Acordo histórico da seleção dos EUA mostra caminho da igualdade – 23/05/2022 – Renata Mendonça

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“Temos que pensar numa campanha para o Dia Internacional da Mulher, algo sobre a desigualdade de gênero”, diz o diretor de marketing à sua equipe. Todos da reunião assentem com a cabeça. Todos homens.

“Vamos fazer algo para a Consciência Negra, falar de racismo, das consequências da escravidão”, ele convoca alguns meses depois. A reposta é 100% positiva. E, de novo, os membros da reunião são 100% homens, 100% brancos.

Eis que chegam ordens superiores para a equipe. Será necessário contratar mulheres e negros para as vagas recém-abertas no departamento. O diretor de marketing e seus colegas contestam: “Que absurdo, não importa a cor ou o gênero, tem que ser competente”.

Competência é o mínimo, claro. Mas será que não percebem que a cor e o gênero importaram bastante para que eles chegassem até esses cargos. Ou seria uma mera coincidência que fossem todos homens e todos brancos? Esse mérito não foi adquirido ou conquistado, foi dado no nascimento.

Não dá para debater meritocracia sem o contexto do ponto de partida.

Nesta semana, a decisão de um acordo histórico envolvendo as seleções norte-americanas de futebol repercutiu mundialmente. Na luta para conseguir igualdade de pagamentos desde 2019, a supervitoriosa seleção feminina entrou na Justiça. E, dentre todos os acordos com a US Soccer (confederação americana de futebol), faltava um aspecto a ser igualado: a premiação da Copa do Mundo.

Isso porque a Fifa paga premiações bem diferentes na Copa do Mundo masculina e na feminina. Uma seleção eliminada na primeira fase do Mundial deste ano ganhará mais do que o dobro (US$ 9 milhões, R$ 43,2 milhões na cotação atual) do valor pago à seleção campeã da Copa do Mundo feminina de 2019 (US$ 4 milhões, R$ 19,2 milhões).

Para igualar os pagamentos, as seleções masculina e feminina dos Estados Unidos concordaram em somar todas as premiações da Fifa e dividir igualmente 90% delas entre jogadores e jogadoras (10% são da US Soccer). Ou seja, os homens abriram mão de ganhar mais num primeiro momento em favor do que julgaram justo –as mulheres serem recompensadas por seus esforços (que por sinal geram resultados muito melhores do que os deles).

Essa notícia fez muitos questionarem: oras, mas a Copa do Mundo masculina gera muito mais dinheiro, então é justo que os homens ganhem mais e ponto, lógica de mercado. A análise é tão óbvia quanto limitada. O contexto onde o futebol masculino se desenvolveu é completamente distinto do observado no futebol feminino, que enfrentou proibição por lei e muita resistência. Um começou há mais de cem anos, o outro passou a ter competições oficiais há pouco mais de 30. Os dois não tiveram o mesmo ponto de partida.

A grande diferença na decisão histórica dos Estados Unidos é que ali eles decidiram não aceitar a desigualdade. E você, o que faz para corrigi-la? Quando você permite que a desigualdade se perpetue, está sendo conivente com ela.

Ao longo de uma década trabalhando no jornalismo esportivo, muitas vezes ouvi colegas receosos com a chegada de mulheres à área. “Acabou de chegar e já conseguiu isso.” Não se dão conta que acabamos de chegar porque tivemos que arrombar as centenas de portas que eles sempre encontraram abertas. Não chegamos convidadas, tivemos que “invadir”. Apenas porque não tivemos o mérito de nascer com “o gênero certo”.

E aí eu pergunto aos que se dizem antirracistas, aliados do feminismo e da luta pelos direitos da população LGBTQIA+: você está disposto a perder privilégios?

Ser aliado é reconhecer que seu privilégio vem acompanhado do sofrimento de outros. Que um mundo com direitos iguais será melhor para todos (não para a minoria, como é hoje). Não são negros, mulheres e gays que precisam se incomodar com racismo, machismo, homofobia. É todo o mundo.

Incomodar-se, nesse caso, é fazer alguma coisa.


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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