‘Bolsonaro ameaça vida na Terra’, diz ativista britânico – 30/10/2021 – Ambiente

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O premiado jornalista, escritor e ativista britânico George Monbiot, 58, considerado uma das vozes mais influentes nas redes sociais sobre a crise climática, com 440 mil seguidores no Twitter, não poupa palavras contra o presidente do Brasil: “Vejo Jair Bolsonaro como uma ameaça à vida humana. Ele é uma das forças mais ameaçadoras na Terra”.



Em entrevista à Folha, Monbiot descreve Bolsonaro como um ameaça global por causa de seu fracasso em proteger não apenas a Amazônia, mas também o cerrado. Ele lamenta que não tenha havido muito mais pressão internacional para detê-lo.

Bom conhecedor do Brasil, o ativista apresenta o envolvimento com camponeses sem-terra no Maranhão na década de 90 como fundamental para a sua formação.

O britânico aponta como crucial e urgente o uso de menos recursos naturais para a produção de alimentos. Isso significa parar de comer produtos de origem animal. “Eles têm uma fome de terra incrível.”

Ele defende muito mais mobilização em massa para pressionar governos a avançarem de forma rápida e drástica a fim de evitar o colapso dos vários sistemas complexos da Terra. Isso exigirá uma transformação radical da democracia, com vistas à participação direta. “Não aceitamos o princípio do consentimento presumido no sexo. Por que devemos aceitá-lo na política?”

Nas próximas semanas, o colunista do jornal The Guardian estará à frente de um programa diário na recém-lançada COP26.TV. No próximo ano, ele lança “Regenesis: How to Feed the World Without Devouring the Planet” (Regênesis: Como Alimentar o Mundo sem Devorar o Planeta), no qual inclui um manifesto sobre a necessidade de revolucionar nosso modo de produzir alimentos para prevenir os piores impactos das mudanças climáticas.

Por que precisamos dizer colapso ou caos climático e parar de usar o termo mudanças climáticas?

Mudança climática é um termo ridiculamente neutro para o que enfrentamos, a maior crise da humanidade. Usamos palavras que soam muito científicas, abstratas e não dizem muito às pessoas.

Esta é considerada uma década decisiva para limitar os impactos da crise climática. O que devemos priorizar agora e nos próximos anos?

As metas que os governos estabeleceram, mesmo os mais progressistas, estão longe de ser suficientes para devolver os sistemas da Terra a um lugar seguro. A atmosfera é um sistema complexo; os oceanos, outro; os solos, outro; a biosfera, outro. E não se comportam de maneiras lineares e incrementais. Podem absorver muito estresse e manter um estado de equilíbrio, mas podem colapsar de repente. Não sabemos quanto estresse esses sistemas podem absorver antes de uma virada. E, infelizmente, governos têm tentado resolver isso por meio de pequenas mudanças graduais a cada ano, quando precisamos de ações drásticas e rápidas.

De onde deve vir o dinheiro e onde deve ser investido?

Existe muito dinheiro. Vimos isso com a pandemia. Precisamos de um esforço na escala do que os Estados Unidos fizeram quando entraram na Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, o orçamento americano foi maior do que todos os gastos que fizeram desde a Independência. Além disso, os governos podem fazer todo o tipo de coisas que você e eu não podemos para fazer o dinheiro necessário aparecer.

E onde devemos investir esse dinheiro?

Precisamos de uma gigantesca transformação econômica, e isso significa interromper a produção de combustíveis fósseis e investir maciçamente em energias renováveis. Além disso, acredito que a energia nuclear de quarta geração tem um papel importante a desempenhar. É fundamental também proteger e restaurar vastas áreas naturais no mundo e impedir desmatamento e destruição.

Esta não é apenas uma crise. São muitas crises ao mesmo tempo: a extinção em massa de espécies, a acidificação dos oceanos, a perda de solos, a perda de água doce limpa disponível no planeta.

Precisamos de muitos programas de governo, algo similar à escala do que foi feito por algumas nações durante a pandemia.

O governo do Reino Unido deve pressionar por um acordo entre os líderes mundiais na COP26 para interromper o desmatamento e a degradação florestal até 2030. Quais são suas expectativas sobre a conferência em Glasgow e o Reino Unido como anfitrião?

Infelizmente, o primeiro-ministro do Reino Unido tem um histórico de promessas não cumpridas e não o levamos muito a sério no meu país. Mas acho esse um objetivo muito bom e devemos tentar garantir que seja cumprido. Se o fizer, será uma das primeiras vezes que isso vai acontecer.

Nos últimos anos, houve várias campanhas pedindo apoio internacional para conter Bolsonaro e o desmatamento na Amazônia. Existe algo que poderia ter sido feito e não foi feito por quem está fora do Brasil?

Muito mais pressão diplomática. Vejo Jair Bolsonaro como uma ameaça à vida humana. Ele é uma das forças mais ameaçadoras na Terra. Ele representa uma ameaça em muitos níveis para os brasileiros, mas também uma ameaça global por causa de seu fracasso em proteger não apenas a Amazônia, mas também o cerrado.

A Amazônia e o cerrado estão intimamente ligados e são absolutamente cruciais para o sistema climático.

O enorme dano que vem sendo feito pelo governo de Jair Bolsonaro pode ter implicações para a humanidade.

O que seria uma “nova política para uma era de crise”, parte do título de um dos seus livros?

Estamos presos a um modelo de democracia do século 19. Em quase todos os lugares, políticos são escolhidos a cada quatro, cinco anos, e a partir desse momento podem tomar quantas decisões quiserem, desde que consigam que o Congresso as aprove, sem se dirigir nem mais uma vez à população.


Não aceitamos o princípio do consentimento presumido no sexo. Por que devemos aceitá-lo na política?

Na política, estamos na era da caneta de pena, cavalo e carruagem, e isso é um absurdo na era digital.

Você é um apoiador do movimento Extinction Rebellion. Qual tem sido o aprendizado de interagir com as pessoas nas ruas, ter de falar numa linguagem mais acessível e envolvente e responder a críticas como a de que o movimento é um fator de perturbação, mais que qualquer outra coisa?

Quando fui para o Brasil, era jornalista, e quando saí do país, era um ativista. E isso veio do trabalho com os movimentos dos sem terra.

A maioria dos camponeses com quem trabalhava era analfabeta, mas tinha uma noção de teoria política que fazia com que eu me envergonhasse.

Saí do Brasil uma pessoa comprometida com o ativismo e entendendo o poder de pessoas que se unem e lutam por um objetivo comum, usando a desobediência civil, as ferramentas democráticas à sua disposição. E encontrei no Extinction Rebellion o mesmo tipo de espírito, força e a coragem que vi no Brasil.

Algumas pessoas dizem que precisamos evitar narrativas apocalípticas e sermos mais positivos para envolver mais pessoas nas soluções climáticas. Você pode soar apocalíptico e ao mesmo tempo otimista e nos lembra o slogan parisiense de Maio de 1968: “Seja realista, exija o impossível”.

Vou mudar um pouco o slogan: “Seja cientificamente realista. Exija o politicamente impossível”. O que chamamos de realismo político é completamente irreal em termos de prevenção de mudanças ambientais catastróficas.

Os planos dos governos que se reunirão em Glasgow são irrealistas.

Você pode negociar com o realismo político, mas não com o realismo científico.

A mudança política pode acontecer com uma velocidade extraordinária, e coisas que as pessoas acreditavam serem impossíveis se tornam possíveis.

E quais ações urgentes são mais necessárias para chegar lá?

A única maneira de isso acontecer é por meio de mobilizações em massa em uma escala sem precedentes.

No próximo ano sai seu novo livro, “Regenesis”. Pode nos contar um pouco sobre um novo futuro possível para os alimentos e o planeta?

Aprendi muito sobre um assunto com o qual a maioria das pessoas acredita estar familiarizada, que é a comida, como é produzida, de onde vem e o que deveríamos fazer. Quase tudo o que pensamos sobre o assunto está errado.

Uma tarefa ambiental crucial e urgente é usar menos terra na produção de alimentos. Esse é um fator determinante para que ecossistemas, espécies, sistemas da Terra sobrevivam. E isso significa parar de comer produtos de origem animal, porque eles têm uma fome incrível de terra.

Existem tecnologias muito interessantes que podem nos ajudar a abandonar proteína animal e, ao mesmo tempo, manter dietas muito boas. Existem também muitas maneiras de cultivar grãos, frutas e vegetais, algumas vindo do vasto conhecimento tradicional, outras de novos conhecimentos.

Tentei incorporar isso tudo e criar um manifesto sobre como devemos nos alimentar.


George Monbiot, 58

Jornalista, escritor e ativista britânico. Após estudar zoologia na Universidade Oxford, começou a trabalhar na BBC na área de história natural. Hoje é colunista do jornal The Guardian.



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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