Atacar quem diz que continuará usando máscara mostra como sociedade perdeu noção do coletivo – 19/03/2022 – Reinaldo José Lopes

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O leitor talvez tenha reparado que a gente consegue aprender muita coisa sobre a natureza humana quando coloca um bando de desconhecidos para participar de um jogo valendo dinheiro. Não, não me refiro a “reality shows”, mas ao que acontece dentro dos laboratórios de psicologia social e economia comportamental mundo afora.

OK, os prêmios oferecidos por esse tipo de laboratório não chegam nem perto dos faturados por um ganhador do BBB, mas dinheiro é dinheiro, mesmo que seja pouco. Uma das modalidades mais comuns dos joguinhos científicos a que me refiro é uma espécie de investimento em conjunto, com regras cuidadosamente pensadas para fomentar treta.

Imagine que, no começo, cada um dos participantes recebe quatro notas de R$ 5 para investir num fundo comum. A cada rodada, os recursos investidos rendem, digamos, 10% de juros, que são divididos de forma igual para todos os participantes. O lógico seria todo mundo investir o total de seus recursos na empreitada, certo?

Só que, sacanagem das sacanagens, as regras dizem que os participantes não são obrigados a investir nem um centavo que seja. E isso significa que, do ponto de vista estritamente racional, vale a pena deixar que todos os demais coloquem dinheiro no fundo comum e ficar de braços cruzados enquanto os dividendos caem na sua conta, sem mexer nas suas notas de R$ 5.

Maquiavélica, porém, é a mente dos cientistas do comportamento. A maioria das versões desse tipo de jogo inclui uma modalidade de punição: você pode gastar parte do seu dinheiro para punir outros participantes, arrancando recursos deles.

Na maioria dos países desenvolvidos, em especial aqueles com sociedades civis decentemente estruturadas e desigualdade relativamente baixa, nas quais as pessoas tendem a confiar na Justiça e em outras instituições, o mais comum é que ocorra a chamada punição pró-social. Ou seja, o grupo gasta dinheiro para punir quem contribui pouco.

Em países com taxas elevadas de desigualdade e corrupção, porém, emerge a punição antissocial: quem é generoso “demais” acaba sendo punido pelos outros. Como assim você tem o desplante de confiar em todo mundo e ainda por cima dar a entender que a gente é mão de vaca?

A punição antissocial não precisa envolver dinheiro, é claro. Foi nela que pensei de imediato ao ver as reações nada edificantes de algumas pessoas diante do fim da obrigatoriedade das máscaras de proteção contra Covid-19 em São Paulo e outros locais do país.

Com cautela totalmente justificada, muita gente disse que vai continuar a usar máscaras em locais fechados, ao menos enquanto a situação da pandemia não melhora de vez. A atitude dos que chamam máscara de “focinheira” e “mordaça”, porém, foi o mais puro creme da punição antissocial: puseram-se a xingar quem preferia manter a proteção respiratória.

O cansaço pandêmico é a coisa mais compreensível do mundo. Entretanto, isso não muda o fato de que esse tipo de reação é mais um indício de que, infelizmente, fazemos parte do segundo tipo de sociedade —aquelas que são corroídas por dentro pela falta de confiança entre seus membros. Para quem tem ouvidos para ouvir, os últimos dois anos trazem muitas lições amargas, mas é possível resumir quase todas em uma só: ou saímos dessa coletivamente, ou não sairemos nunca.


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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