200 anos em dois – 01/09/2021 – Zeca Camargo


Escrevo de uma cidade inspirada e construída por um idealismo e uma ambição a que o atual habitante supremo dela não é capaz nem de aspirar, que dirá planejar. Estou em Brasília, que já foi símbolo de um país que quis crescer 50 anos em cinco e hoje parece ter regredido quase 200 anos em pouco mais de dois.

Acordo no que tenho quase certeza que é o lado norte do lago Paranoá com um sol que não esconde suas intenções de secar todo o ar e fazer nossos narizes sangrar. Estou longe dos cartões postais, mas sou capaz de sentir a fascinação que eles exercem até hoje.

Mais que papel de parede para tanques fumacentos, o Palácio do Planalto é um dos símbolos de uma ideia que, se parecia ambiciosa, hoje é totalmente quixotesca. Para se construir algo como Brasília é preciso ser grande, e nós vivemos hoje num país pequeno, prestes a comemorar sua independência ameaçando seus filhos com tempos sombrios.

Passei ontem à noite pelo Palácio do Itamaraty, estupendo. Vi de longe a Catedral Metropolitana, um colírio. A Praça dos Três Poderes sublime, supostamente vivendo em delicada harmonia, na verdade, mais para um perigoso desequilíbrio. Não é fácil para um brasileiro olhar para todos estes monumentos incríveis de Oscar Niemeyer apenas como um turista.

Para além do fascínio visual, passo esses dias a me perguntar: onde estão os líderes que já tiveram um projeto de nação? Tento não me contaminar pela atmosfera tóxica do discurso político, mas não está fácil com as mensagens que chegam nas minhas redes sociais, desde que compartilhei minha escala atual.

Elas vão de sugestões de atos terroristas a insinuações (infundadas, como posso alegremente provar) de que estou aqui às custas de dinheiro público, como em uma daquelas cenas constrangedoras batizadas de motociatas, uma palavra tão odiosa que nem o corretor ortográfico aceita.

Para fugir disso, acordo hoje cedo e vou passear na beira do lago, tentando me conectar com a natureza, um inesperado atrativo turístico da nossa capital federal. Penso na coluna que queria escrever inicialmente, sobre como uma música pop perfeita (“Montero”) pode fazer você dar uma volta ao mundo. Não é uma má ideia.

Em cima de um podcast que ouvi recentemente (“Switched on Pop”), descubro que o sucesso de Lil Nas X usa uma escala da música árabe —uma cultura conhecida não exatamente por sua aceitação à liberdade sexual— para construir não só um hit mundial mas também um vídeo em que ele desce ao inferno e sensualiza com o diabo, com inúmeras referências ao universo LGBT+.

E queria levar você nessa viagem.

Mas aí eu lembro que estou em Brasília, desgovernada por um desastre político, intelectual, sanitário, cultural, econômico, ambiental, diplomático, humanitário, internacional. E só consigo me perguntar como esta cidade tão simbólica agora representa tanta coisa ruim.

Estou no centro do Brasil e ao mesmo tempo me sinto fora da órbita terrestre. Registro com horror não só os atos bárbaros de toda uma administração que prefere fuzis a feijões, mas também a cornucópia de ignorância que brota daquele minúsculo palanque covarde, aqui ao lado, onde todas as manhãs aquele que deveria guiar um país arrulha para uma reduzida claque tola bobagens que, incompreensivelmente, ainda repercutem.

Brasília tem que ser mais que isso. Nós temos que desejar ser mais que isso. Entender o processo (ou realidade) pavorosa que nos fez chegar até aqui para o mais cedo possível nos preparamos para reverter essa espiral descendente.

E aí, quem sabe, usar a própria Brasília para avançarmos 100 anos em dez.


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