho certeza de que estão perdendo vendas. Aquilo é ruim de ver, você não sabe tudo que está disponível, então acho que vai diminuir o tíquete médio. As pessoas não vão ter paciência de montar uma combinação de entrada, prato, acompanhamento, ver bebida com calma, é muito chato naquela telinha, a interação é muito ruim, ficar esticando PDF.”

A economia com impressão e a facilidade de atualização são pontos positivos reconhecidos pelo coordenador, mas não seriam, na sua opinião, suficientes para compensar o sistema.

“É tão viciante que o lojista não vai conseguir fazer essa conta da perda. E não sei se ele está lá para ver no dia a dia o nível de irritação, então acho que vai continuar do jeito que está por conta da praticidade para eles. Mas é uma falta de visão de como o consumidor decide a compra.”



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

1548234083 file be0b03d8 Vision Art NEWS

Deixe um comentário

Este site usa cookies para que você tenha a melhor experiência do usuário. Se continuar a navegar, dará o seu consentimento para a aceitação dos referidos cookies e da nossa política de cookies , clique no link para obter mais informações. CONFIRA AQUI

ACEITAR
Aviso de cookies
Translate »