Ano de 2021 representa um marco no programa espacial chinês – 23/12/2021 – Tatiana Prazeres

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Palácio Celestial. Assim se chama a estação espacial que a China começou a construir neste ano, com conclusão prevista para 2022. O Palácio Celestial —Tiangong, em mandarim— é muito menor que a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), mas as ambições do programa espacial chinês não são nada modestas.

Em 2020, uma sonda chinesa retornou à Terra trazendo amostras do solo da Lua. Também no ano passado, os chineses colocaram em funcionamento o BeiDou, um sistema de navegação por satélite que rivaliza com o conhecido GPS.

O ano de 2021, por sua vez, representa um marco no programa espacial chinês, com o início da construção do Palácio Celestial (além do pouso de uma sonda em Marte). Neste momento, em órbita, há três taikonautas, incluindo uma mulher, despachados em setembro para um período recorde de seis meses fora da Terra. Ajudarão a construir a estação espacial, entre outras tarefas.

Para Pequim, a decisão de contar com uma estação espacial própria teve um catalisador poderoso. Em 2011, os EUA baniram a China de participar da ISS, um empreendimento que envolve agências espaciais de diferentes países e que há 21 anos garante presença humana contínua no espaço. Nesta semana, por exemplo, um russo e dois japoneses regressaram da ISS.

Há dez anos, o Congresso americano, movido por segurança nacional, aprovou a chamada emenda Wolf, pela qual a Nasa, a agência espacial americana, foi proibida de usar fundos para conduzir qualquer atividade científica com a China. Contribuíram para isso a preocupação com as aplicações militares do programa espacial chinês, sua pouca transparência e o receio de que a cooperação acelerasse o desenvolvimento científico e tecnológico da China.

Impossibilitada de participar da ISS, a China apostou então em seu Palácio Celestial. Promove-o como uma iniciativa aberta à cooperação internacional e potencialmente a astronautas estrangeiros. Os três taikonautas hoje a bordo da Tiangong viabilizam experimentos científicos de 17 países, em áreas como biotecnologia, astronomia e física.

A ISS, ademais, está com seu prazo de validade vencendo. A Tiangong acaba servindo de incentivo para que os EUA sigam investindo em manutenção e reparos da ISS, sob pena de que a única estação espacial em funcionamento seja a chinesa.

Passada uma década da emenda Wolf nos EUA, a pergunta que fica é se o efeito não foi o de reforçar o programa espacial chinês —o contrário do que se pretendia (a experiência, aliás, faz pensar se esse não será o resultado das atuais restrições americanas ao acesso chinês a semicondutores avançados).

A colaboração, com todos os riscos, poderia ter acelerado avanços científicos importantes e, principalmente, facilitado a definição de novas regras internacionais para o espaço, o que cresce em importância diante do progresso tecnológico nessa área. Hoje a possibilidade de novos entendimentos parece mais remota, com desconfiança mútua em alta e duas estações em órbita.

Por mais que as comparações com a Guerra Fria incomodem, é irresistível lembrar que, nos anos 1970, EUA e URSS tinham mais cooperação na área espacial do que EUA e China hoje. A atual ISS conta com um segmento americano e outro russo. Não deveria ser impossível encontrar um modus vivendi com os chineses.

Metas de longo prazo do programa espacial chinês incluem missões tripuladas e o estabelecimento de uma base com presença humana na Lua, além de missões robóticas para Marte. Há também planos para Júpiter e para a construção de um veículo espacial de 1 km de extensão. Empresas chinesas também estão entrando no circuito, com satélites e foguetes lançadores.

Em 2022, a rivalidade na Terra continuará a ter repercussões no espaço.


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