A astrologia explica o cérebro humano – 14/10/2021 – Luciano Melo

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“Uma prova grandiosa da deplorável subjetividade dos homens –em consequência da qual eles referem tudo a si mesmo e todo o pensamento retornam em linha reta a si próprios– nos é dada pela astrologia, que remete o curso dos grandes corpos celestes ao pobre Eu, assim como relaciona os cometas no céu às ações das velhacarias terrenas. Todavia isso ocorre em todas as épocas e já ocorreu nas mais remotas”.

Inicio minha coluna com esta citação ao filósofo Arthur Schopenhauer. Um abuso, pois recorro ao célebre pensador para disfarçar minha medíocre escrita em pretensa erudição. Fique claro, meu querido leitor, se você se influencia por horóscopos, ou sabe observar Júpiter em escorpião, já está avisado, sou um redator incompetente, tome meu texto como piada, não se ofenda e me perdoe.

Reveja as previsões, alguma, talvez, alertou-lhe sobre o risco de se deparar com um texto ignóbil a contaminar a sua procura por leitura útil. Previna-se, use meus argumentos para exercitar sua habilidade de refutação, a partir de agora reforce sua fé, que aqui será ultrajada.

Objetivamente a astrologia vem minguando em força e relevância. No início da idade moderna, médicos tomavam decisões cirúrgicas influenciados por interpretações de mensagens cifradas por corpos celestiais, hoje a astrologia não está em nenhuma aula de medicina. Doenças, fome e perdas agrícolas eram explicadas por malefícios de cometas. Ninguém, sequer, culpou uma chuva de meteoros pela epidemia que enfrentamos.

Aliás, a Covid-19 foi a oportunidade perdida por astrólogos para demonstrar competência: a doença já fazia vítimas em 2019, ano em que eles não a consideraram enquanto previam 2020. Enquanto um monte de terapias esdrúxulas, algumas até oficiais, pipocam contra o Sars-CoV-2, a astrologia não aproveitou o momento de negação às práticas sanitárias adequadas para instituir mapas astrais, com dicas de prevenção em protocolos de hospitais de qualidade duvidosas.

Mas não é só na doença e na saúde que a astrologia fracassa. Há insucessos políticos. Durante a Guerra dos 30 anos (1618-1648), o general da Boêmia von Waldstein tomava decisões bélicas aconselhado por um astrólogo italiano. A assessoria não impediu sua queda em desgraça, até ser assassinado por militares compatriotas.

Por sua vez, o início da Segunda Guerra Mundial, foi marcado pelo desespero da Grã-Bretanha, oprimida pelos expressivos avanços militares do inimigo nazista. Atordoados, os britânicos empregaram o astrólogo Louis de Wohl junto à inteligência, para tentar desvendar os segredos da força alemã. O excêntrico empregado disse, erroneamente, que a astrologia guiava as ofensivas de Hitler.

O curso da guerra mudou, a Inglaterra foi vitoriosa, seu serviço de inteligência criou uma das primeiras máquinas da computação e nunca mais se importou com opiniões de astrólogos. As posições planetárias também não explicam as diferenças de personalidade entre gêmeos bivitelinos, nascidos sobre a mesma configuração da ogiva zodiacal.

Então, o que resta à astrologia para ainda fascinar? A resposta a esta pergunta diz muito sobre o nosso cérebro primata e sua essencial expressão, o comportamento humano. Há várias explicações em teorias que se complementam.

Para aqueles com compreensão científica modesta, os conceitos elaborados da astrologia reluzem atrativos. Esta explanação tem em seu nome uma conotação sarcástica: a hipótese do conhecimento superficial. Outros se apegam ao suposto poder dos astros por acreditarem que ações metafísicas esclarecem os mistérios da vida. Ou seja, encontram nos astros uma forma de sanarem carência espiritual, sem se integrarem às religiões tradicionais.

Porém, estas duas formas de explicar a devoção à astrologia requerem um seguidor passivo. Nem sempre é o caso, astrólogos e seus clientes travam uma luta duradoura contra a ciência convencional. Forjam argumentos para assegurar o credo, sem confirmações e sem experiências. Por isso o horóscopo está presente neste jornal e resiste, ainda que o corpo de editorialistas se manifeste em favor da ciência. Esta crença está estabelecida, embora continue como superstição primitiva, que recai no fatalismo e narcisismo.

Sou agressivo por meu signo ser y, sou desleixado pois meu ascendente é z, mas consigo ser amoroso e objetivo pois tal astro rege qualquer coisa. Sob estas construções, problemas emocionais viram descrições, o que traz alento. Se algo deu errado é culpa dos arranjos planetários. Os inconformados com as incertezas e ambiguidades do mundo têm à disposição informações que caminham por anos-luz, para resolver suas ansiedades.

Algumas pessoas se reconhecem em descrições generalizadas, um viés cognitivo reconhecido como efeito Barnum –ou Forer. São exemplos de frases “barnumianas”: “você tem um grande potencial, mas ainda não o utilizou a seu favor”. “Algo que você deseja acontecerá em breve, tão logo terá a merecida e sonhada recompensa”. “Você tende a ser muito autocrítico”. “Às vezes, você tem sérias dúvidas se tomou a decisão correta”.

Esta é a receita para compor as previsões de horóscopos e as descrições de personalidade acordadas com os signos do Zodíaco. Parecem frases acuradas, personificadas, mas podem ser ditas a qualquer um, logo são desprovidas de relevância pessoal. Quem considera precisas palavras como essas acredita que os métodos para compô-las são igualmente precisos. Ademais, esses motes quase sempre agradam. Portanto, quem os lê sente melhorias na autoestima, ainda que momentaneamente.

Acreditar em astrologia significa defender e manter concepções de si próprio. E uma das maiores razões para acreditar em superstição é o desejo de controlar o incontrolável, inclusive o suceder dos acontecimentos e as razões de seus atos.


Philip Ball. “MÉDICO DO DEMONIO: PARACELSO E O MUNDO DA MAGIA E DA CIENCIA RENASCENTISTA”, [s.d.].

Arthur Schopenhauer. “A arte de envelhecer”, [s.d.].

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Frederich Schiller. “The Thirty Years War.Book II”., [s.d.].

Winter, P. R.J. “Libra Rising: Hitler, Astrology and British Intelligence, 1940–43 1”. Intelligence and National Security 21, no 3 (junho de 2006): 394–415. https://doi.org/10.1080/02684520600750653.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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