Análise de celular de delegado preso revela cobrança de propina para não prender e armação de operações falsas, diz MP | Rio de Janeiro

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O Ministério Público do Rio de Janeiro analisou o conteúdo de celulares de um delegado preso por corrupção, em junho. As mensagens de Maurício Demétrio, da Polícia Civil do Rio, revelam que ele negociava o pagamento de propina para mudar o resultado de investigações. E que também usou a estrutura da polícia para tentar armar falsas operações.

Na quarta-feira (22), o MP deflagrou a segunda fase de uma operação em que o principal alvo é o delegado.

Demétrio foi preso na primeira etapa da operação, acusado de chefiar uma quadrilha que ameaçava e cobrava propina de comerciantes da rua Teresa — tradicional ponto de comércio popular de roupas, em Petrópolis, na Região Serrana do RJ.

Na época, a polícia encontrou no apartamento dele R$ 225 mil em dinheiro vivo, e três carros de luxo blindados, além de 12 celulares.

O conteúdo de alguns desses aparelhos revelou novos crimes e levou a novas acusações contra Demétrio. Até agora, apenas os conteúdos de dois ou três telefones foram analisados.

Entre os crimes praticados e revelados pelos aparelhos em poder dos promotores, Maurício cobrava propina para atrapalhar investigações da própria polícia, para não prender suspeitos, forjava provas e negociava dados pessoais de autoridades.

“Falei com os caras lá, o amigo lá de sábado, ele falou que já vai tirar a VTR de lá, tá? Vê aí, entendeu? Qual o tamanho a amizade”, diz Maurício em um dos áudios investigados e usando a palavra amizade para se referir a dinheiro.

“Pelo contexto que existe é um código utilizado por ele pra se referir a propina”, diz o promotor Bruno Gangoni, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Em outro áudio, o delegado diz:

“Eu falei 250 (mil), entendeu? O negócio é fechar, que aí a gente senta e vê uma fórmula. E não pede a prisão do cara, só indicia”.

A negociação não se restringia aos locais onde o delegado atuava. A investigação descobriu que Maurício Demétrio cobrava propina até mesmo em nome de delegacias nas quais ele não trabalhava.

“Se quiser fazer lá amizade, é pra fazer agora, entendeu? Tá resolvido. Se por acaso vier alguma ordem de MP, alguma coisa, eles avisam o que é”, diz sobre outra unidade policial.

“Agora, sapato total, né? Eu sei que tu não é de bobeira, mas avisa lá que não é pra ficar gritando aos quatro ventos que fechou arrego com a Draco”, diz em outro áudio sobre a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado.

Dados de autoridades eram negociados

Com a nova fase da operação, o Ministério Público prendeu outro policial que atuava com Demétrio: Adriano Santiago da Rosa.

“O que se descobriu nessa nova fase da investigação foi que Maurício Demétrio utilizando-se de policiais sob a sua responsabilidade, inclusive Adriano, que foi denunciado nessa nova fase, fazia uso abusivo dos sistemas de consulta da Polícia Civil”, diz a promotora Juliana Amorim.

Na denúncia, os promotores afirmam que o delegado determinou que seu subordinado fizesse um levantamento ilegal de dados restritos de inúmeros cidadãos, entre eles autoridades e seus familiares.

Uma das vítimas foi o ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio, o desembargador Luiz Zveiter e sua esposa.

Glauco Costa Santana, filho da promotora Gláucia Santana, atual chefe de gabinete do procurador-geral de Justiça do Rio, também deve dados levantados.

Luís Zveiter preferiu não comentar a ação dos criminosos contra ele. A promotora Gláucia Santana também não quis comentar.

O Fantástico não conseguimos contato com a defesa de Adriano Rosa.

Além de criar dossiês com dados sigilosos, os promotores acusam Maurício Demétrio de ter tentado armar duas operações falsas.

Em uma delas, plantaria drogas em um carro usado por policiais da Corregedoria que tinham aberto uma investigação contra ele. Em outra, a ideia era influenciar o resultado das últimas eleições.

Poucos dias antes do segundo turno das eleições municipais, Maurício Demétrio levou a um delegado da Polícia Federal a informação de que, no dia seguinte, um portador não identificado entregaria grande quantidade em dinheiro ao então candidato Eduardo Paes.

Nas mensagens, Demétrio mandou uma foto do suposto envelope que seria entregue, cheio de notas de R$ 50 e de R$ 100.

Os promotores descobriram que foi o próprio Maurício Demétrio quem tirou a foto com um dos seus 12 telefones celulares, e que ele estava tentando armar uma operação falsa.

Em depoimento, o delegado da Polícia Federal diz que desistiu da operação ao saber quem era a fonte.

Paes, do PSD, foi eleito e está em seu terceiro mandato como prefeito do Rio. O Fantástico procurou Eduardo Paes, mas ele preferiu não comentar a operação falsa dos criminosos contra ele.

Após a publicação da reportagem, o prefeito fez uma série de postagens em redes sociais.

“Mais um vagabundo travestido de ‘Estado’ e defensor da lei (…) Tenho certeza que nossa secretaria de Governo e Integridade pública através do secretário @caleromarcelo vai reaver esse dinheiro para os cofres públicos. Eles são fracos e corruptos. Usam o Estado e o cargo que tem para fraudar o processo político e difamar seus adversários. Mas eles não passarão. Vagabundos! Delinquentes!”, escreveu.

O Ministério Público também conseguiu provas de que Maurício Demétrio tinha uma vida de luxo e completamente incompatível com seus ganhos como delegado.

Segundo o portal da transparência, antes de ser preso, Maurício Demétrio recebia R$ 28 mil brutos por mês. Mas as mensagens encontradas no celular dele mostram que ele gastava bem mais do que isso.

“Seu Maurício, boa tarde. Ficou faltando num dos bolinhos de 30 mil, ficou faltando 600 reais”, diz uma mensagem de áudio enviada pela recepcionista de um resort de luxo em Mangaratiba, na Costa Verde do Rio, que, segundo a polícia, não conhecia a origem do dinheiro.

“Ele levava uma vida completamente incompatível com os ganhos lícitos dele. Esse dinheiro muito provavelmente era das atividades ilícitas que ele desenvolvia na organização criminosa por ele liderada”, diz a promotora Roberta Laplace.

Era com dinheiro vivo que Demétrio pagava também os carros de luxo e as viagens internacionais. Para o funcionário de uma agência de turismo, ele afirmou:

“Amanhã papai leva 75” – numa referência a R$ 75 mil em espécie.

Maurício Demétrio responde pelos crimes de organização criminosa, obstrução de Justiça, concussão – que é a cobrança de propina – , lavagem de dinheiro e violação do sigilo funcional.

Em nota, o advogado de Maurício Demétrio disse que o delegado nunca foi chamado pelo Ministério Público para esclarecer quaisquer fatos.

A Secretaria Estadual de Polícia Civil disse que os fatos investigados ocorreram antes da atual gestão e que a corregedoria acompanha o processo criminal do investigado.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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