Bolsonaro adota novo lema religioso de olho em eleitor cristão – 13/04/2022 – Poder

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O presidente Jair Bolsonaro (PL) vem testando uma nova máxima religiosa na praça eleitoral —mais uma para a coleção.

No último domingo de março, em evento do seu partido com ares de comício antecipado, ele disse que o Brasil “vive um momento difícil” e aconselhou: “Nada temeis [temais], nem mesmo a morte, a não ser a morte eterna”.

Até aqui, o repertório cristão de Bolsonaro, que se declara católico e mantém laços tão próximos com evangélicos que às vezes é tomado por um, tinha duas coqueluches:

1) o versículo “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32);

2) seu slogan na campanha de 2018, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, inspirado num brado popularizado por paraquedistas nacionalistas do Exército no final dos anos 1960, já depois do Ato Institucional nº 5 (AI -5) instaurado pela ditadura militar.

A nova sentença estreou na oratória presidencial no dia 5 de agosto de 2021. Naquele dia, Bolsonaro afirmou que resumiria uma “passagem bíblica”, embora a citação não apareça na Bíblia, ao menos não daquela forma literal.

Na ocasião, uma cerimônia de entrega de medalhas, ele tinha acabado de descrever em detalhes sua saga médica depois da facada que levou um mês antes do pleito de 2018.

Disse, na sequência, que se via como “o médico da liberdade no Brasil” e evocou “uma canção conhecida por todos”, a “Canção do Exército”: “A paz queremos com fervor/ A guerra só nos causa dor/ Porém se a Pátria amada for um dia ultrajada/ Lutaremos sem temor”.

Na véspera, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes havia incluído o presidente como investigado no inquérito das fake news, por seus infundados ataques a urnas eletrônicas.

Duas semanas depois, Bolsonaro voltou a usar a frase religiosa, agora para uma audiência que falava a mesma língua.

Compartilhou-a, inclusive, no Twitter, junto com um vídeo de sua participação num evento da Assembleia de Deus no Pará: “Peço, humildemente, que assista e repasse. ‘Nada temeis, nem mesmo a morte, a não ser a morte eterna.’ Bom dia a todos”.

Dessa vez, fez uma correção de rota: contou que as palavras eram “um resumo de vários livros que li”, sem dar a entender que as extraiu das Escrituras.

Repetiu a frase algumas vezes mais naquele ano, como numa fala para a Cantata de Natal no Palácio do Planalto que começou assim: “Não pretendo substituir nem o padre nem o pastor, mas é muito bom estar entre aqueles que têm Deus no coração”.

Uma semana antes, lá estava o lema de novo, fechando seu discurso numa Assembleia de Deus em Brasília.

“Dá para dizer que é de uma passagem bíblica, ou é de um resumo de uma passagem bíblica”, afirmou Bolsonaro no culto que celebrou a posse de seu indicado “terrivelmente evangélico” ao STF, André Mendonça.

“Creio que o presidente cita Mateus 10:28, bem como Lucas 12:4-5”, diz o deputado Marco Feliciano (Republicanos-SP), um dos aliados evangélicos mais próximos de Bolsonaro.

São versículos de conteúdo irmão. No livro de Mateus: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo”.

Em Lucas: “E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais o que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei”.

Se usada na campanha eleitoral, a sentença causará um “rebuliço no mundo espiritual”, diz Feliciano. Também provocará associações com o atentado sofrido por Bolsonaro quatro anos atrás.

“Ele quase veio a óbito”, diz o deputado-pastor. “Basta um Google pra ver quantas ameaças de morte o cercam. Então ele responde com o versículo bíblico. A única morte que ele teme é a morte eterna, a morte da alma e não a do corpo.”

Não é de hoje que Bolsonaro vende a imagem de um homem poupado por Deus para completar uma missão, expediente eficaz para se manter em alta no eleitorado de fé, diz Magali Cunha, editora-geral do Coletivo Bereia, que checa potenciais fake news em notícias de verve religiosa.

“Claro que a forma com que ele apresenta [a frase] remete a versículos da Bíblia. Faz parte dos símbolos que ele usa para interagir com imaginário religioso, primordialmente o evangélico.”

O desempenho do presidente nesse segmento tende a ser mais generoso do que em outros.

A mais recente sondagem do Datafolha aferiu que, na média geral, ele tem 34% das intenções de voto num eventual segundo turno contra Lula (PT), que venceria com 55%. A competição é bem mais dura se afunilada no recorte evangélico, com 46% dos votos para o atual mandatário, e 43% para o ex.

Bolsonaro já havia trabalhado em cima da ideia do destemor, em março do ano passado.

O Brasil batia, então, consecutivos recordes de mortos pela Covid-19, numa crescente segunda onda da pandemia. O presidente reiterou sua aversão a medidas de isolamento social recomendadas por especialistas para conter a doença.

“A própria Bíblia diz, em 365 citações, ‘não temas’. Eu sou católico, acredito em Deus, respeito as outras religiões. Mas, se ficarmos em casa o tempo todo e dizer que a economia a gente vai ver depois… Uma parte a gente está vendo agora o que foi essa política. Qual o futuro do Brasil?”

Na época, o Coletivo Bereia classificou essa fala presidencial como falsa. Até porque não há, nos livros bíblicos, nada perto das 365 menções a esse conceito, mesmo considerando variações como “não tenhas temor”.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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