Brasil é o país com mais espécies de árvores em risco – 03/08/2022 – Ciência Fundamental

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Uma árvore frutífera de longas folhas verdes, cujos ramos se assemelham à cauda de uma ave. Não se pode dizer muito mais da Pouteria stenophylla, nativa da Mata Atlântica brasileira: ela está extinta devido à perda de hábitat pelo menos desde 1998, de acordo com a lista de espécies sob ameaça da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). Da planta, que um dia cresceu em nossa terra, na Serra do Órgãos no Rio de Janeiro, só restam algumas folhas ressequidas e desbotadas, guardadas no exílio, em coleções botânicas estrangeiras.

Assim como a Pouteria stenophylla, que nem nome popular em português chegou a ter, outras seis espécies outrora encontradas no Brasil já estão extintas. E muitas outras vão pelo mesmo caminho, segundo um levantamento global apresentado no fim de junho no Fórum Mundial de Biodiversidade, na Suíça.

De acordo com o estudo, coordenado pela Associação Internacional de Jardins Botânicos para Conservação (BGCI, na sigla em inglês), um terço das 60 mil espécies de árvores do planeta correm perigo, a maioria das quais está na região de florestas tropicais da América Central e do Sul. E o Brasil, que encabeça a lista de países com mais variedade, com 8.847 espécies, também é o primeiro no pódio daqueles que têm mais espécies em perigo. Duas em cada dez (1.788) estão em risco, principalmente pelo desmatamento para agricultura, a exploração de madeira e os incêndios florestais. Para completar, quase metade dessas espécies é endêmica, ou seja, só é encontrada aqui.

Entre as espécies ameaçadas estão o araçá-verde (Psidium araucanum), uma árvore frutífera da Mata Atlântica em risco devido à degradação ambiental; o pau-amarelo da Amazônia (Euxylophora paraensis), superexplorado por sua madeira; e o faveiro-de wilson (Dimorphandra wilsonii), exclusivo da região de transição do Cerrado para a Mata Atlântica, e em perigo pelo avanço da agricultura.

As árvores fornecem muitos “serviços ecossistêmicos”, explica a botânica Malin Rivers, que coordenou o levantamento, baseado em literatura e bancos de dados coletados por mais de 500 pesquisadores internacionais. “Além de promover bem-estar para os humanos, as árvores absorvem carbono, previnem a erosão do solo e inundações, e regulam a temperatura e a qualidade do ar,” diz Rivers. Além disso, elas são lar e alimento de diversos animais. Quando uma espécie é extinta, toda a biodiversidade do ecossistema é prejudicada.

No entanto, árvores ameaçadas não têm sido o foco de iniciativas de preservação e reflorestamento mundo afora, conforme dados mais recentes apresentados na Suíça. Globalmente, 85% das espécies não ameaçadas estão em áreas de conservação – parques e reservas nacionais –, em comparação com apenas 56% das espécies em risco de desaparecer.

O mesmo vale para coleções científicas, como jardins botânicos e bancos de sementes, que salvaguardam apenas 21% das espécies sob ameaça contra 45% das que estão em segurança. No Brasil, apenas 73 árvores ameaçadas – 5% das espécies em risco – estão protegidas em bancos de sementes e jardins botânicos, revelam os novos dados do relatório. Coleções estrangeiras abrigam 109 espécies brasileiras periclitantes – mais do que temos por aqui.

Pesquisadores temem que a falta de árvores sob ameaça nas coleções possa prejudicar programas de restauração e conservação para preservar espécies à beira da extinção. “É uma pena,” diz Rivers. “As espécies em perigo em coleções são como uma apólice de seguro. Precisamos delas para estabelecer protocolos de propagação, por sementes ou mudas, para escalar os programas de plantio de árvores.”

Em vez de usar árvores nativas e ameaçadas, muitas iniciativas de reflorestamento e plantio adotam a lógica de “qualquer árvore ao menor custo,” explica Galena Woodhouse, especialista em governança florestal do BGCI. Mas essa abordagem traz impactos negativos para a flora e a fauna locais. “Temos visto um aumento de iniciativas bem-intencionadas de plantio para redução do aquecimento global,” ela observa. “Mas ao plantar árvores não nativas, prejudicamos a biodiversidade, aceleramos a extinção de espécies e, em alguns casos, até aumentamos as emissões de carbono.”

Para evitar que isso continue, a pesquisadora está à frente de um projeto que vem desenvolvendo um padrão global de biodiversidade, uma metodologia de análise e certificação internacional para as iniciativas de plantio de árvores. A ideia é que esse processo seja usado para dar um “selo de qualidade” a ações de reflorestamento que levem em conta e preservem a biodiversidade local. Entre os critérios da certificação, estão o uso de espécies nativas em vez de exóticas, a avaliação constante do impacto do plantio na biodiversidade e o envolvimento das comunidades locais.

A metodologia começou a ser testada esse ano em parceria com jardins botânicos do Brasil, Peru, Quênia, Madagascar e Índia. Por aqui, quem está à frente é o Jardim Botânico Araribá, na região de Campinas, que já promove a preservação de árvores nativas ameaçadas como o pau-brasil (Paubrasilia echinata), o cedro-rosa (Cedrela fissilis) e o ipê-felpudo (Zeyheria tuberculosa). A instituição vai passar os próximos cinco anos avaliando áreas de restauração e fazendo ajustes na metodologia de acordo com a realidade local.

“Todo mundo quer ser verde e reflorestar para sequestrar carbono, mas no Brasil, até cana-de-açúcar e monocultura de mogno para uso comercial se aproveitam disso para vender créditos de carbono, não necessariamente promovendo biodiversidade”, alerta o produtor agroecológico Guaraci Diniz, do Jardim Botânico Araribá. “Mais do que ficar plantando árvores sem saber o que se está plantando, é preciso plantar a árvore certa no lugar certo e mostrar a importância disso para comunidade local.”

Quem quiser saber mais sobre as espécies de árvores presentes no Brasil ou em qualquer outro país do mundo, vale experimentar o recém-lançado Global Tree Portal. No site é possível checar a distribuição e o estado de ameaça de diferentes espécies, buscar por informações de cada país e também conferir as ações de preservação a nível global.

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Sofia Moutinho é jornalista. Este texto foi produzido com um bolsa de viagem da Internews’ Earth Journalism Network’s Biodiversity Media Initiative para o Fórum Mundial de Biodiversidade em Davos, Suíça.

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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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