A complexidade da burocracia e o sumiço do dinheiro do enterro – 04/01/2022 – Frederico Vasconcelos

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Há exatos 23 anos, completados nesta terça-feira (4), este editor publicou artigo na Folha em que trata de um caso de flagrante desrespeito ao cidadão por uma empresa prestadora de serviços públicos.

Lembrei-me desse texto ao ler o conto “Arqueologia de um óbito ou a bestialidade do nosso tempo“, da escritora Ana Cristina Ribeiro Bonchristiano. Seu conto, resumido neste espaço, foi um dos finalistas do 2º Concurso Literário da Revista PUB – Diálogos Interdisciplinares.

Em comum, os dois textos sugerem um processo kafkiano, pesadelo burocrático que atormenta o cidadão.

O diferencial é que o artigo selecionado no concurso é uma ficção. No segundo caso, reproduzido a seguir, a realidade ficou evidente porque uma pessoa modesta teve o cuidado de guardar os documentos comprovantes de uma injustiça irrefutável.

Detalhe: a ilustração do post, de Gavin Adams, foi especialmente preparada para o artigo de Ana Cristina, no livro “Isto não é Direito” (editora Terra Redonda).

O dinheiro do enterro

Dona Marineide dos Santos é uma mulher simples, de poucos recursos e letras. Não é dada a escrever cartas. Mas numa emergência, no dia 4 de novembro, usou o serviço de vale postal da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, em Tietê, interior de São Paulo, para remeter R$ 265 a um parente, em Ribeirão Branco (SP). Era a sua parte nas despesas do sepultamento de um familiar.

Dona Marineide não lida com números. Não sabe que, naquele dia, os Correios realizavam 16,7 milhões de entregas, entre as quais a sua remessa, tão emergencial. Mas o que representa um vale postal entre dois municípios, num universo de encomendas e mensagens telemáticas que exigem um exército de 80 mil empregados?

Dona Marineide desconhece as pesquisas que indicam que os Correios são a instituição de maior confiabilidade no Brasil. Sua dolorosa experiência, contudo, mostrou que o seu dinheiro, tão esperado, não chegou ao destino.

Dona Marineide não conhece a lei sobre os serviços postais, que regula os direitos e obrigações dos Correios, mas foi se informar sobre o extravio. No dia 25 de novembro, Sílvio Faria Filho, agente dos Correios, confirmou por carta que o dinheiro não entrara na agência de Ribeirão Branco.

Dona Marineide não sabe que a lei que regula o serviço postal dispõe que os Correios devem “promover formação e treinamento de pessoal sério ao desempenho de suas atribuições”. Não tinha por que duvidar do sr. Sílvio, que dizia que seu dinheiro se extraviara por “falhas da burocracia”.

Dona Marineide mora no campo, mas assiste à televisão. Deve ter imaginado que a tal crise chegou a um ponto em que os Correios não tinham como devolver o seu dinheiro. A crise é brava, mas os Correios ainda dispõem de fôlego para aplicar algo como mil vezes o vale postal extraviado para patrocinar uma mostra na Bienal.

Dona Marineide e seus parentes ficaram sem ver a cor do dinheiro. Mas o que representa seu vale postal diante dos R$ 45 milhões que os Correios gastam para agências premiadas de publicidade nos dizerem que os serviços postais brasileiros estão entre os mais avançados do mundo?

Dona Marineide deve ter horizontes limitados; não sabe que os Correios investem R$ 500 milhões por ano para comprar equipamentos e melhorar as técnicas de atendimento. E que obtiveram financiamento externo para contrato de R$ 31,5 milhões com duas multinacionais, que fornecerão novo sistema para rastrear objetos. Quem sabe, no futuro, extravios como o de seu vale postal não ocorrerão.

Dona Marineide não sabe o que é globalização e neoliberalismo, não deve atinar para os tais mecanismos de proteção aos consumidores. Sabe quanto custa uma passagem de ônibus para reclamar o reembolso do que lhe é devido, mas não tem ideia do que sejam as “falhas da burocracia”.

Dona Marineide não lê jornais e não deverá ficar sabendo por esta coluna que, 50 dias depois de sua angústia, os Correios -em menos de uma hora- confirmaram a grande injustiça e anunciaram que o dinheiro estaria disponível na agência, naquele dia.

Dona Marineide não imagina, mas a estatal só foi ágil depois que um jornalista levou o fato ao conhecimento da assessoria da presidência da empresa, em Brasília. Convenhamos, diante da complexidade da burocracia, tratava-se apenas do dinheiro para o enterro de um anônimo, não é mesmo?


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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