40 anos de ‘Conan,o Bárbaro’: como Arnold Schwarzenegger conquistou o mundo – 14/05/2022

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“Esmagar seus inimigos, vê-los escorraçados e ouvir o lamento de suas mulheres!” Há 40 anos, o cimério Conan explicava, em meio a gladiadores, mercenários e reis, qual a melhor coisa da vida.

Lá se vão quatro décadas desde que o bárbaro criado pelo escritor pulp Robert E. Howard nos anos 1930 saiu da bolha da literatura fantástica e do nicho das histórias em quadrinhos para ganhar o mundo.

Quatro décadas desde que o gênero espada e feitiçaria se reposicionou como uma força em Hollywood, influenciando também o cinema global. Quatro décadas, por fim, desde que nos rendemos ao carisma gigantesco de Arnold Schwarzenegger.

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Subotai (Gerry Lopez), Conan (Schwarza) e Valeria (Sandahl Bergman): ladrões a serviço do rei

Imagem: Reprodução/Fox

Foi um caso de casamento perfeito de personagem com intérprete. O produtor Edward R. Pressman começou a procurar seu Conan desde a metade dos anos 1970, antes mesmo de garantir os direitos do personagem.

Na época, o personagem experimentava sucesso nos quadrinhos publicados pela Marvel. O título mensal repetia a fórmula feiticeiro malvado/donzela em perigo/Conan ao resgate. Já o segundo título, “A Espada Selvagem de Conan”, trazia histórias mirando o público adulto, que não economizavam em violência e nudez.

Com a burocracia pelos direitos já encaminhada, e o entusiasmo de Hollywood por histórias fantásticos depois do sucesso de “Guerra nas Estrelas” em 1977, Pressman armou-se dos quadrinhos, mais as ilustrações do bárbaro produzidas pelo artista Frank Frazetta, em sua busca pelo ator com a mesma imponência física do personagem.

Grandes nomes da época foram ventilados ao longo da pré-produção. De celebridades como Charles Bronson e Sylvester Stallone a amadores como o jogador de rúgbi Jethro. William Smith, que trabalhava basicamente em TV, quase ficou com o papel – ele pode ser visto no filme como o pai de Conan.

Em 1976, Pressman e seu parceiro, Edward Summer, assistiram ao documentário sobre fisiculturismo “Pumping Iron”, e tiveram de recolher seu queixo do chão ao ver Arnold Schwarzenegger em cena. O austríaco tinha não só o físico, mas também a determinação que o fazia demolir barreiras que a indústria colocava à sua frente. Schwarza enxergou o projeto como um trampolim para suas próprias ambições e topou.

As engrenagens aos poucos se moviam. Oliver Stone entregou um primeiro roteiro, que foi usado como base para o diretor de arte Ron Cobb, que empregou seu talento em “Guerra nas Estrelas”, “Alien, o Oitavo Passageiro” e “Caçadores da Arca Perdida”, recriar a Era Hiboriana imaginada por Robert E. Howard e concretizada nas HQs da Marvel.

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A imagem de Conan crucificado tem inspiração em um conto de Robert E. Howard

Imagem: Reprodução/Fox

A chegada do diretor John Millius veio com a entrada de Dino De Laurentiis, que terminou investindo sozinho no projeto. Millius reescreveu o texto de Stone, removendo partes em que a história saltaria para um futuro pós-apocalíptico (Stone trabalhou no auge de seu vício em cocaína)

Para dar ritmo e encontrar o rumo narrativo, Millius também adicionou fragmentos de histórias de Howard, do expert no cimério Roy Thomas, responsável pelo texto dos quadrinhos da Marvel, e de escritores que publicaram Conan como literatura pulp depois da morte trágica de seu criador.

A produção se mudou para a Espanha. Depois de Schwarzenegger perder massa muscular para ganhar agilidade – ele sequer conseguia manejar a espada no começo das filmagens -, “Conan, o Bárbaro” foi tomando forma. O elenco trazia novatos como Sandahl Bergman e Gerry Lopez ao lado de veteranos como James Earl Jones, Mako e Max von Sydow,

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Max von Sydow trouxe credibilidade ao filme como o rei Osric

Imagem: Reprodução/Fox

Nesse ponto, é importante dizer quem era John Millius na Hollywood dos anos 1970. Formado como roteirista, ele entendeu o niilismo reinante na América sob a sombra da Guerra do Vietnã e escreveu contos de heróis que triunfam sem áreas cinzentas, fantasias masculinas que compensavam a derrota do país na Ásia.

De sua caneta surgiu o policial Dirty Harry, imortalizado por Clint Eastwood em “Perseguidor Implacável”. Ele escreveu “Mais Forte Que a Vingança” para Robert Redford e “Roy Bean – O Homem da Lei” para Paul Newman.

Abordou o Vietnã diretamente no drama “Amargo Reencontro”, em que o surfe é uma metáfora para as mudanças constantes da vida. E assinou o roteiro de “Apocalypse Now”, pesadamente modificado pelo diretor Francis Ford Coppola.

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Conan pronto para o ataque em momento eblemático da aventura

Imagem: Reprodução/Fox

Acima de tudo, John Millius ganhou fama como “consertador”. O protagonista de seu filme não tem uma voz clara no roteiro? Chama John Millius. A ação precisa de foco e trabalhar com a narrativa? John Millius é o cara. Precisa de frases de impacto que possam imortalizar seu projeto na história do cinema? Bom, John Millius escreveu “Eu adoro o cheiro de napalm pela manhã”.

Seu talento também lhe conferiu independência e uma certa soberba, predicados abastecidos por vícios que incluíam carros e motos de luxo, prostitutas a granel e barris de cocaína. Autoproclamado “anarquista zen”, ele se coloca ao lado da ala conservadora de Hollywood mas proclama ódio por todas as formas de governo.

Ou seja, não é exatamente um sujeito que lida bem com autoridade. Dino De Laurentiis descobriu da pior forma quando começou a receber o material de “Conan”. Ele esperava o clima de “Guerra nas Estrelas”, do amigo de Millius, George Lucas. Lutas de espada com sujeito vestindo tanga de couro em vez de roupas espaciais.

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James Earl Jones é Thulsa Doom, objeto da vingança de Conan

Imagem: Reprodução/Fox

O que ele recebeu, entretanto, foi um tratado filosófico sobre o “enigma do aço”, sobre uma vida reduzida às necessidades primordiais. Comida, vinho, hedonismo, liberdade irrestrita. Embalado pela trilha belíssima de Basil Poledouris, o filme trazia vingança como a força motriz em uma moldura de violência extrema com decapitações, uma crucificação, vísceras expostas, crânios fraturados e uma orgia canibal.

Arnold Schwarzenegger, que depois se filiaria ao partido Republicano, entendeu a visão de seu diretor e tentou imprimir essa densidade a Conan, a busca pelo básico da vida. Era um círculo paradoxal que incluía vingança sangrenta sobre o mesmo déspota que ajudou a moldá-lo em um guerreiro implacável.

A figura imponente de Schwarzenegger, estampando todo o material promocional, impulsionou a curiosidade acerca “Conan, o Bárbaro”. Depois de começar sua carreira na Espanha ainda em março, o filme chegou aos cinemas americanos, distribuído pela Universal, em 14 de maio de 1982.

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Arnold Schwarzenegger em ação no set espanhol de ‘Conan, o Bárbaro’

Imagem: Reprodução/Fox

Foi um estouro. Não só em bilheterias, que viram o orçamento de US$ 20 milhões quadruplicado. “Conan” tornou-se febre global, disparando em todo o mundo produções de espada e feitiçaria, protagonizada muitas vezes por bárbaros mambembes.

Sem “Conan, o Bárbaro”, provavelmente não haveria “A Lenda”, de Ridley Scott (que recusou dirigir a aventura do cimério), ou “O Feitiço de Áquila”, ou “O Príncipe Guerreiro” (é bem legal e super podreira, vale procurar). Não haveria “O Senhor dos Anéis”. Não haveria “Game of Thrones”. Não haveria “O Homem do Norte”.

Não haveria, acima de tudo, o gatilho que disparou a carreira de Arnold Schwarzenegger. Ele voltou ao personagem dois anos depois em “Conan, o Destruidor”. Dirigido por Richard Fleischer, a sequência finalmente trazia o clima de gibi censura livre que De Laurentiis buscava. Não foi bem nas bilheterias, mas ajudou o austríaco a se livrar do contrato leonino que ele tinha com De Laurentiis.

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Arnold Schwarzenegger recebe instruções do diretor John Millius

Imagem: Reprodução/Fox

No mesmo ano, Schwarza cravou a parceria com um diretor iniciante e igualmente determinado. “O Exterminador do Futuro”, de James Cameron, terminou por se tornar seu verdadeiro personagem-assinatura, que ele revisitou outras quatro vezes entre 1991 e 2019.

Planejando sua carreira cuidadosamente, Arnold tornou-se um dos maiores astros do planeta nos anos 1980 e solidificou seu status na década seguinte. No novo século, ele pisou no freio ao trocar o cinema pela política, tornando-se governador da California.

Trabalhando hoje em projetos fora dos grandes estúdios, como “Maggie”, “Em Busca da Vingança” e o bizarro “Queremos Matar Gunther”, Schwarzenegger diminuiu o ritmo, mas não o entusiasmo.

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Arnold Schwarzenegger e Sandahl Bergman jogam charme para a câmera

Imagem: Reprodução/Fox

“A Lenda de Conan” está no radar há alguns anos, mas as peças para solidificar o projeto parecem nunca se encaixar. Não tem problema. Com o porte do bárbaro em seus anos após se tornar rei da nação mais poderosa da Era Hiboriana, Arnold ainda pode queimar quilometragem e esperar pelo momento certo.

“Conan, o Bárbaro” foi, afinal, resultado de uma série de acidentes felizes. Eventos que, há exatos 40 anos, fizeram com que o fisiculturista de sotaque incompreensível e nome impronunciável dominasse o mundo. E sem precisar esmagar inimigos, vê-los escorraçados ou ouvir o lamento de suas mulheres… Ou assim eu imagino.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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