As 24 séries que definem o século 21 – 31/10/2021 – Cinema e Séries



BBC News Brasil

“A televisão sempre revela algo a respeito de quem somos”, diz o crítico Caryn James.

O levantamento deste ano da BBC Culture relacionou as 100 melhores séries de televisão do século 21, segundo críticos de TV e jornalistas de várias partes do mundo. Agora nós exploramos as séries da lista que definiram o futuro da TV.

Em pesquisas anteriores, nós pedimos a críticos que escrevessem sobre os 25 filmes que haviam ficado no topo da lista de 100. Neste ano, fizemos algo diferente: pedimos a críticos de diferentes países que refletissem sobre os programas que mais definem o século 21.

Estas são as séries —listadas sem uma ordem específica— que são tanto influentes como significativas, que romperam limites, que refletiram a vida especificamente neste século ou mudaram, de alguma maneira, a cultura da TV. São os programas que expõem nossas verdades, esperanças e medos.

Todas essas séries extraordinárias dizem algo sobre as pessoas, não importa de que parte do mundo elas sejam. Todas oferecem algo único a nós, espectadores: uma compreensão do nosso mundo, um discernimento a respeito de outros seres humanos, ou, o que é igualmente importante, a oportunidade de rir deste século em que vivemos – e nos encantarmos com ele.

RUPAUL’S DRAG RACE

RuPaul’s Drag Race é pura alegria. O programa foi tão incorporado no dia a dia de tanta gente que o hábito de estalar a língua transformou-se numa linguagem universal. Enfiou-se na cultura geral e nos nossos corações —e, depois de 12 anos, é hoje um comprovado fenômeno, tendo recebido prêmios e transformado o setor televisivo num lugar mais inclusivo e anárquico.

RuPaul e sua equipe pegaram a arte drag de bares das grandes cidades e a transportaram para milhões de lares, apresentando este mundo para aqueles que ainda não conheciam e transformando suas dedicadas drag queens em estrelas.

A competição conseguiu subverter o espaço heteronormativo dos reality shows, enquanto inspirava suas legiões de fãs a ter orgulho de sua individualidade. Onde mais, no mundo da TV popular, você poderia encontrar discussões dolorosamente honestas sobre crescer sendo homossexual, terapia de conversão, direitos das pessoas trans, racismo, imagem corporal, moradores de rua, serviços de saúde e homofobia? Drag Race ofereceu uma visibilidade muito necessária, no meio de seu humor e sua vivacidade.

O programa celebra a performance e os artifícios, abraçando a crença de que não importa o quão difícil o jogo da vida fique, nós sempre podemos no recriar e seguir em frente. Nós podemos aprender a amar a nós mesmos, com nossas falhas e tudo mais.

Jennifer Gannon, jornalista e apresentadora freelancer (Irlanda)

‘MAD MEN’

“Nostalgia. É algo delicado, mas potente.” O independente mas moralmente dúbio Don Draper nos diz isso logo no começo de “Mad Men”, e isso nos ajuda a capturar a magia entre as qualidades de riqueza e assombro do drama de Matthew Weiner, passado no século 20, que examina as maquinações internas de uma agência de publicidade em Nova York.

No papel de Don, Jon Hamm criou um anti-herói histórico, mas o elenco todo sempre foi uma enorme oferta de altíssima qualidade. As personagens femininas eram especialmente fortes e ímpares, cada uma de sua maneira, da ambição discreta de Peggy Olson, interpretada por Elisabeth Moss, aos ressentimentos e tristeza passivos exibidos por January Jones, na pele de Betty Draper.

“Mad Men” foi uma série que sempre priorizou os personagens, recompensando os espectadores com uma evocação viva, num estilo de romance de uma era que não existe mais, e mostra como todos estamos nos debatendo com o quebra-cabeça de como promovermos a nós mesmos.

Lewis Knight, jornalista da área de TV (Reino Unido)

‘LOST’

“Lost” alterou o panorama de como assistir a programas de TV de várias maneiras, muitas das quais continuam sendo sentidas 17 anos depois que o drama de estilo desastre desabou na TV em 2004. Seus criadores construíram uma mitologia em torno da misteriosa ilha da série que enviou seus fãs para para decifrar pistas na internet, hoje em dia uma prática extracurricular comum para aqueles obcecados com séries baseadas em enigmas.

Eles também fizeram com que nós nos envolvêssemos profundamente com seus personagens, um grupo diverso etnicamente de almas errantes que refletiam uma sociedade cada vez mais interconectada globalmente.

“Lost” tornou-se popular enquanto as mídias sociais ganhavam posição de destaque, fazendo com que fosse o primeiro programa a gerar conversas enormes nos nossos novos bebedouros globais: Twitter e Facebook.

Numa época em que havia alguma dúvida a respeito disso, “Lost” provou que o público adorava histórias contadas em capítulos que exigem investimento numa narrativa de grande escopo. Foi uma série envolvente, divertida, emocionalmente enriquecedora que elevou nossas expectativas sobre o que a TV poderia ser no início do novo século —e também nos mostrou como ela seria nas próximas décadas.

Jen Chaney, jornalista da área de TV do site Vulture, parte da revista New York (Estados Unidos)

‘LA CASA DE PAPEL’

Quando as pessoas recorreram aos sites de streaming para preencher seus dias durante a pandemia de Covid-19, uma série em particular avançou além das outras, com 65 milhões de espectadores nas primeiras quatro semanas em que quase o mundo todo ficou sob confinamento: “La Casa de Papel”.

E é óbvio o motivo: “La Casa de Papel” é incansável. Essa série de ação foi criada para espectadores do século 21, com mudanças na trama que nunca decepcionam, com bom ritmo e interpretações fantásticas de cada ator.

Quando o gato e o rato mudam de lado, você vê como a decisão moralmente cinzenta de um homem pode afetar toda uma sociedade. Se você pudesse fazer um curso sobre linhas borradas entre bom e mau, então o criador da série, Álex Pina, seria o professor.

Embora alguma partes possam parecer forçadas, e algumas pessoas possam discutir a existência de furos no argumento da série, não há como negar que os fãs continuarão vendo por amor. “La Casa de Papel” é totalmente ridícula, e nós simplesmente não conseguimos parar de ver.

Ingunn Lára Kristjánsdóttir, jornalista de TV, Fréttablaðið (Iceland)

‘PLANETA TERRA’ (‘PLANET EARTH’)

A deslumbrante narração de David Attenborough captura o espírito de “Planeta Terra”, uma série épica com toda a brincadeira, curiosidade e seriedade desse grande apresentador britânico de programas sobre a natureza.

Com a ameaça da crise climática e a extinção em massa de muitas espécies, “Planeta Terra” nos mostra por que vale a pena salvar a natureza, com o público gritando em apoio a uma iguana que tenta fugir de cobras ou uma morsa protegendo seu filhote de um faminto urso polar.

A série inicial (2006) foi filmada num sistema de alta definição (HD) pioneiro, durante cinco anos, e a continuação (2016) levou quase seis. Imagens da produção atrás das câmeras mostrando como algumas das cenas mais difíceis foram filmadas torna a magia ainda maior.

Enquanto muitos programas de TV levam à introspecção, Planeta Terra pediu a seu público que olhasse para fora, para ver um mundo cheio de maravilhas que precisam ser celebradas.

Leila Latif, jornalista da área de TV (Reino Unido)

‘ORANGE IS THE NEW BLACK’

Tradicionalmente, nós —os espectadores— estamos acostumados a ver homens na prisão. Especialmente aqueles homens maus cheios de tatuagem, prontos a fazer arruaça, que se tornam ainda mais brutos devido às duras condições de vida dentro do sistema prisional.

Por isso “Orange Is the New Black”, com seu foco num grupo variado de prisioneiras, do sexo feminino, caiu como um sopro de ar fresco.

A série também era admiravelmente sutil e equilibrada: não havia personagens boas ou más, apenas pessoas de verdade. Apesar das mudanças no comando —vários diretores estiveram envolvidos no projeto— , a série de sete temporadas nunca sai dos trilhos ou deixa a fundação em que é baseada.

O programa também ajudou a incentivar o diálogo em torno de injustiças político-sociais predominantes nos Estados Unidos, que também são relevantes para outras partes do mundo, e ousou falar sobre a vida numa unidade do ICE (centro de imigração dos EUA).

“Orange” ainda abriu caminho para personagens mais complexos do sexo feminino, de todos os tipos —quem quer que sejam, quaisquer que sejam os “pecados” que tenham cometido.

Pallabi Purkayastha, jornalista do setor digital, WION (Índia)

‘A ESCUTA’ (‘THE WIRE’)

“A Escuta” nunca deixou de ter ambição. Seu enfoque, e a forma como nós, espectadores, ainda a experimentamos, era tanto pessoal como política, grande e pequeno, enquanto buscava uma verdade não pronunciada e ainda conseguia nos fazer rir, chorar e sorrir. Foi uma série que informou e entreteve.

Aqui, como em todo grande show, o texto era interligado com os atores. Nós nos importávamos com todo rosto que aparecia, mesmo que fosse brevemente, e imaginávamos o que acontecia com eles depois que David Simon e Ed Burns focavam suas lentes em algum outro lugar.

“A Escuta”, assim como “Os Sopranos”, é o padrão de referência para grande televisão no século 21. Até hoje, seu estilo novelístico de contar uma história ainda não foi superado, apesar de muitos terem tentado. Também é, e provavelmente talvez sempre seja, a série mais humana já produzida.

Mattias Bergqvis, jornalista da área de TV, jornal Expressen (Suécia)

‘STEVEN UNIVERSE’

É difícil dizer se alguém poderia ter previsto que um desenho de criança, sobre um menino mágico que sai em aventuras com alienígenas, se tornaria uma das mais emocionantes explorações sobre gênero, colonialismo e trauma da nossa era.

Mas, de alguma forma, “Steven Universe” conseguiu transcender suas origens e construir uma mitologia tão vasta que capturou a imaginação tanto de adultos como de crianças. A série, às vezes um musical, oferece breves lições sobre amor e bondade em episódios curtos, de 11 minutos de duração.

O personagem principal trouxe otimismo e honestidade à teia de destruição geracional que ele tinha como missão encerrar. O amplo elenco do programa levou ao surgimento de metáforas perfeitas para todo tipo de coisa, de autonomia corporal e consentimento a depressão, ansiedade e amor não correspondido.

Enquanto Steven crescia, a temática do show crescia com ele, lidando com sentimentos difíceis da adolescência e da vida adulta e a necessidade de passar por cima de ferimentos do nosso passado.

Enquanto as aventuras continuaram num filme musical e numa série final, é a produção original, de cinco temporadas, que é o coração e a alma do caráter progressista do programa, em torno do valor de relações gays, família e o poder transgressor do amor incondicional.

Catherine Young, crítica freelancer de cinema e cultura (Trinidad e Tobago)

‘GREY’S ANATOMY’

Com “Grey’s Anatomy”, Shonda Rhimes não apenas deu à luz o drama médico mais duradouro da história da TV em horário nobre, mas nos presenteou com uma série que verdadeiramente definiu uma cultura.

Nós derramamos muitas lágrimas por causa das bastante dramáticas mortes dos nossos personagens favoritos e vibramos com os triunfos dos médicos do Grey Sloan Memorial Hospital, com cada vida que eles salvavam ou crise que eles controlavam.

As fortes mulheres apresentadas na tela reinaram, temporada após temporada. Meredith Grey (Ellen Pompeo), Cristina Yang (Sandra Oh) e Miranda Bailey (Chandra Wilson) abriram o caminho para tantas outras seguirem e foram um farol de esperança para futuras protagonistas formidáveis do sexo feminino.

Eu nunca vi uma amizade na TV tão forte e admirável quanto a entre Meredith e Cristina. A diversidade e a inclusão também sempre tiveram destaque em Grey’s —algo que fez da série uma pioneira quando surgiu, em 2005— , enquanto suas tramas transmitiam poder a quem não tinha e abriam diálogos a respeito de violência doméstica, problemas de saúde mental e outras questões.

A série sempre esteve à frente de seu tempo, e por isso se consolidou como um fenômeno pop-cultural. Nós crescemos com Grey’s como um cobertor de conforto, e —numa forma dramática ao estilo de Grey’s— eu estou me preparando para a perda inimaginável quando o programa for encerrado.

Marriska Fernandes, crítica de cinema e TV freelancer (Canadá)

‘THE KILLING’

Francamente, o título original dinamarquês, “Forbrydelsen” —tente pronunciar isso três vezes seguidas— soava muito melhor que “The Killing”. Ainda assim, essa série policial dinamarquesa era muito mais que uma investigação sobre alguns assassinatos.

Todas as suas três temporadas tinham múltiplas camadas e eram extremamente dramáticas, mesmo quando tratavam de política e economia na Dinamarca.

“The Killing” crescia dentro do espectador como uma floresta cheia de segredos. Não apenas Sofie Gråbøl faz uma fascinante interpretação da detetive Sarah Lund, a mulher com um estranho gosto por malhas coloridas, mas as viradas nas tramas eram pioneiras em sua complexidade para uma série desse tipo.

O escritor Søren Sveistrup levou o roteiro para televisão para um novo nível. “The Killing” tornou-se um padrão de referência para futuras séries policiais, mas esse tipo de excelência foi raramente igualada por suas sucessoras.

Ab Zagt, jornalista da área de TV, do jornal Algemeen Dagblad (Holanda)

’24 HORAS’

O século 21 mal havia começado quando “24 Horas” foi transmitida, em 2001, primeiro nos Estados Unidos, em seguida em outras partes do mundo. Menos de dois meses antes, ocorreram os atentados de 11 de setembro daquele ano, e terrorismo tornou-se uma obsessão (e uma aflição), tanto na ficção como na vida real.

Para o bem ou para o mal, a série criada por Robert Cochran e Joel Surnow rapidamente tornou-se um vício. Atrás dela havia uma fórmula inovadora: a ideia de um evento apresentado em tempo real, em que cada série de 24 episódios mostra uma hora de um único dia na vida do agente especial interpretado por Kiefer Sutherland, da Unidade Antiterrorista (CTU) de Los Angeles.

Não parece emocionante o suficiente? Tente imaginar uma corrida explosiva de alta tecnologia de 45 minutos a cada semana, em que nenhum personagem está totalmente a salvo e que sempre nos leva a um momento de suspense no final de cada hora.

Carlos Helí de Almeida, jornalista das áreas de cinema, TV e artes do jornal O Globo (Brasil)

‘O CONTO DE AIA’

Poucas séries tiveram a perturbadora ressonância social e política de “O Conto da Aia”. A visão distópica do Estado patriarcal Gilead, que escraviza mulheres férteis, forçando-as a ter filhos para seus chamados Comandantes, criada por Margaret Atwood em 1985, caiu como um alerta futurístico sobre ameaças aos direitos das mulheres.

Quando o drama baseado nesse livro chegou, em 2017, pareceu perigosamente perto da realidade de um mundo flertando com o autoritarismo. A vestimenta das aias, com um manto vermelho e uma longa boina branca, tornou-se um emblema, vestido como protesto em marchas reais de mulheres em vários países, especialmente nos Estados Unidos, onde direitos ao aborto estão cada vez mais ameaçados.

A série não dialogaria tão diretamente conosco se não fosse ricamente imaginada, em sua narrativa sobre June (Elisabeth Moss), a feroz aia determinada a resistir a Gilead, e em seu figurino deslumbrante baseado em códigos a partir de cores, com o azul para as mulheres dos Comandantes, marrom para as Tias vira-casacas como Lydia (Ann Dowd), que serve ao Estado e oprime outras mulheres.

A televisão sempre revela alguma coisa sobre o que somos. “O Conto de Aia” vai além, para expor umas verdades essenciais sobre a cultura, nossas esperanças e nossos piores medos.

Caryn James, crítico da BBC Culture (Estados Unidos)

‘INSECURE’

Ao criar e desenvolver “Insecure” para a HBO, Issa Rae mudou o panorama da televisão moderna como a conhecemos. O que começou como uma série para a web e memórias, “The Mis-adventures of Awkward Black Girl” (As Desaventuras da Garota Negra Esquisita), cresceu para virar um cartão de visitas para Era, que fez história em Hollywood como a primeira mulher negra a escrever e atuar numa série de TV a cabo em horário nobre.

As “desaventuras” de sua personagem em “Insecure” —incluindo seu relacionamento de idas e vindas com seu namorado Lawrence e seu desejo de encontrar realização pessoal no trabalho— refletiu a complexa experiência de millennials do sexo feminino e negras, enquanto, na sua essência, o programa também nos ofereceu um assento de primeira fila para acompanhar a envolvente dinâmica entre Issa e sua melhor amiga, Molly.

A luz e a sombra dessa relação desenvolveu-se ao longo da série, até a quarta temporada, quando nos encontramos questionando se elas vão conseguir ou não. Assim como foi notado por críticos, “Insecure” é a resposta desta geração a séries como Living “Single” e “Girlfriends”, atualizada para nossos tempos de sexting e viagens de uber.

E faz isso de maneira deslumbrante, com um impressionante sentimento cinematográfico, e uma trilha sonora que pulsa em homenagem a uma Los Angeles culturalmente variada.

Nadia Neophytou, jornalista freelancer (Estados Unidos)

‘I MAY DESTROY YOU’

Por meio de uma produção habilidosa e uma ousadia direta, “I May Destroy You” é uma representante perfeita deste século na televisão e na cultura.

Durante 12 episódios, Michaela Coel desfralda uma história estonteante sobre o que acontece com uma pessoa após um ataque sexual, como o mundo moderno amplifica e torce nossos pensamentos mais íntimos e os transforma em nós e por que pode ser tão difícil de compreender as nuances de sua própria vida, mesmo quando você a está vivendo.

Como imagens vívidas, piadas maliciosas e interpretações inteligentes de Coel, Weruche Opia e Paapa Essiedu, “I May Destroy You” é o melhor que a TV poderia oferecer.

Caroline Framke, crítica-chefe de TV da revista Variety (Estados Unidos)

‘FLEABAG’

Baseada num monólogo que Phoebe Waller-Bridge apresentou pela primeira vez no palco, a série de TV “Fleabag” pegou as melhores partes do conceito original uma mulher com todos os seus defeitos e falhas à mostra —e as ampliou.

Isso acrescentou mais nuances nos outros personagens e abriu espaço para que “Fleabag” pudesse existir. Quando Waller-Bridge rompe a imaginária parede que separa seu personagem do público espectador, compartilhando conosco seus pensamentos íntimos e piadas que ficam apenas entre ela e o público, ela nos trouxe para ainda mais perto.

Sim, ela disse coisas brutais e nos contou ser pervertida e egoísta, mas mesmo assim nós enxergamos nela pequenos aspectos de nós mesmos. Ela admitiu coisas que nós não tínhamos visto ninguém admitir na televisão antes. Disse abertamente as coisas que nos fazem sentir

‘THE OFFICE’ (REINO UNIDO)

Eu cresci vendo séries de TV humorísticas britânicas como “Some Mothers Do ‘Ave ‘Em”, que era muito popular na Nigéria. A mistura de sagacidade, sarcasmo e autodepreciação do humor britânico sempre me atraiu —e a mais atraente série de todas, em tempos recentes, foi “The Office”, em que um maluco David Brent dá o tom de um programa que oferece comédia de ouro com humor íntimo.

É possível se identificar com “The Office”, já que muitos de seus personagens nos lembram pessoas com quem já trabalhamos ou chefes que já tivemos, e é por isso que a considero uma grande série.

O estilo de “documentário-gozação” adiciona uma dose extra de realismo que nos atrai ao mundo da empresa de papel Wernham Hogg —e sua versão dos Estados Unidos tornou-se um dos melhores programas da TV americana de todos os tempos.

Ayomide Tayo, jornalista da área de TV, Opera News (Nigéria)

‘GIRLS’

Quase uma década depois de seu piloto ter sido transmitido na HBO, “Girls”, criada e estrelada por Lena Dunham, é uma curiosa cápsula do tempo. O programa foi elogiado pela forma sincera como retratou sexo, dinheiro e trabalho.

Fez de Dunham, como diz sua protagonista Hannah Horvath, a voz de sua geração —ou, pelo menos, uma voz de uma geração. Mas a série também foi amplamente criticada por sua brancura e sua “WASPiness” (foco em americanos brancos anglo-saxões protestantes).

Girls nunca teve como objetivo ser um retrato amplo de mulheres millennials. Era uma sátira sobre o privilégio branco e o egotismo do século 21. Mas, porque também era uma das poucas descrições semirrealistas da vida urbana da geração Y, os espectadores esperavam algo que a série nunca esteve disposta a oferecer. Essa falha de comunicação, exacerbada por várias artigos de opinião instantâneos, manchou o legado de “Girls” injustamente.

Vendo “Girls” hoje, é mais fácil apenas desfrutar de seu soberbo roteiro, uma emblemática escolha de músicas e o futuro astro Adam Driver em sua versão mais desagradável. Ela também abriu caminho para outras vozes representando gerações. Será que teríamos “I May Destroy You”, “Fleabag” ou “Master of None” se não tivesse sido por Hannah Horvath jogando ping-pong de topless? Acho que não.

Anton Vanha-Majamaa, jornalista da área de TV freelancer (Finlândia)

‘GAME OF THRONES’

Dragões. Rei loucos. Sanguinolência —e uma história emocionante de reinos conquistados e perdidos. “Game of Thrones” nos manteve de olhos ligados na TV por oito anos, ao longo de oito longas temporadas, durante as quais a história do Trono de Ferro e as famílias desestruturadas que afirmavam ter direito a ele nos mantiveram fascinados com suas manobras.

Na Nigéria, nós ficávamos acordados até as 2h da manhã para ver os episódios de estreia das novas temporadas.

Game of Thrones redefiniu a televisão, aparecendo depois de várias incríveis séries de prestígio. Mas tinha algo a mais. Tinha peso. Tinha seriedade. Era épica, espetacular e grandiosa.

Como uma crônica de nobres e pessoas comuns, lealdade cega e trapaças, ambições alardeadas e fracassos épicos, romance e amor proibido, “Game of Thrones” poderia ser comparada com Shakespeare misturado com “A Noite dos Mortos Vivos” e “O Dia Depois de Amanhã”, uma fantasia pós-apocalíptica mascarada de drama histórico. Também foi uma sublime experiência cinemática com apelo global de massa.

Toni Kan, escritor e crítico de cultura do site thelagosreview.ng (Nigéria)

‘POSE’

“Pose” é mais que apenas um programa de TV. Como a primeira série a verdadeiramente celebrar mulheres trans negras, apenas sua existência faz dela uma declaração vital, que tem mais poder de mudar o mundo que talvez qualquer outro programa desta lista.

Como Blanca e as outras queers pioneiras nessa história, Steven Canals, co-criador de “Pose”, enfrentou rejeições o tempo todo para criar um espaço seguro para espectadores LGBTQ+ que nunca haviam visto antes eles mesmo refletidos na tela. “Você precisa brilhar tão forte lá fora para que eles não possam te negar”, diz Blanca.

Pose nos ensinou como fazer exatamente isso: viver nossa verdade, triunfar como pessoas queer, porque o tipo certo de representação não apenas ajuda grupos marginalizados a se sentir vistos. Pode inspirar pessoas a viver suas próprias verdades, mesmo diante de esmagadora adversidade. E, nas circunstâncias corretas, séries como “Pose” podem até mesmo salvar vidas.

David Opie, jornalista da área de TV, Digital Spy (Reino Unido)

‘BOJACK HORSEMAN’

À primeira vista, é fácil descartar o aparentemente simples, estranho e animado mundo de Hollywood. Se você é como eu, os primeiros episódio foram difíceis. BoJack não é nem charmoso nem agradável — e eu preciso vê-lo por seis temporadas?

Sim, você precisa, e não apenas você vai ver um homem adulto (ou cavalo) jogar sua vida fora ao sair do controle e cair num inevitável abismo de solidão, mas você também vai amar cada segundo. Goste ou não, “BoJack Horseman” força você a questionar sua própria moralidade com o tocante cuidado de uma ex.

BoJack me lembrou minha experiência numa montanha-russa: eu, sem saber o que estava para vir, escolhi entrar, e assim que começou, gritar ou chorar, não importa quanto, não me tiraria dali antes do fim. E então eu comprei outro ingresso.

Daniel Tihn, jornalista da área de TV, jornal The Times of Malta (Malta)

‘THE THICK OF IT’

O começo do novo século foi marcado por uma hedionda tendência de “novo otimismo” na comédia americana, em que uma redenção espiritual estava disponível até mesmo àqueles que menos mereciam.

No lado oposto do espectro estava “The Thick Of It”, a sátira britânica ácida de Armando Iannucci, cuja premissa central era de que todos envolvidos no governo eram idiotas desprezíveis interessados apenas em sua própria preservação.

Mostrando sempre formas inventivas pelas quais políticos sem poder e funcionários público inúteis podem criar crises monumentais a partir de coisa insignificantes, a série fez de Peter Capaldi um astro (anos depois de ele ter ganhado um Oscar por um curta-metragem que ele dirigiu), cujo mordaz assessor de comunicação Malcolm circulava de freneticamente em Westminster como um Godzilla vociferando palavrões. Qualquer crença na política era repreendida de forma certeira e convicta.

Ali Arikan, crítico de cinema freelancer (Turquia)

‘BLACK MIRROR’

“Black Mirror” tornou-se um fenômeno cultural mundial numa era dominada por dramas em série que nos fazem assistir um episódio atrás do outro por horas —um feito significativo para um programa antológico definido por temas, em vez de arcos narrativos contínuos.

As tramas especulativas e provocativas da criação de Charles Brooker, juntamente com interpretações fantásticas, fizeram do programa um sinônimo das ansiedades ligadas ao progresso tecnológico —e sublinhando a série está sempre presenta a pergunta: “Será que fomos longe demais?”.

Entretanto, os verdadeiros monstros em “Black Mirror” tendem a não ser as máquinas, mas os seres humanos, que encontram novas ferramentas para abusar de outros humanos. Apesar de um certo desequilíbrio em qualidade nas últimas temporadas, “Black Mirror” capturou verdadeiramente o espírito geral em relação aos nossos medos a respeito do presente e do futuro.

José Gonzalez Vargas, jornalista de TV freelancer (Espanha)

‘SMALL AXE’

A série antológica de filmes de Steve McQueen, sobre os esforços e as celebrações dentro da comunidade negra das Índias Ocidentais em Londres, entre 1962 e 1981, já era necessária havia muito tempo, mas chegou no final de 2020 como um estudo histórico sensorial e produzido com respeito.

Os capítulos com duração de longa metragens lidou com identidades da época tanto conhecidas como desconhecidas, de Frank Crichlow, cujo restaurante The Mangrove foi alvo de ações policiais motivadas por racismo que acabaram num emblemático caso na Justiça, aos habitantes de uma pista de dança numa festa caseira nebulosa e inebriante, cuja noite culmina numa eufórica interpretação de Silly Games, de Janet Kay.

McQueen é um mestre de tom e detalhe e, por meio de sua visão inconfundível, garante que tanto triunfo como tragédia sejam exibidos por toda a série, em que trabalhou com o supervisor musical Ed Bailie e seus co-criadores para encher a antologia com uma trilha sonora incomparável. Por meio desse trabalho meticuloso, o diretor criou algo incendiário.

Beth Webb, jornalista da área de TV, de Empire, Pilot TV e NME (Reino Unido)

‘CALL MY AGENT!’ (‘DIX POUR CENT’)

A brilhante série de TV francesa “Call My Agent!” (“Dix Pour Cent”, no original francês) é a fusão perfeita do glamour da indústria cinematográfica com as vidas de agentes dedicados, trabalhando duro por trás das câmeras.

Esses agentes genuinamente se importam com seus clientes e seus projetos, o que é exatamente a razão pela qual essa série se destaca. Soma-se a isso o fato de que seus clientes, que são alguns dos mais conhecidos atores da França, estão deliberadamente tirando sarro de si mesmos, abraçando totalmente sua reputação e levando-a a extremos ridículos.

A sagacidade aqui não é baseada em referências, mas sim em situações e personagens, e é por isso que a série transcende fronteiras com tanta facilidade.

Sua influência reflete-se nas múltiplas versões que têm aparecido mundo afora. Evitando cinismo, a série habilmente equilibra humor crítico, conceitos errados e infelizes e comédia pastelão —e, sendo um produto da França, há farsa também. Essa rara e entusiasmada mistura é uma ardente carta de amor ao cinema e sua indústria.

Tara Karajica, jornalista de TV e cinema, Fade to Her (Sérvia)



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original



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