A humanidade não deu certo – 01/09/2021 – Jorge Abrahão


Foi um projeto interessante esse de humanidade. Começou há uns 6 milhões de anos e, no decorrer do tempo, teve avanços significativos, culminando há uns 70 mil anos com um “curto circuito” cognitivo, de origem ainda desconhecida, que turbinou o sincronismo de neurônios e aprimorou o inusitado encontro da razão com a emoção. A combinação do acaso com os fenômenos físicos, químicos e biológicos nos favorecia e tudo levava a crer que a partir daí toda a luta pela sobrevivência seria recompensada: doce ilusão.

O trajeto percorrido foi um perrengue, cheio de pedras no meio do caminho, como viria a dizer o poeta um tempo depois: a sacada de andarmos eretos sobre duas pernas (para liberar as mãos e enxergar mais longe); o aumento do volume do cérebro; a criação de ferramentas de pedra; o domínio do fogo; e o trabalho coletivo como mecanismo de sobrevivência diante de um ambiente inóspito e agressivo, foram processos fundamentais que nos levaram em tempo recorde ao topo da cadeia alimentar.

Sem o devido tempo para trabalhar nossos medos e ansiedades, pouco maduros, passamos a bater no peito e a gritar mais alto, como se fossemos donos do mundo. E fomos nos isolando de tudo, especialmente da natureza e da comunidade de vida que nos gerou. É aí que mora o perigo.

Corta!

Mais recentemente, nos últimos cem anos, dobramos a expectativa de vida, criamos aparelhos tecnológicos que nos iludem e fascinam, bombas nucleares, transcendemos os limites do planeta chegando a Lua e acabamos de construir brinquedinhos para navegar no espaço pilotados por dois ou três bilionários que acham graça em posar de super-heróis da extravagância.

Seria mais barato, mais útil e profundo ouvir “Terra”, do Caetano, que nos faz viajar ao espaço sem precisar embarcar nestas geringonças fálicas. A questão de fundo, como nos alertaram os cientistas, é que desenvolvemos muito a habilidade do fazer e pouco a capacidade de compreender. Compreender o impacto de nossas descobertas. Compreender a essência desta raríssima oportunidade de experimentar vida e preservá-la para que as futuras gerações tenham também sua chance.

O que não dava para imaginar é que nossas fragilidades emocionais fossem preponderar e ditar o futuro sem a mediação do bom senso, tornando-nos reféns de um modo de vida excludente, depredador e violento. Promovemos guerras que mataram dezenas de milhões de pessoas e geraram um grande trauma. E seguimos usando esse recurso no século 21, mesmo sabendo que é pouco efetivo e gerador de injustiças (vide Afeganistão, Iraque e Líbia). Coisa dos humanos autodenominados sapiens.

Teimosos que somos, não demorou muito para nos encontrarmos com as crises produzidas por um modelo de vida que se tornou refém do mercado e que não vê limites para a expansão de consumo em um planeta com recursos naturais finitos.

Hoje, estamos diante de uma crise climática que coloca em risco a sobrevivência da espécie humana e a ficha não cai mesmo diante de enchentes inusitadas, secas alucinógenas, incêndios estratosféricos e crise hídrica amedrontadora. O negacionismo e os mecanismos de escape dão de goleada na ciência e os filósofos da abundância —que justificam o modelo pelos ganhos proporcionados— têm mais espaço do que os da escassez, que apontam os riscos dos impactos do modelo.

Do ponto de vista social, desde que há 10 mil anos deixamos de viver perambulando como nômades caçadores-coletores e decidimos parar em lugares que depois viemos chamar de cidades, fomos incapazes de resolver problemas como a pobreza e a desigualdade. Mesmo com toda a riqueza e a tecnologia geradas, a maioria da população mundial ainda é pobre. O que, além de inconcebível, é a prova de nosso fracasso coletivo. Dedicamos recursos e energia a temas supérfluos e deixamos de lado o que é essência. O que só evidencia que nossos desafios ainda são mais analógicos do que digital, mais políticos do que tecnológicos.

Até que nos encontramos com um vírus que nem enxergamos e que nos deixa presos e amedrontados: a crise sanitária não deixa dúvida de nossa insensatez. Enquanto nos países ricos aproximadamente 60% da população está vacinada com duas doses e começam a aplicar a terceira dose, na África, onde vivem 1,2 bilhão de pessoas, somente 3% receberam as duas doses, ou seja, 20 vezes menos.

Isso mesmo sabendo que a pandemia não será resolvida se as variantes continuarem surgindo, seja onde for. O olhar individual prepondera. Somos incapazes de pensar coletivamente. Diante dessa incoerência a OMS (Organização Mundial da Saúde) faz apelos que unem argumentos moral e técnico, mas não é ouvida pelos tomadores de decisão mais preocupados em responder para as suas bases e a interesses imediatos.

Tudo leva a crer que, superada a crise sanitária, voltaremos ao mesmo modo de vida que gerou a pandemia, sem perceber que estamos em uma espiral de crises sucessivas, cada vez mais graves. O certo é que o modelo hegemônico nos dias de hoje nos reduziu e está nos levando a uma encruzilhada. O que no início tinha um potencial espetacular ruiu, se desfez em pedaços e fez com que ficássemos reduzidos ao nosso quadrado, pensando no curto prazo e apartados da natureza. O que poderia ter sido, não foi.

Não que não haja tempo para mudar. Tempo há, mas o retrospecto, as tendências, a limitação das lideranças, a inteligência artificial, a internet das coisas e as viagens espaciais evidenciam que somos muito apegados ao insignificante e pouco ao relevante. E que resolvemos abandonar o enorme potencial que nos caiu de bandeja na roleta da evolução para submergirmos em pequenas intrigas, ao dia a dia, ao olhar individual e ao interesse de pequenos grupos.

É uma pena.


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