Amazônia: 20 mil kg de carne no churrasco do fim do mundo – 13/05/2022 – Cozinha Bruta

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Não rolou recorde porque os inspetores do livro Guinness tinham mais o que fazer. Assim, o “maior churrasco do mundo” ficou só no gogó de Darci Lermen (MDB), o prefeito de Parauapebas, no Pará.

Na terça-feira (10), algo como 20 mil quilos de costela de boi foram assados em um galpão, no estilo fogo de chão –com o espeto fincado no solo, ao lado de uma fogueira. O pretexto do festival era o 34º aniversário da cidade.

O número 34 está longe de ser redondo, nem meia dezena é. Que cidade move mundos para comemorar 34 anos? São Paulo, que é a maior do país, só faz festa grande de verdade quando tem centenário.

Os motivos da orgia do costelão ficam menos turvos se examinarmos o contexto.

Parauapebas se tornou município em 1978, durante a ditadura que agora querem ressuscitar. Os militares de então –assim como os atuais– eram obcecados pela ocupação da Amazônia, que julgavam ser alvo de cobiça dos países ricos.

Ocorre que povoar uma área de floresta densa é difícil demais. As árvores atrapalhavam a missão. O jeito foi derrubá-las para extrair madeira e dar lugar à mineração em escala titânica, à monocultura mecanizada e à pecuária extensiva.

Antes de voltarem temporariamente para a casinha, digo caserna, os milicos concluíram tal tarefa com formidável sucesso em três franjas da Amazônia brasileira: Rondônia, norte de Mato Grosso e a porção sul-oriental do Pará, onde fica Parauapebas.

A cidade só existe por causa da serra dos Carajás, a maior reserva de minério de ferro do mundo, explorada pela Vale. A companhia pagou, em royalties e verbas compensatórias, R$ 1,4 bilhão ao município em 2021.

Assim, Parauapebas tem o terceiro PIB per capita do Pará e o 29º do Brasil. Já a qualidade de vida não é aquelas coisas: no ranking nacional do IDHM, que mede o desenvolvimento humano, a cidade ocupa a 1.454ª posição.

“Mais de metade da cidade não tem esgotamento sanitário e 80% das vias públicas não são urbanizadas”, escreveu no Twitter o jornalista Maurício Angelo, do Observatório da Mineração, que “denunciou” a churrascada.

Por que não investir os R$ 338 mil –custo alegado da carne, que um varejista local diz ter doado– em saúde, educação e infraestrutura? Por que a festança? O que há para se comemorar?

Talvez o prefeito queira festejar sua manutenção no poder, mesmo depois de condenado por fazer campanha com dinheiro de fonte obscura. Ele e o companheiro de chapa –de alcunha João do Verdurão– vão permanecer no cargo até a última instância do processo.

A orgia do costelão é uma demonstração de força do grupo que se apossou do poder e ameaça não aceitar uma derrota nas eleições. É afronta e marcação territorial.

É a celebração do enriquecimento de poucos pela destruição do resto. De um projeto que troca a água limpa por minério, a floresta por pasto e as populações nativas por colonos churrasqueiros do Sul. Não é o fogo de chão, é o fogo no chão da Amazônia.

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