‘A Filha Perdida’ tenta normalizar sentimentos mistos de mãe, diz diretora – 06/01/2022 – Cinema e Séries

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The New York Times

Maggie Gyllenhaal nunca hesitou em aceitar papéis difíceis. A atriz vem forçando os limites há anos, com interpretações de personagens complicadas como uma secretária que participa de jogos sadomasoquistas com seu chefe (“Secretária”), a filha de um negociante de armas que se vê envolvida no conflito entre Israel e Palestina (“The Honorable Woman”) e uma prostituta na Nova York da década de 1970 (“The Deuce”).

Mas o trabalho como diretora e roteirista de “A Filha Perdida”, adaptação do romance homônimo de Elena Ferrante, pode se provar o papel mais arriscado que ela já assumiu. O filme, que se passa em uma ensolarada ilha grega, é estrelado por Olivia Colman como Leda, uma professora de literatura de meia-idade que está fazendo uma viagem solo de férias e se envolve com uma jovem mãe, Nina (Dakota Johnson).

Quando o relacionamento entre ela, Nina e sua família se intensifica, o passado de Leda e as decisões que ela tomou na juventude passam a influenciar o presente, com resultados estranhos e ocasionalmente perturbadores.

Como o romance, o filme —disponível na Netflix — confronta questões complicadas que as mulheres enfrentam em estágios diferentes de suas vidas. As pressões intensas da maternidade ocupam posição central na história, mas a trama também fala de ambição, sacrifício, envelhecimento e arte.

O filme já conquistou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cinema de Veneza, e atraiu atenção na temporada de premiações, o que inclui indicações em diversas categorias por grupos de críticos e outros.

No mês passado, “A Filha Perdida” conquistou quatro prêmios Gotham, entre os quais o de melhor longa. Durante um longo almoço em Nova York, Gyllenhaal –que, apropriadamente, usava diversos tons de azul que lembram o Mar Egeu– falou sobre ser diretora hoje, dos tabus que existem quanto à maternidade e do que significa traduzir Ferrante para o cinema. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

O que a levou a adaptar Ferrante?

Comecei pelos romances napolitanos. Ela falava de coisas que eu quase nunca tinha visto expressadas, antes. Minha impressão era, meu Deus, essa mulher é um problema, mas 10 segundos adiante eu logo pensava que me identificava com ela, o que significa que ou eu também sou um problema ou muita gente pensa essas coisas mas escolhe não falar sobre elas.

Por fim cheguei à conclusão de que aquilo era perturbador mas também reconfortante, porque, se alguém escreveu aquilo, você pode pensar que não está sozinha no que imaginava ser uma ansiedade ou terror secreto, ou mesmo, do outro lado do espectro, na intensidade de sua alegria e conexão.

Em seguida li “A Filha Perdida” e pensei: E se, em lugar de cada um de nós ter aquela experiência de se sentir sozinho em seu quarto, fosse possível criar uma situação na qual a experiência fosse comum, e esses assuntos fossem de fato comentados em voz alta?

O filme mostra a alegria de ser mãe, mas também as frustrações. Por que é tão difícil ver essas tensões na tela, em sua opinião?

Creio que seja por uma combinação de duas coisas. Em parte, nunca houve muito espaço para que as mulheres se expressassem, e portanto uma expressão feminina honesta é incomum. Mas também existe uma espécie de acordo cultural quanto a não falar sobre essas coisas porque todos temos mães. E todos pensamos que “eu não gostaria que minha mãe tivesse sido ambivalente”.

Tentei ser o mais honesta que pudesse. O objetivo é normalizar um espectro amplo de sentimentos. Creio que especialmente para a Leda jovem e para Nina, o desejo –seu imenso desejo intelectual, seu desejo artístico, seu desejo físico– fosse maior do que aquele que nos dizem que podemos ter, ou precisamos ter, e com certeza isso é algo com que me identifico.

As cenas com as crianças pequenas são muito fortes. Existe um elo entre elas e o seu relacionamento com seus filhos?

Bianca, uma das filhas de Leda quando jovem, tem uma mente que parece talhada para se enquadrar à da mãe. Meus filhos são assim, também. São o mais belo dos desafios, para mim –tipo “nossa, nem consigo acreditar quer você percebeu isso e entendeu isso”.

De muitas maneiras, “A Filha Perdida” pode ser entendido como um filme de terror. Foi por escolha?

Eu queria fazer um thriller. O livro na verdade não é um thriller, mas eu reforcei esse aspecto porque achava que me daria maior liberdade artística. Eu queria me desafiar a ingressar no campo do terror, um filme de terror sobre o funcionamento interno da mente. Ela não é uma má pessoa; ela é como você. E eu gostava da ideia de dispor de uma estrutura clássica para servir de base. Descobri em trabalhos passados que consigo a maior liberdade de expressão como atriz em projetos onde existe uma estrutura realmente clara.

Não tenho certeza de que farei o mesmo em meu próximo trabalho. Participei do júri em Cannes este ano, provavelmente duas ou três semanas depois de concluir a montagem final. Assistindo a alguns filmes muito, muito interessantes, percebi que você pode fazer exatamente o que quer se estiver na trilha de alguma coisa verdadeira; é algo que eu acho que não sabia até agora.

Qual foi a parte mais difícil do trabalho de adaptação?

Descobri que adaptar emprega um músculo semelhante ao que eu usava como atriz, em termos de tomar um texto, quer ele seja excelente, quer tenha problemas, e descobrir qual é a essência daquele material. Existem algumas coisas que são literais, mas são muito estranhas. Como o diálogo em que Leda diz “sou uma mãe desnaturada”. Isso veio diretamente de Ferrante, simplesmente copiei o livro, mas muita gente me aconselhou a tirar aquela fala. Eu aproveitei a liberdade que Ferrante me deu e mudei muita, muita coisa, mas acredito sinceramente que o roteiro e o filme tenham um diálogo forte com o livro.

Leda é escritora, e mostrar as ambições que ela tinha quando jovem é parte importante do filme. Você assistiu a “Bergman Island”, este ano? Os dois filmes lidam com a questão de é possível ser mulher e ser artista, as duas coisas plenamente, ao mesmo tempo.

Acredito que exista literatura feminina e cinema feminino. Há mulheres feministas muito interessantes que discordam de mim. Creio que quando as mulheres se expressam honestamente, a sensação é diferente daquela que surge quando homens se expressam honestamente. E é um assunto realmente perigoso sobre o qual falar.

Quando me deixam solta, me dão algum dinheiro e algum espaço em que contar a história que desejo contar, minha escolha é contar uma história sobre maternidade. É uma história doméstica, e inclui muitas cenas na cozinha. Histórias sobre domesticidade podem realmente ser encaradas como arte séria? Porque, para mim, essa história é uma ópera.

Não venho de uma família cujas mulheres vivessem na cozinha. Minha mãe é uma profissional do cinema (Naomi Foner Gyllenhaal é roteirista e diretora), minha avó foi pediatra na década de 1940 e minha bisavó era advogada. Eu tive uma educação formal, e tenho uma carreira profissional, mas a identificação como mãe é parte imensa de mim.

Como foi trabalhar com Olivia Colman?

Olivia na verdade não gosta muito de falar sobre as coisas. Imagino se isso não é porque só recentemente ela ganhou poder como atriz, e se ela se sente mais ou menos como eu me sinto quando trabalho como atriz, e é raro que alguém dê valor às minhas ideias. As pessoas dizem que gostam das sugestões, mas atrizes com ideias demais as irritam. Não sou idiota, e assim guardo a maior parte dessas ideias para mim. Lembro-me de perguntar a Olivia se ela gostava de ensaiar, e de ela responder que “na verdade, não”. É uma resposta com a qual me identifico totalmente.

Quem a inspira como diretora?

Fellini e Lucrecia Martel, que nunca em sua vida foi literal. Amo Claire Denis. Conversei muito com Jane Campion e David Lynch. E embora nunca tenha trabalhado com ele, fiz uma leitura de peça com Mike Nichols durante um final de semana. Ele amava seus atores, e me ensinou multa coisa. Lembro de ter lido (na recente biografia “Mike Nichols: A Life”) sobre ele ter dito: “Lamento muito que vocês não queriam filmar ‘Quem Tem Medo de Virginia Woolf’ em preto e branco. Melhor vocês procurarem outro diretor, porque estou saindo”. Houve um par de ocasiões neste filme em que tive de dizer “isso não funciona”. Íamos filmar em Nova Jersey, mas não funcionava. E eu: “Não sei o que dizer”.

O tema da tradução é obviamente importante para os personagens. Leda traduz literatura italiana, e você também está traduzindo Ferrante. O que o papel de tradutora significa para você?

Há um trecho de “Kudos”, livro de Rachel Cusk, que eu releio algumas vezes, quando estou pensando em adaptação de um modo geral. Eis o trecho: “Traduzi cuidadosamente e com grande cautela, como se fosse algo frágil que eu pudesse matar ou quebrar por engano”. Adoro essa frase. Ela está dizendo que “ao ler seu livro, alguma coisa me foi comunicada que eu jamais tinha ouvido dita em voz alta antes, e me eletrizou, me fez compreender alguma coisa sobre mim, e eu preciso segurar essa ideia com todo cuidado em minhas mãos e conduzi-la ao outro lado”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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