‘Cadê o Cristovão, o Andrade?’, questiona Marcão, único técnico negro da Série A – 02/10/2021 – Esporte

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Marco Aurélio de Oliveira, o Marcão, 49, não esconde o largo sorriso quando citados os números que construiu até aqui como técnico do Fluminense.

Aposta caseira do clube carioca para repor a saída de Roger Machado –demitido em 21 de agosto, após a eliminação para o Barcelona de Guayaquil nas quartas de final da Libertadores–, ele já possui credenciais de respeito.

Desde que assumiu, foram quatro vitórias e três empates em sete jogos pelo Brasileiro. Quinze pontos de 21 disputados, 71,4% de aproveitamento. Nenhum dos outros 19 técnicos da Série A fez mais do que ele no mesmo período.

O time, consequentemente, quase dobrou de desempenho. Antes de Marcão, alcançava 37,7% de aproveitamento na competição e ocupava a 14ª colocação, próximo do grupo dos quatro rebaixados. O time encerrou sua participação na 22ª rodada do Brasileiro na oitava posição –o jogo que seria disputado neste domingo (3) contra Santos, pela 23ª, foi adiado.

Ele ainda detém um último recorde para chamar de seu. É o técnico com maior invencibilidade na competição nacional na história do clube: 16 jogos, superando a proeza de Muricy Ramalho em 2010, ano em que o Fluminense foi campeão brasileiro –no seu caso, somam-se, no entanto, partidas das edições 2019, 2020 e 2021.

“Aqui [no Brasil] há uma cobrança muito grande. A internet acaba influenciando, incita os torcedores e gera pressão ao clube. A responsabilidade precisa ser melhor dividida. Como técnico, tento dividir tudo com minha comissão e com os jogadores. Falo que não tenho uma ciência exata, preciso ouvir o que querem, o que podem fazer. Muitas vezes eles me convencem de tentarmos outras coisas”, conta à Folha.

Marcão, contudo, também preenche uma última estatística, essa desfavorável. É o único técnico negro em toda elite do futebol brasileiro. Somadas as duas divisões, em quarenta clubes, somente ele e Felipe Surian, do Sampaio Corrêa, figuram como exceções.

“Há algo que sempre falo: se capacite. Não adianta dizer que alguém precisa de espaço e não se capacitar, não buscar. Mas vejo vários treinadores que são negros, altamente capacitados, sem oportunidade ou que não recebem a chance que muitos têm. Por isso, digo que meu clube é maravilhoso. O Roger esteve aqui, mas isso precisa tocar mais os outros clubes, também. Não é pela cor da minha pele que devo ser excluído ou colocado. Olharam para mim e me viram capaz”, explica.

Marcão foi o alicerce de Roger Machado durante os quase oito meses do treinador à frente do clube. Antes do trabalho conjunto, um encontro entre eles ficou eternizado em outubro de 2019.

Roger treinava o Bahia, enquanto Marcão tentava salvar a equipe carioca do rebaixamento, mas ambos vestiam a mesma camisa, preta, com os dizeres “#ChegaDePreconceito”. Eram os únicos técnicos negros na Série A, enquanto Hemerson Maia, no Botafogo-SP, o exemplo solo na Série B.

Na ocasião, Roger usou o espaço para pedir por igualdade de oportunidades a profissionais da categoria. Também fez um discurso emocionado sobre democracia racial. “Negar é silenciar, é confirmar o racismo”, disse Machado.

“Realmente, ficamos muito felizes por termos representado tão bem essa questão. Hoje me alegro de ser um representante negro [na Série A], falo com orgulho sobre o assunto, mas por outro lado precisamos pensar. Cadê o Cristóvão [Borges]? O Andrade, que foi campeão brasileiro e não teve mais oportunidade? Não faz sentido. Em qualquer outra situação, estaria dirigindo uma outra equipe. Por que isso acontece? Por que somos negros?”, questiona Marcão.

“Levantem o treinador que foi campeão de qualquer país [e que tenha sumido]. Cadê o homem [o Andrade]? Esses detalhes que percebemos deixam claro que há uma resistência [contra técnicos negros], mas meu clube é exemplo, luta contra isso”, completa.

O Fluminense apostou em 2014 em Cristóvão Borges, que teve justamente Marcão como auxiliar. A passagem durou quase um ano, sendo encerrada em março de 2015 devido aos maus resultados no estadual.

Nas Laranjeiras, técnicos negros não são novidade. Gentil Cardoso, entre 1945 e 1948, o bicampeão mundial Didi, em 1975, e o ex-zagueiro Altair, sempre como interino entre 1992 e 1998, são os casos mais marcantes. Cardoso foi o único negro a comandar a seleção brasileira, mas se queixava de não ter tido a chance de chegar a uma Copa. “Eu sou preto. Escolheram o [Vicente] Feola”, reclamou.

O clube luta para se desvencilhar do termo “pó-de-arroz”, atrelado historicamente a necessidade de jogadores negros passarem maquiagem para embranquecerem os rostos e serem aceitos no futebol.

Em 2019, em vídeo publicado nas redes sociais, o Fluminense explicou que o termo foi associado de forma errada e era uma provocação da torcida do América-RJ a um jogador da equipe que costumava usar talco.

Como jogador, Marcão conta nunca ter sofrido diretamente preconceito racial. Mesmo assim, em 2007, na passagem pelo Juventude, viu a esposa e o filho sofrerem constrangimento em uma padaria em Caxias do Sul.

“Por conta da cor deles acharam que estavam pedindo favor, pedindo coisas. Tivemos que conversar com as crianças e mostrar que deveriam sentir orgulho da cor delas. Meu filho queria alisar o cabelo, não deixei. Falei: ‘você precisa respeitar o que você é'”, conta.

Ex-volante conhecido pela volúpia em marcar e, principalmente, pela liderança, foi capitão por anos no clube, entre 1999 e 2006. Como treinador, Marcão investe, desde 2017, em qualificação.

Em 2019, já havia concluído todas as etapas da licenciatura para técnicos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), iniciou o curso de Educação Física e passou a fazer aulas de inglês.

O maior aprendizado, segundo conta, foi adquirido em viagens para a Europa, onde foi recebido por jogadores e amigos pessoais como Marcelo, lateral do Real Madrid, e Thiago Silva, então no Paris Saint-Germain e hoje no Chelsea. São comuns as ligações para trocas de informações.

“Consegui ver jogos em Madri, treinos. Estive em Paris, fui para Liverpool, Newcastle, e ainda consegui ir no Ajax. Gosto do jogo de transição do Paris e da formação de um meio de campo com três volantes, uso isso para mim, embora critiquem no Brasil. Era muito comum falar com o Thiago após os jogos, questionar sobre o que fizeram. Ele me explicava os movimentos. Tem feito isso no Chelsea, agora”, relata.

A carreira fora das quatro linhas começou em 2011, no Bangu, clube que o formou como jogador. Ele passou ainda por Bonsucesso-RJ e River-PI até receber o convite para voltar ao Fluminense. “Quando me ligaram, falei: onde é que eu assino?”, ri ao lembrar.

No clube, é considerado o principal responsável por fazer o time, recheado de jovens, como Nino, Callegari, Martinelli, Luiz Henrique, jogar um bom futebol sobe a liderança do experiente Fred, 37 anos. “Tive a oportunidade de carregar a faixa por muito tempo. Ele me ajuda a organizar tudo, essa parceria tem sido fundamental”, afirma.

Em alta, Marcão sonha ser efetivado no cargo, mas com os pés fincados no chão. A promessa do Fluminense é de permanência, ao menos, até o final da temporada. “Sabem que prefiro sempre viver o momento. A priori, vamos ficar até dezembro”.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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